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Nesta página estarão uma compilação dos extras, cenas cortadas, contos e outros bônus extras ou conteúdo especial dentro da série, lançado juntamente com Os Artifícios das Trevas ou pela própria Cassandra Clare.

Dama da Meia-Noite

Cena deletada de Jules

fonte: Cassandra Clare no Twitter

Algumas pessoas faziam listas de coisas que queriam fazer antes de morrerem; Julian tinha uma lista de coisas que não podia fazer. Ele estava deitado com o braço rodeando o corpo de Emma, seus dedos mal tocando seu braço nu, recitando silenciosamente sua lista.

Coisas que eu nunca posso fazer:
Deixar as crianças
Deixar que alguém descubra sobre Arthur
Deixe a Clave ter Ty
Deixar qualquer um saber porque eu me levanto antes do nascer do sol
Contar...

Emma se moveu enquanto dormia, acariciando-o suavemente com a mão, curvando-se para ele como um gato procurando calor. Passava da meia-noite; Julian teria que se levantar em quatro horas, mas ele podia sentir seu coração martelando na parte de trás de sua garganta e ele sabia que o sono não viria.

Coisas que eu nunca posso fazer:
Deixar as crianças
Deixar que alguém descubra sobre Arthur
Deixe a Clave ter Ty
Deixar qualquer um saber porque eu me levanto antes do nascer do sol
Contar a Emma

Uma Longa Conversa

CJ Jace & Clary 19, ALC

Capa da história online por Cassandra Jean.

Uma pequena história incluída nas primeiras edições de Dama da Meia-Noite, abordando uma festa com a presença de personagens de Os Instrumentos Mortais mencionados e amarrando-os a eventos em Dama da Meia-Noite, permitindo que os leitores vejam os personagens de Os Instrumentos Mortais.
A história será lançada online (em inglês) em abril de 2017.[1]
  • Abaixo está a história, retirada da edição brasileira de Dama da Meia-Noite.
ALERTA DE SPOILER: Detalhes do enredo a seguir. Aconselhamos atenção!


Clary olhou em volta da sala de música do Instituto com um sorriso. Em uma noite quente de verão em Nova York, as janelas estavam abertas e Magnus havia produzido magicamente pingentes de gelo que pendiam do teto e refrescavam o ambiente. O recinto estava cheio de pessoas que Clary amava e com as quais se importava, e em sua opinião, estava muito bonito, considerando que ela teve um prazo de 24 horas para correr e encontrar algum lugar no Instituto onde pudessem dar uma festa.

Realmente não existia razão para não sorrir.

Dois dias antes, Simon tinha aparecido no Instituto, arfando e com os olhos arregalados. Jace e Clary estavam na sala de treinamento, verificando a nova tutora do Instituto, Beatriz Mendoza, e alguns dos alunos do Conclave.

— Simon! — exclamou Clary. — Eu não sabia que você estava em Nova York.

Simon tinha se formado na Academia dos Caçadores de Sombras como parabatai de Clary e como Recrutador, um cargo criado pela Consulesa para ajudar a reabastecer as tropas de Caçadores de Sombras, diminuídas com a Guerra Maligna. Quando prováveis candidatos a Ascender eram encontrados, Simon ia até ales para falar sobre o que significava se tornar um Caçador de Sombras após a vida mundana. Era um trabalho que frequentemente o levava para longe de Nova York, e essa era a desvantagem; a parte boa era que Simon realmente parecia gostar de ajudar mundanos assustados com a Visão a sentir que não estavam sozinhos.

Não que Simon parecesse capaz de confortar qualquer um nesse momento. Ele parecia ter sido atingido por um tornado.

— Acabei de pedir Isabelle em casamento — anunciou ele.

Beatriz gritou de alegria. Alguns dos alunos, temendo um ataque demoníaco, também gritaram. Um deles caiu de uma viga e tombou com força no tatame. Clary começou a chorar de alegria e abraçou Simon.

Jace deitou no chão com os braços abertos.

— Vamos ser uma família — falou ele melancolicamente — Você e eu, Simon, seremos irmãos. As pessoas vão pensar que somos parentes.

— Ninguém vai pensar isso — disse Simon, com a voz abafada pelo cabelo de Clary.

— Estou tão feliz por você, Simon — disse Clary. — Você e Izzy serão tão, tão felizes. — Ela se virou e encarou Jace. — Quanto a você, pode se levantar para dar os parabéns a Simon ou vou entornar todo o seu xampu caro no ralo.

Jace se levantou; ele e Simon trocaram tapinhas nas costas de um jeito másculo, e Clary ficou feliz por perceber que ela tinha orquestrado aquilo. Jace e Simon eram amigos havia anos, mas Jace ainda parecia achar que precisava de desculpas para demonstrar o seu afeto; Clary senti-se feliz em oferecê-las.

— Correu tudo bem com o pedido? Foi romântico? Você a surpreendeu? Não acredito que não me contou que ia fazer isso. — Clary deu um tapa no braço de Simon. — Tinha rosas? Izzy adora rosas.

— Foi no impulso — disse Simon. — Um pedido impulsivo. Estávamos na Ponte do Brooklyn. Izzy tinha acabado de arrancar a cabeça de um demônio Shax.

— E coberta de icor, você nunca a achou tão bela? — perguntou Jace.

— Algo do tipo — respondeu Simon.

— Essa foi a coisa mais Nephilim que já ouvi — disse Clary. — E os detalhes? Você se ajoelhou?

— Caçadores de Sombras não fazem isso — disse Jace.

— É uma pena — falou Clary. — Adoro essa parte nos filmes.

— Então por que você parece tão assustado? — perguntou Jace. — Ela disse sim, não disse?

Simon passou os dedos no cabelo.

— Ela quer uma festa de noivado.

Open bar — disse Jace, que tinha desenvolvido um interesse em mixologia que Clary achava divertido. — Definitivamente open bar

— Não, vocês não estão entendendo — emendou Simon. — Ela quer que seja daqui a dois dias.

— Hum — disse Clary. — Dá para entender que ela está animada para dar a notícia aos amigos e à família, mas certamente tem como esperar mais um pouco...?

Quando Jace falou, a voz saiu seca:

— Ela quer que seja no aniversário de Max.

— Ah — responder Clary baixinho. Max, o mais jovem e doce dos Lightwood, o irmãozinho de Izzy e Alec. Ele teria 15 anos agora, quase a mesma idade de Tiberius e Livvy Blackthorn. Dava para entender totalmente por que Isabelle queria sua festa de noivado em uma ocasião em que sentiria que Max estava com ela. — Bem, você pensou em pedir ajuda a Magnus?

— Claro que sim — respondeu Simon. — E ele disse que ajudaria se pudesse, mas estão resolvendo aquela história com Rafael...

— Certo — falou Clary. — Então você quer a nossa ajuda?

— Queria poder fazer aqui — disse Simon. — No Instituto. E você poderia me ajudar com algumas coisas que eu não entendo bem?

Clary sentiu um medo crescente. O Instituto tinha passado por grandes reformas recentemente: algumas ainda em andamento. O salão de festas quase não era utilizado e seria transformado em uma segunda sala de treinamento, e vários andares estavam atulhados de pilhas de azulejos e madeira. Havia a sala de música, que era enorme, mas estava abarrotada com antigos violoncelos, pianos e até um órgão.

— Que tipo de coisas?

Simon olhou para ela com grandes olhos castanhos, feito um cachorrinho.

— Flores, bufê, decoração...

Clary resmungou. Jace afagou seu cabelo.

— Você consegue — encorajou ele, e Clary pôde ouvir no tom de voz que ele estava sorrindo. — Eu acredito em você.

E foi assim que Clary foi parar na sala de música do Instituto, com os pingentes de gelo brilhantes de Magnus pingando em seu vestido verde. De vez em quando Magnus fazia algumas mudanças, e pétalas ilusórias de rosas sopravam pelo recinto. Alguns dos integrantes do bando de licantropes de Maia ajudaram a mover a harpa, o órgão e vários outros instrumentos para a sala vazia ao lado (a porta estava firmemente fechada agora, semioculta por uma cachoeira enfeitiçada de borboletas caindo).

Lembrava Clary um pouco da corte da Rainha Seelie, que se apresentou diferente em todas as vezes que a visitou, anos antes: gelo brilhando algumas vezes, veludo vermelho macio em outras. Ela sentiu uma leve pontada, não pela Rainha, que foi cruel e traiçoeira, mas pela magia das fadas. Desde a Paz Fria, eles nunca mais visitaram as Cortes do Reino das Fadas. O Central Park não era mais ocupado com danças em noites de lua cheia. Não dava mais para ver pixies e sereias nas águas do rio Hudson. Às vezes, tarde da noite, ela ouvia os ruídos solitários e agudos da Caçada Selvagem cavalgando pelo céu, pensava em Mark Blackthorn e sofria. Mas Gwyn e seu povo jamais se sujeitaram a qualquer lei, e o barulho da Caçada não substituía a música das festas de fadas que outrora transbordava de Hart Island.

Ela havia conversado com Jace sobre o assunto, e ele concordava com ela, tanto como namorado, quanto como codiretor do Instituto: o mundo dos Caçadores de Sombras, sem o Povo das Fadas, perdia o equilíbrio. Caçadores de Sombras precisavam do Submundo. Sempre precisaram. Fingir que o Povo das Fadas não existia só causaria um desastre. Mas eles não eram o Conselho — apenas os líderes muito jovens de um único Instituto. Então esperavam e tentavam se preparar.

Certamente, Clary pensou, não havia outro Instituto — até onde ela sabia — que fosse fazer uma festa como aquela. Os alunos de Beatriz atuavam como garçons, carregando bandejas de canapés ao redor do recinto — os canapés foram oferecidos pela irmã de Simon, que gerenciava um restaurante no Brooklyn, e as travessas e talheres eram de peltre, não de prata, em homenagem aos lobisomens presentes.

Por falar em Submundo, Mais estava rindo em um canto, de mãos dadas com Morcego. Usava um vestido laranja ondulante, os cachos arrumados e o medalhão da Praetor Lupus brilhando em seu pescoço moreno.

Ela estava conversando com Luke, o padrasto de Clary, os óculos levantados na cabeça. Havia um pouco mais de grisalho em sua cabeça atualmente, mas os olhos continuavam brilhantes como sempre. Jocelyn havia se refugiado em um dos escritórios para ter uma longa conversa com Maryse Lightwood, potencial sogra de Simon. Clary não podia evitar imaginar se ela estava discursando sobre como os Lightwood tinham sorte de ter Simon na família e seria bom que não esquecessem disso.

Julie Beauvale, a parabatai de Beatriz, passou por eles com uma bandeja de docinhos. Enquanto Clary observava, Lily, a líder do clã de vampiros de Nova York, pegou um doce da bandeja, deu uma piscadela para Morcego e Maia, e foi até o piano, passando por Simon, que conversava com os pais de Isabelle — Robert e Maryse Lightwood —, pelo caminho. Simon usava um terno cinza e parecia nervoso o bastante para saltar da própria pele.

Jace estava tocando, seu blazer de veludo permanecia pendurado no encosto da cadeira, as mãos esguias dançando sobre as teclas do piano. Clary não pôde deixar de se lembrar da primeira vez que o viu no Instituto, tocando piano, de costas para ela. Alec?, ele dissera. Alec, é você?

A expressão de Jace estava focada e séria, do jeito que só ficava quando fazia alguma coisa que considerava digna de toda a sua concentração — lutando, tocando música ou beijando. Ele levantou os olhos, como se pudesse sentir o olhar de Clary, e sorriu para ela. Mesmo depois de todo esse tempo, ele ainda a fazia sentir calafrios na espinha.

Clary tinha um orgulho imenso dele. Eles ficaram tão surpresos quanto todo mundo quando o Conclave os elegeu como os novos diretores do Instituto após a saída de Maryse. Tinham apenas 19 anos, e ela presumiu que Alec e Isabelle fossem assumir, mas ambos recusaram. Isabelle queria viajar, e Alec estava envolvido com a Aliança entre Caçadores de Sombras e Integrantes do Submundo que estava criando.

Eles podiam recusar, Clary disse a Jace na época. Ninguém poderia obrigá-los a dirigir um Instituto, e eles tinham planejado viajar o mundo juntos enquanto Clary pintava e Jace combatia demônios em locais inusitados. Mas ele queria. Ela sabia que, no coração dele, esta era uma forma de retribuir pelas pessoas que perderam na guerra, que não conseguiram salvar. Pela sorte que tiveram em passar por tudo aquilo com todas as pessoas que amavam praticamente ilesas. Pelo fato de que o mundo havia lhe presenteado com Alec, Isabelle e Clary, quando ele achava que jamais teria um melhor amigo, uma irmã, e que jamais se apaixonaria.

Dirigir o Instituto era um trabalho difícil. Exigia todas as capacidades de encanto de Jace e o instinto de Clary para manter a paz e firmar alianças. Sozinhos, nenhum dos dois conseguiria, mas, juntos, a determinação de Clary equilibrava a ambição de Jace, seu conhecimento do mundo mundano e seus aspectos práticos, o ancestral sangue e treinamento Nephilim de Jace. Ele sempre foi o líder natural do grupo deles, um estrategista comprovado, excelente em conseguir perceber quem seria bom em quê. Clary era a que tranquilizava os assustados, assim como a que finalmente instalou um computador na Sala de Estratégia.

Lily sussurrou algo no ouvido de Jace, provavelmente pediu alguma música — ela morreu nos anos 1920 e vivia pedindo jazz —, antes de girar em seus saltos vermelhos e se dirigir a um cobertor que estava aberto em um canto da sala. Magnus estava sentado nele, seu filho Max, um feiticeiro de 3 anos com pele azul-marinho, encolhido ao seu lado. Também no cobertor encontrava-se um menino de 5 anos, um Caçador de Sombras, com cabelos negros emaranhados, que alcançava um livro que Magnus lhe estendia com um sorriso tímido.

Beatriz de repente apareceu ao lado de Clary.

— Onde está Isabelle? — sussurrou.

— Ela quer fazer uma entrada impactante — sussurrou Clary de volta. — Ela está esperando todo mundo chegar. Por quê?

Beatriz lhe lançou um olhar expressivo e inclinou a cabeça para a porta. Segundos mais tarde, Clary a estava seguindo pelo salão, levantando a saia do vestido para não tropeçar na bainha. Ela se viu no espelho da parede do corredor, o vestido da cor de um caule de flor.

Jace gostava quando ela usava verde, combinava com seu olhos, mas houve um tempo em que a cor a incomodava. Ela não conseguiu vê-la sem pensar em seu irmão, Jonathan, cujos olhos ficaram verde ao morrer.

Quando ele era Sebastian, tinha olhos negros. Mas isso foi há muito tempo.

Beatriz a levou até a sala de jantar, que estava cheia de flores. Tulipas holandesas, Clary tinha certeza. Estavam empilhadas nas cadeiras, na mesa, na bancada.

— Acabaram de entregar — disse Beatriz, com um tom trágico, como se fosse um cadáver, e não flores.

— Tudo bem, qual é o problema? — falou Clary.

— Isabelle é alérgica a tulipas — disse uma voz nas sombras. Clary deu um pulo. Alec Lightwood estava sentado em uma cadeira na ponta da mesa, com uma camisa branca para fora da calça social preta, e segurava uma tulipa amarela. Ele estava ocupado arrancando pétalas com sua mão de dedos longos. — Beatriz, posso falar com Clary um instante?

Beatriz fez que sim com a cabeça, parecendo aliviada por entregar o problema a outra pessoa, e se retirou.

— O que houve, Alec? — perguntou Clary, dando um passo em direção a ele. — Por que você está aqui, e não com o restante dos convidados?

— Minha mãe disse que talvez a Consulesa apareça — respondeu ele sombriamente.

Clary o encarou.

— E? — falou. Não era como se Alec fosse um criminoso procurado.

— Você sabe sobre Rafe, certo? — perguntou ele. — Quero dizer, sobre os detalhes.

Clary hesitou. Há alguns meses Alec tinha sido enviado a Buenos Aires para averiguar alguns ataques de vampiros. Enquanto estava lá, encontrou um menino Caçador de Sombras de 5 anos, um sobrevivente da destruição do Instituto de Buenos Aires durante a Guerra Maligna. Ele e Magnus viajaram de Portal para a Argentina muitas vezes, sem contar a ninguém o que estavam fazendo, até que um dia apareceram em Nova York com um menino magrinho e de olhos arregalados e anunciaram a sua adoção. Ele seria filho deles e irmão de Max.

Chamaram-no de Rafael Santiago Lightwood.

— Quando encontrei Rafe, ele estava morando na rua, morto de fome — disse Alec. — Roubando comida dos mundanos, tendo pesadelos porque tinha a Visão e enxergava monstros. — Mordeu o lábio. — A questão é que nos deixaram adotar Max porque ele é do Submundo. Ninguém o queria. Ninguém se importava. Mas Rafe é um Caçador de Sombras e Magnus... não. Não sei como o Conselho vai se sentir em relação a um integrante do Submundo criando uma criança Nephilim, principalmente quando estão desesperados por novos Caçadores de Sombras.

— Alec — falou Clary com firmeza —, não vão tirar Rafe de vocês. Não vamos deixar.

Eu não vou deixar — garantiu Alec. — Eu mataria todos eles antes disso. Mas isso seria estranho e arruinaria a festa.

Clary teve uma imagem mental breve, porém vívida, de Alec atirando nos convidados com seu arco e flecha enquanto Magnus os matava com fogo mágico. Ela suspirou.

— Você tem algum motivo para acreditar que vão levar Rafe? Recebeu algum sinal, alguma reclamação do Conselho?

Alec balançou a cabeça.

— Não. É que... você conhece esse Conselho. A Paz Fria significa que estão irritáveis o tempo todo. E, apesar de haver integrantes do Submundo no Conselho agora, não confiam neles. Às vezes, acho que estão piores do que antes da Guerra Maligna.

— Não vou dizer que está errado — falou Clary. — Mas posso dar uma sugestão?

— A sugestão é envenenar a bebida? — perguntou Alec, com ansiedade preocupante.

— Não — respondeu Clary. — Eu só ia dizer que você talvez esteja direcionando a sua ansiedade para o lugar errado.

Alec pareceu confuso. Termos psicológicos mundanos nem sempre eram compreendidos por Caçadores de Sombras.

— Você está preocupado porque um filho é assunto sério e isso tudo aconteceu muito de repente — disse Clary. — Mas Max também foi repentino. E você e Magnus são ótimos pais. Vocês se amam muito, e isso só significa que têm mais amor para dar. Você jamais deve se preocupar com a hipótese de não ter amor suficiente para quantos filhos quiser ter na vida.

Os olhos de Alec brilharam por um instante, azul liminoso sob cílios negros. Ele se levantou e foi até onde Clary estava perto da porta.

— Garota sábia — falou ele.

— Você nem sempre me achou sábia.

— Não, eu a achava uma peste, mas agora a conheço bem. — Ele deu um beijo na cabeça dela e passou pela porta, ainda segurando a tulipa.

— Jogue isso fora antes de chegar à sala de música! — gritou Clary para ele, imaginando Isabelle caída no chão, cheia de urticária.

Ela suspirou e fixou o olhar nas tulipas. Supunha que ainda fosse possível ter uma festa sem flores. Mesmo assim...

Bateram à porta. Uma menina com retalhos de seda com longos cabelos castanhos trançados em volta da cabeça. Rebecca, a irmã de Simon.

— Posso entrar? — perguntou ela, abrindo a porta. — Uau, tulipas!

— Isabelle é alérgica a tulipas — falou Clary, pesarosa. — Aparentemente.

— Que pena — disse Rebecca. — Pode falar um segundo?

Clary fez que sim com a cabeça.

— Claro, por que não?

Rebecca entrou e se sentou na beira da mesa.

— Eu queria agradecer — disse ela.

— Pelo quê?

— Por tudo. — Rebecca olhou em volta, assimilando os retratos de Caçadores de Sombras ancestrais, com motivos de anjos e espadas cruzadas. — Eu ainda não sei muito sobre essa coisa de Caçadores de Sombras. Simon só pode me contar pouco. Não sei, de fato, qual é o trabalho dele...

— Ele é um Recrutador — respondeu Clary, sabendo que isso não significaria nada para Rebecca, mas ela sentia orgulho de Simon. Tudo o que aconteceu com ele foi difícil, doloroso, desafiador (ser um vampiro, perder a memória, tornar-se Caçador de Sombras, perder George), mas ele transformou isso em uma maneira de ajudar as pessoas. — Perdemos muitos Caçadores de Sombras na guerra há cinco anos. E desde então estamos tentando arrumar novos. Os melhores candidatos são mundanos que têm sangue de Caçador de Sombras, que frequentemente significa que eles não sabem que são Caçadores de Sombras, mas têm a Visão. Conseguem ver vampiros, lobisomens, magia; coisas que podem fazer com que a pessoa pense que está enlouquecendo. Simon conversa com eles, conta sobre como é se tornar Caçador de Sombras, por que é difícil e por que é importante.

Clary sabia que provavelmente não devia dizer nada disso a uma mundana. Por outro lado, ela provavelmente não deveria sequer deixar que Rebecca entrasse no Instituto, quanto mais contratá-la para cuidar do bufê. Mas, quando Clary e Jace assumiram o Instituto, juraram um para o outro que seriam um tipo diferente de guardiões.

Afinal de contas, Clary e Simon também foram "mundanos" que não deveriam entrar no Instituto.

Rebecca estava balançando a cabeça.

— Certo, eu não entendo nada disso. Mas meu irmãozinho é importante, não é?

Clary sorriu.

— Ele sempre foi importante para mim.

— Ele está muito feliz — disse Rebecca. — Com a vida dele, com Isabelle. E tudo isso é graças a você. — Ela se inclinou para a frente e falou em um sussurro conspiratório. — Quando você e Simon se tornaram amigos e ele a trouxe para casa da escola, minha mãe me disse: "essa menina vai trazer magia à vida dele". E você trouxe.

— Literalmente — respondeu Clary. Rebecca permaneceu impassível. Ah, céus, Jace teria rido. — Quero dizer, que bom, e fico muito feliz. Você sabe que amo Simon como um irmão...

— Clary! — Clary levantou o olhar, alarmada, temendo por Isabelle, mas se enganou: era Lily Chen, com Maia Roberts. A líder do clã de lobisomens de Nova York e a líder do clã de vampiros de Nova York, juntas.

Não que fosse incomum vê-las juntas: eram amigas. Mas eram também aliadas políticas que frequentemente se viam em polos opostos de uma discussão.

— Oi, Rebecca — cumprimentou Maia. Ela acenou, e o seu anel de bronze brilhou. Ela e Morcego tinham trocado anéis de compromisso havia algum tempo, mas nada era oficial. Maia era a alfa dos lobisomens de Manhattan, encarregada de reconstruir a Praetor Lupus e estudando para conseguir sua licenciatura em Administração. Era extremamente competente.

Lily olhou sem interesse para Rebecca.

— Clary, precisamos falar com você — disse. — Tentei conversar com Jace, mas ele está tocando piano, e Magnus e Alec estão com aquelas pequenas criaturas.

— Crianças — respondeu Clary. — São crianças.

— Eu informei Alec de que precisávamos de assistência e ele mandou falar com você. — disse Lily, soando irritada.

Ela gostava de Alec, do jeito dela. Ele foi o primeiro Caçador de Sombras a, de fato, ceder e trabalhar com ela e Maia, unindo seu conhecimento Nephilim às habilidades do Submundo delas. Quando Jace e Clary assumiram o Instituto, eles também entraram nessa estranha aliança; Isabelle e Simon participavam quando podiam, e Clary tinha armado uma Sala de Estratégia para eles, cheia de mapas e planos, e importantes contatos em caso de emergência.

E havia muitas emergências. A Paz Fria significava que partes de Manhattan que pertenciam ao Povo das Fadas foram arrancadas deles, e outros grupos do Submundo lutavam pelos restos. Muitas foram as noites em que Clary e Jace, junto a Alec, Lily e Maia, se sentaram tentando acertar algum detalhe da trégua entre vampiros e licantropes ou conter algum plano de vingança antes mesmo que pudesse começar. Magnus tinha até criado feitiços especiais para que Lily pudesse entrar no Instituto apesar de ser terreno sagrado, coisa que Jace disse que, até onde sabia, jamais tinha sido feita por qualquer outro vampiro.

— É sobre o High Line — contou Maia. High Line era um parque público construído no alto de uma linha de trem descontinuada no centro, que recentemente tinha sido aberto ao público.

— O High Line? — repetiu Clary. — Como assim, vocês de repente então interessadas em projetos urbanistas?

Rebecca acenou para Lily.

— Oi, eu sou Rebecca. Seu delineador é incrível.

Lily ignorou.

— Por causa da elevação, é um novo território de Manhattan — explicou ela —, portanto, não pertence aos vampiros nem aos licantropes. Ambos os clãs estão tentando se apossar dele.

— Realmente precisamos discutir isso agora? — perguntou Clary. — É a festa de noivado de Isabelle e Simon.

— Ah, meu Deus! — Rebecca se levantou de um pulo. — Esqueci! A apresentação de slides!

Ela saiu correndo, e Clary ficou observando.

— Apresentação de slides?

— Entendo que em eventos como este é tradicional humilhar os noivos com fotos da infância de cada um — explicou Lily. Clary e Maia a encararam. Ela deu de ombros. — O que foi? Eu assisto à TV.

— Veja, eu sei que não é um bom momento para incomodá-la com isso — disse Maia —, mas a questão é a seguinte: aparentemente tem um grupo de licantropes e outro de vampiros se enfrentando lá agora. Precisamos de ajuda do Instituto.

Clary franziu o rosto.

— Como vocês sabem o que está acontecendo?

Maia levantou o telefone.

— Acabei de falar com eles — respondeu sucintamente.

— Me dê aqui — falou Clary, sombria. — Tudo bem, com que estou falando?

— Leila Haryana — disse Maia. — Ela é do meu bando.

Clary pegou o telefone, apertou o botão de rediscagem e esperou até a voz da menina atender do outro lado.

— Leila — disse. — Aqui quem fala é Clarissa Fairchild, do Instituto. — Fez uma pausa. — Sim, a diretora do Instituto. Sou eu. Olha, sei que está no High Line. Sei que está prestes a combater um clã de vampiros. Preciso que pare com isso.

Gritos indignados se seguiram. Clary suspirou.

— Os Acordos ainda são os Acordos — continuou. — E isso é uma transgressão. Segundo, hum, a seção sete, parágrafo 42, vocês devem levar disputas territoriais ao Instituto mais próximo antes de lutarem.

Mais uma discussão em voz baixa.

Clary cortou.

— Diga aos vampiros o que falei. E estejam aqui no Santuário cedo. — Ela pensou no champanhe na sala de música. — Talvez não tão cedo. Cheguem às onze, dois vampiros e dois licantropes, e vamos resolver isso. Se não o fizerem, serão considerados inimigos do Instituto.

Concordância aos resmungos.

Clary parou.

— Certo — falou. — Então tá. Tenha um bom dia.

Desligou.

— Tenha um bom dia? — disse Lily, erguendo as sobrancelhas.

Clary resmungou, devolvendo o telefone a Maia.

— Sou péssima em me despedir.

— Qual é o parágrafo 42 da seção sete? — perguntou Maia.

— Não faço ideia — respondeu Clary. — Eu inventei.

— Nada mal — admitiu Lily. — Agora vou voltar para a sala de música e avisar Alec que na próxima vez que precisarmos dele, é bom que ele atenda ou posso acabar mordendo algumas daquelas crianças dele.

Ela saiu, girando a saia.

— Eu vou impedir que esse desastre aconteça — falou Maia apressadamente. — Até mais tarde, Clary!

Ela partiu, deixando Clary apoiada contra a grande mesa no meio do recinto, respirando fundo, se acalmando. Ela tentou se imaginar em um local plácido, talvez na praia, mas isso só a fez pensar no Instituto de Los Angeles.

Ela e Jace foram para lá um ano após a Guerra Maligna para ajudar a restabelecer o local — foi o Instituto que mais sofreu com os ataques de Sebastian. Emma Carstairs os ajudou em Idris, e Clary sentiu um senso de proteção em relação à menininha loura. Eles passaram um dia organizando na nova biblioteca, e depois Clary levou Emma para a praia, para olharem conchas e vidro marinho. Emma estava fazendo uma pulseira. Mas se recusou a entrar na água e, até mesmo, a passar muito tempo olhando para ela.

Clary havia se perguntado se estava tudo bem.

— Não é comigo que me preocupo — respondeu Emma. — É Jules. Eu faria qualquer coisa para ele ficar bem.

Clary a olhou longamente, mas Emma, observando o pôr do sol ardente vermelho e laranja, não viu.

— Clary! — A porta abriu explosivamente outra vez. Finalmente era Isabelle, radiante com um vestido de seda lilás e sandálias brilhantes. Assim que entrou, começou a espirrar.

Clary se sentou ereta.

— Pelo Anjo... — O epíteto Nephilim agora vinha sem pensar, quando outrora parecia uma frase estranha. — Vamos.

Tulipas — disse Isabelle com a voz engasgada enquanto Clary a levava para o corredor.

— Eu sei — retrucou Clary, abanando a amiga e pensando se um símbolo de cura ajudaria com as alergias. Isabelle espirrou de novo, os olhos se enchendo de lágrimas. — Sinto tanto...

— Dão ézua gulba — disse Isabelle, o que Clary traduziu do alergiês como não é sua culpa.

— Mas é!

— Pffbt — disse Isabelle sem elegância, e acenou com a mão. — Dão zi breogubi. Já vai belhorar.

— Eu encomendei rosas — explicou Clary. — Juro que encomendei. Não sei o que aconteceu. Vou até a floricultura matá-los amanhã. Ou talvez Alec faça isso. Ele está com um instinto assassino hoje.

— Nada está arruinado — falou Isabelle, com a voz normal. — E ninguém precisa morrer. Clary, eu vou me casar! Com Simon! Estou feliz! — Ela se alegrou. — Eu achava que havia fraqueza em entregar seu coração a alguém. Achava que poderiam partir meu coração. Mas agora já sei. E é graças a Simon, mas também a você.

— Como assim, graças a mim?

Isabelle deu de ombros, timidamente.

— É que você ama muito. Com tanta vontade. Você oferece tanto. E isso sempre a deixou mais forte.

Clary percebeu que estava com os olhos lacrimejando.

— Sabe, casar com Simon significa que vamos ser irmãs, basicamente, certo? A pessoa que se casa com seu parabatai não é como se fosse sua irmã?

Isabelle a abraçou. Por um instante ficaram abraçadas no corredor escuro. Clary não pôde deixar de se lembrar dos primeiros gestos amistosos que ela e Isabelle realmente tiveram uma com a outra, agora há tanto tempo, ali nos corredores do Instituto. Não fiquei preocupada só com Alec. Mas com você também.

— Por falar em amor e em coisas relacionadas ao amor — disse Isabelle com um sorriso travesso, afastando-se de Clary —, que tal um casamento duplo? Você e Jace...

O coração de Clary parou. Ela nunca teve talento para esconder suas expressões ou sentimentos. Isabelle olhou para ela, confusa, prestes a perguntar alguma coisa — provavelmente se havia algo errado — quando a porta da sala de música reabriu, e luz e música transbordaram para o corredor. A mãe de Isabelle, Maryse, se inclinou para fora.

Ela estava sorrindo, claramente feliz. Clary ficou contente em ver isso. Maryse e Robert finalizaram o divórcio depois da Guerra Maligna. Robert se mudou para a Casa do Inquisidor em Idris. Maryse continuou em Nova York para dirigir o Instituto, mas ficou feliz em entregá-lo a Clary e Jace alguns anos depois. Continuou em Nova York, supostamente para ajudá-los caso não dessem conta, mas Clary desconfiou que era para ficar mais perto dos filhos — e do neto, Max. Havia mais branco em seu cabelo agora do que o que Clary se lembrava quando a conheceu, mas tinha a coluna ereta; a postura ainda era de Caçadores de Sombras.

— Isabelle! — chamou ela. — Estão todos esperando.

— Ótimo — disse Isabelle —, assim minha entrada será impactante! — E deu o braço para Clary, antes de seguir pelo corredor. As luzes brilhantes da sala de música de repente estavam diante delas, e a sala cheia de pessoas se virando, sorrindo para vê-la na entrada.

Clary procurou Jace, como sempre fazia: o rosto dele era sempre o primeiro que ela via quando entrava em algum lugar. Ele continuava tocando uma melodia leve, discreta, mas, quando ela entrou, ele deu uma piscadela.

O anel Herondale brilhou com a iluminação de dezenas de globos de luz em forma de estrela, que pairavam pelo recinto: sem dúvida, obra de Magnus. Clary pensou em Tessa, que tinha lhe dado aquele anel para entregar a Jace, e desejou que ela estivesse ali. Ela sempre adorou ver Jace tocando piano.

Vibrações eclodiram quando Isabelle entrou. Ela olhou em volta, sorrindo, claramente confortável. Soprou um beijo para Magnus e Alec, onde estavam sentados com Max e Rafe, que assistia, confuso. Maia e Morcego assobiaram, Lily ergueu o corpo, Luke e Rebecca sorriram, e Maryse e Robert observaram orgulhosos enquanto Isabelle avançava e pegava a mão de Simon.

O rosto de Simon ardeu de felicidade. Na parede atrás dele, a apresentação de slides que Rebecca havia mencionado continuava. Uma citação piscava na parede: Casamento é como uma longa conversa que termina cedo demais.

Eca! pensou Clary. Mórbido. Ela observou Magnus colocar a mão sobre a de Alec, que assistia à apresentação com Rafael no colo. Fotos de Simon – e bem menos fotos de Isabelle; Caçadores de Sombras não davam muita importância a fotos – piscavam, aparecendo e desaparecendo na parede branca atrás da harpa.

Lá estavam Simon, bebê, nos braços da mãe – Clary desejou que ela estivesse aqui, mas o conhecimento de Elaine sobre os Caçadores de Sombras era nulo. Até onde sabia, Isabelle era jma boa menina que trabalhava em um estúdio de tatuagem. E Simon, aos 6 anos, sorrindo com dois dentes faltando. Simon, adolescente, com seu violão. Simon e Clary, aos 10 anos, no parque, sob uma cachoeira de folhas cadentes de outono.

Simon olhou para a foto e sorriu para Clary, os olhos formando ruguinhas nos cantos; Clary tocou o antebraço direito, onde estava sua marca parabatai. Torceu para que ele conseguisse enxergar nos olhos dela tudo que ela estava sentindo: que ele era sua âncora, a base da sua infância e o farol de sua vida adulta.

Através de um borrão de lágrimas, ela percebeu que a música tinha cessado. Jace estava do outro lado da sala, sussurrando para Alec, a cabeça clara e a escura próximas. A mão de Alec tocava o ombro de Jace, e ele fazia um sinal alternativo de cabeça.

Há muito tempo ela olhava para Jace e Alec, e via melhores amigos. Ela sabia o quanto Jace amava Alec, desde a primeira vez que viu Alec ferido, e Jace – cujo autocontrole era quase assustador – desmoronava. Ela via como ele encarava qualquer um que dissesse alguma coisa ruim sobre Alec; os olhos cerrados, mortalmente dourados. E ela achava que entendia, pensava melhores amigos, como ela e Simon eram.

Agora que Simon se tornara seu parabatai, ela entendia muito mais. A forma como você ficava mais forte quando seu parabatai estava presente. A forma como eram um espelho que mostrava sua melhor forma. Ela não conseguia imaginar perder ser parabatai, não podia imaginar o inferno que seria.

Mantenha-o seguro, Isabelle Lightwood, ela pensou, olhando para Isabelle e Simon, de mãos dadas. Por favor, mantenha-o seguro.

— Clary. — Estava tão perdida em pensamentos que não viu Jace se afastar de Alec e se aproximar. Ele estava atrás dela agora; conseguia sentir o cheiro da colônia com a qual o presenteara no Natal, o cheiro fraco do sabão e do xampu dele, sentiu a suavidade do blazer quando tocou o braço no dela. — Vamos...

— Não podemos escapar, a festa é nossa...

— Só um segundo — disse ele, com aquela voz baixa que fazia com que suas más ideias parecessem boas. Ela o sentiu dar um passo para trás e seguiu; estavam perto da porta da sala de estratégia, e entraram sem que ninguém notasse.

Bem, quase sem que ninguém notasse. Alec os observava e, quando Jace fechou — e trancou — a porta, ele lançou a Jace um gesto positivo com os polegares. O que deixou Clary bastante confusa, mas ela não pensou muito a respeito, basicamente porque Jace atravessou a sala com um olhar determinado, a pegou nos braços e a beijou.

Seu corpo todo cantou, como sempre fazia quando se beijavam. Ela jamais ficava entediada, cansada ou acostumada, não mais do que se imaginava cansando de belos sóis poentes, de músicas perfeitas ou de seu livro preferido.

Clary também não achava que Jace tinha se cansado dela. Pelo menos, não pelo jeito como a segurava, como se cada vez fosse a última. Normalmente era assim com ele. Clary sabia que ele tivera uma infância que o deixou inseguro em relação ao amor, e, de certa forma, frágil como vidro, e ela tentava levar isso em conta. Estava preocupada com a festa e os convidados lá fora, mas se sentiu relaxando no beijo, apoiando a mão na bochecha dele até se afastarem para respirar.

— Uau — disse ela, passando o dedo na clavícula dele. — Acho que toso esse romance e pétalas de flores caindo do céu tiveram um efeito e tanto em você, não?

— Shh. — Ele sorriu. Seus cabelos louros estavam bagunçados, os olhos, sonolentos. — Deixe-me viver o momento.

— Que momento é esse? — Ela olhou em volta, entretida. A sala estava pouco iluminada, quase toda a luz estava vinha das janelas e da luminosidade embaixo da porta. Dava para ver os formatos de instrumentos musicais, fantasmas pálidos cobertos por lençóis brancos. Um piano meia cauda se encontrava contra a parede atrás deles. — O momento de nos escondermos no armário enquanto a festa de noivado dos nossos amigos acontece?

Jace não respondeu. Em vez disso, ele a pegou pela cintura e a levantou, sentando-a sobre a tampa fechada do piano. Os rostos deles estavam na mesma altura; Clary olhou, surpresa. Ele exibia uma expressão séria. Então se inclinou para beijá-la, com as mãos em sua cintura, os dedos agarrando o tecido do vestido.

— Jace — sussurrou ela. Seu coração estava acelerado. O corpo dele se inclinou, pressionando as costas de Clary contra o piano. Os sons de risos e música do lado de fora estavam ficando confusos; ela conseguia ouvir a respiração rápida de Jace e se lembrou do menino que ele foi um dia, na grama com ela, diante da Mansão Wayland em Idris, quando eles se beijaram e se beijaram, e ela percebeu que o amor pode cortar como uma lâmina afiada.

Dava para sentir a pulsação dele. A mão de Jace deslizou para cima, acariciou a alça do seu vestido. Os olhos semicerrados brilhavam no escuro.

— Verde para colar nossos corações partidos — citou ele. Era parte de uma rima infantil Nephilim, uma que Clary conhecia bem. Os cílios dele tocaram a face de Clary, a voz quente em seu ouvido. — Você colou meu coração — sussurrou. — Juntou os cacos de um menino quebrado e irritadiço, e o transformou em um homem feliz, Clary.

— Não — disse ela, com a voz trêmula. — Você fez isso. Eu só... incentivei da arquibancada.

— Eu não estaria aqui sem você — confessou ele; as palavras suaves como música em seus lábios. — Não só você... Alec, Isabelle, até Simon... Mas você é o meu coração.

— E você é o meu — retrucou ela. — Sabe disso.

Ele ergueu os olhos para os dela. Os dele eram dourados, firmes e lindos. Ela o amava tanto que suas costelas doíam quando respirava.

— Então aceita? — perguntou ele.

— Aceito o quê?

— Se casar comigo — falou ele.

O chão pareceu desabar sob seus pés. Ela hesitou, só por um segundo, mas pareceu uma eternidade, ela podia jurar que um punho espremia seu coração. E viu o princípio da confusão no rosto dele, então veio uma explosão e a porta explodiu em uma chuva de farpas.

Magnus entrou, parecendo perturbado, seus cabelos negros arrepiados, e as roupas, amarrotadas.

Jace se inclinou para longe de Clary, mas só um pouco. Estava com os olhos cerrados.

— Eu perguntaria "não bate não?", mas é evidente que não faz isso — censurou ele. — Mas estamos ocupados.

Magnus acenou, descartando o que Jace dissera.

— Já flagrei seus ancestrais fazendo coisa pior — disse ele. — Além do mais, é uma emergência.

— Magnus — disse Clary. — É bom que não seja sobre as flores. Ou o bolo.

Magnus desdenhou.

— Eu falei uma emergência. Isso é uma festa de noivado e não a Batalha da Normandia.

— A batalha de quê? — perguntou Jace, que não era muito bom em história mundana.

— O alarme ligado ao mapa disparou — disse Magnus. — O que marca a magia necromante. Houve uma explosão agora em Los Angeles.

Magnus lhe lançou um olhar atravessado.

— O mapa não é tão exato, mas a explosão foi perto do Instituto.

Clary se endireitou, alarmada.

Emma — disse ela. E Julian. As crianças...

— Lembra que — disse Magnus. — na última vez em que aconteceu, não foi nada. Mas há algumas coisas que me preocupam. — Ele hesitou. — Existe uma convergência de Linhas Ley não muito longe de lá. Eu chequei e parece que algo aconteceu ali. A área está devastada.

— Você tentou Malcolm Fade? — perguntou Jace.

— Sem resposta. — Magnus meneou a cabeça.

Clary desceu do piano.

— Você contou para alguém? — perguntou ela. — Além da gente, quero dizer.

— Não quis arruinar a festa por um alarme falso — disse Magnus. — Então só contei...

Um Caçador de Sombras alto apareceu na entrada. Robert Lightwood, com uma bolsa no ombro: Clary viu os cabos de várias lâminas serafim no alto. Ele parou ao ver as roupas amarrotadas e as faces ruborizadas de Clary e Jace.

— A ele — emendou Magnus.

— Com licença — falou.

Jace parecia desconfortável. Robert também. Magnus estava impaciente. Clary sabia que ele não morria de amores por Robert, apesar de as relações terem melhorado depois que ele e Alec adotaram Max. Robert era um bom avô do jeito que nunca foi um bom pai: disposto a sentar no chão e rolar com Max, e agora com Rafe também.

— Será que podemos parar de ficar sem jeito com a vida sexual de Clary e Jace e ir? — perguntou Magnus.

— Isso depende de você — disse Clary. — Eu não posso fazer o Portal; não vi o mapa. É você que sabe para onde vamos.

— Detesto quando tem razão, docinho — disse Magnus em tom resignado, e espalhou os dedos. Faíscas azuis iluminaram o recinto como vaga-lumes, um efeito estranhamente lindo que se abriu em um grande retângulo, um Portal brilhante através do qual Clary podia ver falésias, o brilho da lua na água e o movimento do mar.

Sentiu cheiro de água do mar e sálvia. Jace foi para perto dela, dando as mãos para Clary. Ela sentiu a leve pressão de seus dedos.

Casa comigo, Clary.

Quando voltassem, ela teria de responder. Estava morrendo de medo. Mas, por enquanto, eram Caçadores de Sombras acima de tudo. Com a coluna reta, a cabeça erguida, Clary atravessou o Portal.

Cena não-editada da praia

fonte: Idris BR; Cassandra Clare no Tumblr
CJ Emma & Jules 08, LM

Emma rolou sobre suas costas e encarou Julian acima e o céu atrás dele. Ela podia ver milhões de estrelas. Ele sentia calafrios, sua camiseta preta e seu jeans colados contra o corpo, seu rosto mais branco que a lua.

— Emma? — ele sussurrou.

— Eu tive que tentar.

— Você não tinha que tentar sozinha! — Sua voz parecia ecoar fora da água. Seus punhos estavam fechados do seu lado. — Qual é o ponto em sermos parabatai se você sai e se arrisca sem mim?

— Eu não quis colocar você em perigo.

— Eu quase me afoguei dentro do Instituto! Eu tossi água! Água que você respirou!

Emma olhou para ele em choque. Ela começou a se ajeitar e se apoiar em seus ombros. Seu cabelo, denso e molhado, descia por suas costas como um peso. — Eu não sabia.

— Como você não sabia? — Sua voz parecia explodir para fora de seu corpo. — Nós estamos conectados, Emma, conectados – Eu respiro quando você respira, eu sangro quando você sangra, eu sou seu e você é minha, você sempre foi minha, e eu sempre, sempre, pertenci a você! — Ela nunca havia ouvido ele falar algo como aquilo, nunca ouvira ele falar desse jeito, nunca vira ele tão perto de perder o controle.

— Eu não quis te machucar — Ela disse. Ela começou a sentar, buscado por ele. Ele pegou o pulso dela.

— Você está brincando? — Mesmo na escuridão, seus olhos azuis-esverdeado tinham cor. — Isso é uma piada pra você, Emma? Você não entende? Eu não vivo se você morrer! — A voz dele desceu para um sussurro. — Eu nem iria querer, mesmo se eu pudesse.

— Eu também não iria querer viver sem você. — Os olhos dela buscaram o rosto dele. — Jules, me desculpe, Jules.

O rosto dele se contorceu. A parede que normalmente escondia a verdade fundo em seu olhar havia desmoronado; ela podia ver o panico faminto ali, o desespero, o alívio que havia se forçado através das defesas dele.

Ele ainda segurava firmemente o pulso dela. Ela não soube se ela se inclinou até ele primeiro, ou se ele a puxou pra si. Talvez os dois. Eles se chocaram, forte, como duas estrelas colidindo e então ele a beijou.

Jules. Beijando ela. O choque foi tudo que ela sentiu a princípio, sua boca fria contra a dela, e então ela saboreou ele, sob a água salgada, sabor de açúcar e cravo, e foi como se alguém tivesse apertado um interruptor dentro dela e todas as luzes se acenderam.

— Emma. — Ele murmurou contra seus lábios, sem afastar sua boca da dela. Eles estavam apertados juntos, molhados e frios e quentes e queimando tudo ao mesmo tempo. Ele se inclinou para ela, beijando forte, febrilmente, as mãos dele se enterrando na massa de cabelos molhados dela. O peso dele a deitou na areia.

Ela se agarrou aos ombros dele, pensou no momento desorientada quando ele a puxou da água, o momento em que ela não sabia direito quem ele era. Ele era maior e mais forte do que ela se lembrava, mais do que ela havia se deixado notar, embora o beijo queimasse essas memórias do garoto que ele fora.

Isso não era como algo que já tivesse acontecido a ela. Seus lábios partiram e sua cabeça foi para trás. Julian escorregou uma mão sob sua cabeça, seus dedos brincavam na nuca dela, embalando ela enquanto sua lingua acariciava o interior da boca dela como um arco num violino, torcendo faíscas dolorosas de seus nervos.

Então era assim que isso devia ser, como beijar deveria ser, como tudo isso deveria ser. Isso.

Seu corpo todo estava tremendo. Ela pertava ele, seus ombros suas laterais, os dedos dela afundavam na pele dele, trazendo-o para mais perto dela. Ele arquejou em sua boca quando ela se esticou para segurar a bainha da camiseta molhada e encharcada dele e a trouxe a cabeça dele. Os olhos dele eram felinos, queimando na escuridão, quentes de desejo. — Emma, Deus. — Ele disse em uma voz abafada, e então ele estava recolhendo ela sob ele novamente, pressionando-a contra seu corpo como se pudessem se apertar um no outro, fundindo-se em uma pessoa.

A mãos dele arranharam até as costas da camiseta dela, e ela puxou para trás o suficiente para deixá-lo ajudá-la a escorregar para fora. E então estavam se beijando novamente, mais fortemente agora que poadiam sentir a pele nua um do outro. Ela não conseguia parar de tocá-lo, suas mãos dançando costas abaixo e por seu peitoral, sentindo os altos e baixos dos músculos e os ossos da espinha dele.

E ele estava tocando ela também. Ela olhou para baixo em descrença do que estava acontecendo, que esse era Julian tocando-a, o Julian dela. Os longos dedos dele acariciando a curva de seus seios, afangando suas costas, desastrado contra o fecho do sutiã até que finalmente ele se abriu e escorregou dos ombros dela. Ela encolheu os ombros até que caísse no chão.

O Suitã caiu na areia molhada e eles se olharam. As pupilas dele se dilataram, escurendo seus olhos para a cor do oceano durante a noite. Os olhos dele pareciam devorá-la, e ela por sua vez olhava para ele: Ele era maravilhoso sob a luz da lua, livre e claro e musculoso, e quando isso havia acontecido?

— Você é tão linda, — ele disse. — Tão linda, Emma.

Ela abriu os braços, e ele foi de encontro a ela. Seus seios se apertaram contra o tórax dele conforme ele a segurava, as mãos dele acariciavam para cima e para baixo as costas dela. Lentamente, ele a abaixou para a areia – ele se esticou e agarrou sua camiseta, sem tirar sua boca da dela, e a esticou debaixo, repousando a cabeça dela. Ela emitiu um som macio – algo sobre a ternura do gesto, uma clara e doce chama de gentileza cortando por entre a força vertiginosa do desejo dos dois, a fez querer chorar.

— Jules — ela sussurrou. De alguma forma ela havia chutado seu jeans molhado para fora sem tê-lo soltado, e a areia ralou levemente suas pernas nuas. Ela separou os joelhos, fazendo de seu corpo um berço para ele se apoiar contra. Ele beijou seu caminho abaixo pelo pescoço, seu hálito quente na pele dela. Amarrando suas mãos nos cachos molhados dele, ela encarou em êxtase o céu estrelado sobre eles, rodando com as estrelas, brilhantes e frias, e pensar que isso não poderia estar acontecendo, pessoas não conseguiam as coisas que queriam dessa forma.

Ele alcançou para se desprender de seu próprio jeans e ela o ajudou o quanto pode. Areia arranhou seus ombros quando ela se moveu. Com qualquer outro ela poderia ter se incomodado com isso, mas não havia espaço na cabeça dela para mais nada além de Julian. Ela o encarou: Ele estava apoiado em um braço, seu cabelo ensopado grudado na testa em ondas escuras. Luz da lua brilhava entre seus cílios, cada um tão longo e escuro quanto o percorrer de um traço de caneta. Cicatrizes pálidas e brancas formavam estrelas em seus ombros nús. Ele era mais belo que a imensidão do céu.

Ele jogou o jeans para longe e subiu de volta para o corpo dela, escorregando suas mãos sobre ela para pôr as mãos em concha em volta de suas omoplatas. Ele beijou sua clavícula e o meio de seus seios. Ela arqueou o quadril. Ele estava duramente contra sua coxa, e quando seus corpos se encaixaram ele soltou um som, um gemido, como se algo dentro dele houvesse quebrado.

— Você quer parar? — Ela congelou

— Nunca, nunca. — Os olhos dele estavam entreabertos. — Você... isso é...?”

— Sim — ela sussurrou. — Sim.

Os cílios dele tremeram contra suas bochechas. — Eu não posso, — Ele disse, baixo, sincero. — E não consigo. — E a boca dele encontrou a dela, desajeitado, inexperiente. Ela beijou o folego para fora dele, para fora dos dois, até que ele estivesse se movendo contra ela, sem descanso e incontrolado. O resto das roupas foram descartas. A pele dele era quente contra a dela, como se estivesse febril. Ela ouviu ele sussurrar seu nome.

Haviam apenas moléculas de ar entre os dois, e então Emma se moveu para prender as pernas ao redor da cintura dele. Julian arquejou e seu corpo se moveu instintivamente e então não havia nada entre os dois pois ele estava dentro dela.

Eles congelaram, olhando um ao outro, sem se mover. Os dentes de Julian estavam enterrados em seu lábio inferior. Seu rosto estava corado, seus olhos brilhantes. Ele parecia chocado e maravilhado, e sobrecarregado e desesperado.

— Emma, Deus, Emma, eu... — Ele engasgou, e então suas palavras se tornaram sons inarticulados conforme seu corpo se movia contra o dela.

Emma se segurou nos ombros dele, apertado, e seu corpo estava se movendo também, ela não poderia parar, mas ela também estava olhando, e ela nunca havia feito isso de olhos abertos antes. Ela havia sempre fechado os olhos, mas isso estava diferente, esse era Julian. Não Jules, não seu doce garoto Jules, esse era outro alguém, alguém que fazia sons ásperos de êxtase e enterrava sua cabeça nos cabelos dela e segurava seu corpo forte o suficiente para deixar marcas. Ela esperava que durassem por dias. Pois ela estava tentando decorar ele, decorar o jeito que ele estava em cima dela, com estrelas em sua silhueta, cabelo na testa e olhos semicerrados, as linhas de preocupação que estavam sempre próximas de sua boca amaciadas por prazer, mas ela não conseguia.

Ela não conseguia segurar nada disso em sua mente. A concentração dela estava despedaçada, ela não conseguia se segurar nisso, pensamentos disparavam em sua cabeça como gotículas do oceano se dissolvendo no ar. Relâmpagos subiam e desciam suas veias e ela estava agarrada às costas de Julian, arquejando, tentando conseguir ar o bastante, tentando colocá-lo perto e mais perto e então o mundo explodia em brilhantes fragmentos, um caleidoscópio quebrado, e ela finalmente, finalmente, fechou seu olhos e deixou cores que ela nunca antes havia visto colorirem o interior de suas pálpebras. Como se fosse longe, ela escutou Julian bradar, sentiu ele cair sobre ela, beijar seu ombro e encaixar o rosto em seu pescoço.

O coração dele ainda estava disparado, martelando contra o dela. Ela o amava tanto, que parecia que seu peito estava aberto.

Ela quis lhe dizer isso, mas as palavras se prenderam em sua garganta. — Você é pesado — ela sussurrou então, no cabelo dele.

Ele riu e rolou para o lado, puxou-a com força contra ele. Ela relaxou na curva quente do seu corpo. Ele estendeu a mão, pegou sua camisa de flanela e a abriu sobre eles. Não era muito, mas Emma se aconchegou sob ela, rindo , e ele beijou seu rosto, quase bêbado, salpicando beijos em todo o rosto, a ponte de seu nariz, o queixo.

Ela deitou a cabeça contra o braço dele. Ela nunca se sentiu tão feliz. Ele tinha parado de beijar seu rosto e estava olhando para ela, a cabeça apoiada em uma das mãos. Ele parecia atordoado, os olhos azul-esverdeados semicerrados. Seus dedos traçaram círculos lentos em seu ombro nu.

Ela pensou, eu te amo, Julian Blackthorn. Eu te amo mais do que a luz das estrelas.

O ar estava frio, mas ela estava quente aqui, neste pequeno círculo com Julian, escondido pelos afloramentos de rocha, envoltos na camisa de flanela que cheirava a ele. Sua mão era suave em seu cabelo. — Shh. Vai dormir.

Ela fechou os olhos.

Queima de Estrelas

fonte: Idris BRCassandra Clare no Tumblr
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Mark e Kieran - Primeiro Beijo

À noite eles dormiram juntos enrolados sob o cobertor de Kieran, feito de um tecido grosso que estava sempre quente. Numa noite, eles pararam no topo de uma colina, num lugar verde e ao norte. Havia uma lápide de pedras coroando a colina, algo construído por mundanos há milhares de anos. Mark encostou contra um dos lados da lápide e olhou ao longe do país verde, revestido de prata no escuro, para o mar distante. O mar, em todo lugar, ele pensou, é sempre o mesmo, o mesmo mar que quebra contra a costa do lugar que ele pensou ser sua casa…

Do topo da Mynydd Mawr, se pode ver o Mar Irlandês. Em algum lugar do outro lado desse oceano, Mark pensou, estava o país onde ele cresceu, e mais além na Costa Oeste estava Los Angeles, onde seus irmãos e irmãs viviam.

O cume da montanha era coberto de grama verde rasteira, e a encosta era recoberta de seixos até embaixo, deixando a visão ainda mais verde — uma miscelânea de tons de verde marcada pelas linhas acinzentadas dos muros de pedras das fazendas. Lança do Vento, cavalo de Kieran, estava beliscando a grama na beira da montanha, enquanto a montaria de Mark tinha vagado para longe em busca de algo para se animar, o que Mark duvidava que fosse achar nesse canto tranqüilo dos Wales.

Nuvens corriam pelo céu, baixas e cinzas, prometendo um aguaceiro. Mark olhou para Kieran, que estava trabalhando em armar um abrigo para eles. Ele tinha amarrado duas capas — capas da Caçada Selvagem eram feitas de um duro material fibroso, impermeável à chuva — sobre uma parte semi-caída da lápide de pedras.

Mark o observou enquanto ele espalhava outra capa por dentro das pedras, sobre a grama e o monte de terra. Seus gestos eram típicos de fadas: econômicos e graciosos. Na cinzenta luz da chuva, sua pele parecia diáfana e prateada, sobressaindo os finos ossos da face, das mãos. Quando ele piscava, seus cílios preto-azulados espalhavam luz.

Assim como as de Mark, suas roupas eram quentes e surradas; havia buracos em sua camisa de linho através dos quais Mark podia captar tentadores vislumbres de pele. Ele sentiu as bochechas ficarem quentes. Ele não sabia porque havia pensado nisso, ou porque estava olhando para Kieran dessa maneira: Kieran era seu amigo, isso era tudo. E um tipo esquisito e imprevisível de amigo, para ser sincero. Ele era frequentemente lembrado que o status de Kieran como príncipe da corte fazia a vida dos dois na Caçada mais fácil — se ele estivesse sozinho, não seria permitido a ele se separar do grupo principal e acampar nessa colina à noite. Seria requerido que ele ficasse na relva com o restante da Caçada e os duendes, piskies e seres sem nomes locais. Mas o desejo de Kieran por privacidade foi respeitado, tanto quanto a Caçada respeita qualquer coisa. Kieran era mal-humorado, apesar disso, seu temperamento mudava tão frequentemente quanto a cor de seus cabelos. Ele era como a água que sua mãe nixie vivia — por vezes doce e generosa, outras dura e tempestuosa. Não que Mark o culpasse por ser infeliz na Caçada, pois Kieran não tinha deixado uma família amorosa para trás como Mark.

— Vem pra cá — Kieran esticou a mão pra fora. — Ou você pretende ficar ensopado com a chuva?

— Eu não me importaria com um banho. A pele de Mark tinha acabado de receber os primeiros pingos de chuva.

— Você já está limpo o suficiente — Kieran disse: Mark supôs que fosse verdade; eles dois se banharam no lago Cwellyn mais cedo naquele dia. Mark amava observar Kieran nadando; dava pra ver a fada-aquática em seu sangue pela forma como ele se movia debaixo da superfície, rápido e suave como uma lontra, ou como emergia para sacudir gotas prateadas de seus cabelos.

O céu caiu sobre eles, e Mark correu para se jogar no pequeno abrigo, sob o tapete de capas. Era um espaço maior do que ele esperava, e Kieran tinha acendido uma pequena fogueira na extremidade do pequeno retângulo. A fumaça subia por uma fenda nas rochas. Mark podia sentir a umidade da terra através do cobertor, mas as capas mantiveram a chuva do lado de fora.

— Eu acho que aqui já foi uma pira — disse Kieran olhando em volta. — Onde eles enterravam os mortos.

Mark deu de ombros. Kieran lhe deu um olhar curioso. Fadas achavam a morte algo estranho, porque apenas acontecia quando elas tinham centenas de anos de idade. Morte em batalha era diferente: respeitável e não enfadonha. Elas não tinham um conceito de “mórbido”.

Mark se deitou de costas no cobertor e cruzou as mãos sobre a barriga. Ele podia sentir sua pulsação acima do estômago, logo abaixo das costelas. Era um sentimento que ele associava a fome, mas Kieran e ele haviam comido mais cedo naquele dia, e havia pão na sacola de Lança do Vento.

— Você está bem? No escuro, os olhos de Kieran eram ambos prateados, a luz refletindo neles como espelhos. Seu cabelo estava embaraçado, na altura do queixo; ele mesmo cortou usando lascas de um espelho, não muito tempo atrás. Mark ansiou tocá-lo para sentir se era tão espesso e macio como aparentava.

Ele precisava parar de ter esses pensamentos em relação à Kieran. Ele já havia visto Kieran beijar tanto meninos quanto meninas nas festas, e às vezes fazia mais que beijar. Mas não era essa a questão. Kieran era um príncipe e Mark um mestiço de Caçador de Sombras. Até mesmo um príncipe na Caçada Selvagem iria olhar torto para alguém com sangue humano. Às vezes ele se perguntava se Kieran o via como uma espécie de mascote ou amuleto da sorte, alguém habilidoso e divertido de se ter por perto: ele frequentemente ria das manias humanas de Mark e como ele ficava intrigado — mesmo após tanto tempo — com os costumes das fadas.

Kieran deitou ao lado de Mark. Por um momento, eles respiraram em um silêncio compassado. Mas estava difícil para Mark descansar perto de Kieran; ele estava muito consciente do outro garoto, da sua temperatura corporal, sua presença, o leve roçar de seus cabelos nos ombros de Mark quando ele virava a cabeça. Ele se remexia desconfortável, um calor aumentando aos poucos em seu ventre.

— Você não vai conseguir ver as estrelas hoje a noite — Kieran falou. — As nuvens vão cobri-las.

Kieran sabia do estranho costume de Mark. Toda noite, enquanto ele pegava no sono, ele procurava as seis estrelas mais brilhante no céu e dava a elas os nomes de seus irmãos e irmãs: Helen, Julian, Tiberius, Livia, Drusilla, Octavian. Estrelas diferentes brilhavam em pontos e climas distintos; ele achava que jamais havia escolhido as mesmas seis estrelas duas vezes.

Estou aqui, vivo no mesmo mundo que vocês, minha família, ele poderia pensar, traçando linhas invisíveis entre as estrelas. Com o tempo passando para eles, às vezes ponderava se Tavvy já amarrava os sapatos sozinho agora, se a voz de Julian engrossou, se Livvy já dominara o sabre, Dru ainda ama luzes coloridas? Helen e Aline estavam felizes? Ele se lembrava de quando se conheceram na Itália, durante toda aquela confusão; quão delirante de amor Helen estava quando ela veio em casa pela primeira vez.

Mas havia outras coisas que nublavam seus pensamentos de vez em quando, memórias que aos poucos iam perdendo detalhes. A música que Ty gostava – era clássica, mas qual era mesmo sua peça favorita de Bach? Mark já soubera um dia. E talvez tenha mudado. Era Dru quem amava filmes ou Livvy? Julian pintava com tinta a óleo ou aquarela?

— Meu Mark — Kieran disse. Ele havia se ajeitado nos seus ombros e olhava para Mark de um ângulo estranho. — Diga-me o que te perturba.

Mark se arrepiou. Isso sempre acontecia quando Kieran o chamava desse jeito. Havia um toque de carinho que ele suspeitava que era apenas a forma de falar das fadas: Kieran estava identificando Mark como o seu amigo e não alguém com o mesmo nome. Fadas eram bem singulares em relação a nomes, de qualquer maneira, já que elas possuíam um nome que todos os chamavam e também seus verdadeiros nomes, que concedia poder sobre elas. Saber o verdadeiro nome de uma fada era algo íntimo e poderoso.

Mark colocou o braço atrás da cabeça. A chuva havia se intensificado: ele podia ouvir as gotas caindo sobre o material das capas acima deles. — Memórias me perturbam — ele respondeu. — E imaginar se minha família se esquecerá de mim.

Kieran traçou um dedo pelo peito de Mark, parando sobre seu coração. Mark quase parou de respirar. Não significava nada, ele lembrou a si mesmo. Fadas não tinham noção de espaço pessoal.

— Ninguém iria se esquecer de você — disse Kieran calmamente. — Você não esquece aqueles que ama. Eu me lembro do rosto da minha mãe ainda. E não existe coração mais amoroso do que o seu.

— E, no entanto, às vezes acho que seria melhor se eu esquecesse — disse Mark, em voz baixa. E tais pensamentos não vieram sem culpa. — Para eles, para mim. Nunca mais irei voltar.

— Ninguém pode saber o futuro — disse Kieran, sentando-se com uma força surpreendente. — O seu exlio pode acabar. A clemência vem em muitas formas — um rei mais generoso e gentil teria levado você para sua Corte há muito tempo. Se eu tivesse o poder que um príncipe deveria ter…

Mark mudou sua posição e se sentou, mas Kieran já tinha parado de falar. Sua mão era um punho cerrado em seu colo, e sua cabeça estava inclinada. Era incomum para ele falar do fato de que ele era um príncipe do mundo das Cortes, já que, como exilado, seu poder não existia ali.

— Kieran — Mark começou, mas ficou claro que Kieran ficou angustiado, e isso foi incomum o suficiente para parar Mark. Ele raramente viu Kieran mostrar raiva ou tristeza, especialmente depois de seus primeiros dias na Caçada; ele permaneceu controlado, não mostrando nada aos outros Caçadores.

— Deveríamos dormir — disse Kieran, depois de uma longa pausa. — Nós devemos levantar cedo amanhã se quisermos encontrar os outros.

Mark se deitou de costas, e Kieran ficou ao lado dele, de costas para ele. Mark curvou-se e ficou o mais próximo de Kieran que conseguiu — eles tinham dormido juntos assim em inúmeras noites, compartilhando o calor de seus corpos. Mas Mark ficou chateado com a angústia de Kieran e não queria acrescentar mais nada pressionando atenção que ele poderia não querer. Mark se preparou para se colocar o quão perto de Kieran podia sem tocá-lo, com um de seus braços sob sua cabeça, a outra mão esticada para descansar apenas um milímetro dos cabelos de Kieran. Ele não queria admitir que estava esperando que talvez, durante a noite, quem o vendo passasse pelo o espaço dentro do pequeno abrigo, os fios pudessem passar pelos dedos de Mark, em algo como uma carícia.

Mas ele fez.

As mãos de Mark estavam presas, e ele estava gritando. Os Crepusculares estavam diante dele, Sebastian Morgenstern na liderança: um mar escarlate, cobrindo o mundo em sangue. Sua família estava diante de Sebastian, de joelhos — Helen e Julian, Ty e Livvy, Dru e Tavvy. Sebastian girou a Espada Mortal, cortando o peito de Julian. Seu irmão deslizou para o chão, e quando Mark viu sua expressão agonizante, um pedido em seus olhos — Ajude-me, Mark, ajude-me. — Mark. Mark! — Mark estava sentado ereto na escuridão, e havia mãos em seus ombros. — Mark, era um sonho, o glamour da mente, nada mais.

Mark ofegou no ar, aromatizado por chuva e sujeira. Não havia sangue, nem crepusculares, nem Sebastian. Ele estava no abrigo com Kieran, e havia chuva sobre eles. — Minha família —

Kieran empurrou o cabelo de Mark para trás com um cuidado que teria atordoado a Caçada. Mark se inclinou para receber a carícia sem pensar: ele estava ciente das mãos de Kieran, tão gentis contra sua pele. Como todas as fadas, Kieran não tinha calos; As pontas de seus dedos eram como asas macias. Mark inclinou-se para o toque, enquanto Kieran movia-se suavemente para acariciar seus ombros, com os dedos deslizando sobre os rasgos em sua camisa.

— Suas cicatrizes se curaram bem — disse Kieran; Alguns meses antes, Mark tinha sido chicoteado por membros da Caçada, irritados pelo governo dos Caçadores de Sombras.

Mark se afastou ligeiramente. — Mas elas ainda são feias —

— Nada em você é feio — disse Kieran, e por ele não poder mentir, Mark sabia que ele queria dizer isso. Seu coração parecia se contrair, enviando uma onda de sangue e calor por todo seu corpo.

Em todo o seu tempo na Caçada, havia apenas Kieran para dissipar seu desespero, transmutar sua tristeza, curar seu coração. Ele teria se inclinado para Kieran, sem saber exatamente o que ele queria dizer: não era o movimento rápido e elegante que ele queria que fosse; os lábios deles se juntaram calorosamente, e suas mãos subiram para acariciar os cabelos de Kieran, que era tão suave quanto sempre imaginava.

As mãos de Kieran apertaram fortemente os ombros de Mark — surpresa, aborrecimento, Mark não conseguiu adivinhar; ele estava muito horrorizado consigo mesmo. Ele se afastou de Kieran rapidamente.

— Desculpe — disse ele. — Me desculpe.

Kieran ergueu a mão para tocar a boca, colocando as pontas dos dedos contra os lábios. — Mas Mark —

Ele não terminou. Mark, queimando com humilhação, passou por ele. Derrubando as pedras na entrada do abrigo, ele mergulhou na tempestade.

A chuva era semelhante a agulhas caindo, levada para todos os lados pelo vento forte. Mark cambaleou um pouco, deslizando sobre a grama úmida fora do abrigo.

Ele se sentiu imediatamente tolo. O céu era uma névoa cinzenta e ele podia ver pouco ao redor dele: sujeira, grama verde, a sombra de Lança do Vento um pouco longe. O vento o arrepiou. E como ele encararia Kieran de novo? Ele era um Caçador de Sombras, deveria saber perfeitamente que fugir nunca resolveu nada.

Além disso, onde ele ia dormir?

Ele estava prestes a enfrentar o abrigo novamente, com humilhação ou sem humilhação, quando ouviu um gemido distante. Seu sangue esfriou. Seu cavalo. Era íngreme lá, instável com pedras e cascalhos, escorregadios agora com chuva. Seu cavalo poderia ter caído e estar caído no penhasco com uma perna quebrada.

Esquecendo seu próprio sofrimento pessoal por um momento, Mark caminhou até a beira do topo da montanha e olhou para baixo. Chuva e sombras. Um trovão atravessou o ar e ele pensou que ouviu outro gemido em seguida; caindo sob as mãos e joelhos, ele avançou por um caminho estreito que imaginava que era geralmente usado apenas por cabras.

Nada ainda. Ele fez uma pausa para recuperar o fôlego. Talvez se ele caísse da montanha, ele seria salvo do constrangimento de explicar a Kieran o motivo pelo qual o tinha beijado.

Ele levantou-se, pressionando-se contra o penhasco. Ele estava de pé em uma borda larga, com a névoa e o verde da península de Lleyn espalhados por baixo dele. A distância, ele podia ver a água do Afon Menai, agitada e cinza. A visão da água do mar sempre era dolorosa para ele, fazendo-o lembrar da visão do Instituto de Los Angeles.

A saudade de sua família veio em Mark selvagemente, junto com uma nova dor: E se ele havia afastado Kieran? Ele havia determinado muito tempo atrás que valeria a pena manter Kieran como um amigo mesmo que Mark não tivesse nenhum sentimento profundo por ele. Além de Gwyn, Kieran havia sido o único a lhe mostrar um pouco de gentileza na caçada, e Gwyn só poderia lhe ser gentil até o ponto em que outros caçadores não pensassem que existisse uma parcialidade injusta. Mas Kieran — Kieran havia segurado Mark após choros ou quando ferido. Havia lhe dado água e colocado cobertores sobre seus ombros. Havia separado porções de comida para ele. E mais do que qualquer um desses gestos, Kieran havia conversado com Mark e ouvido; uma pessoa não percebe quanto se perde quando ninguém fala com você como se você fosse uma pessoa com coisas dignas de se falar até que muito tempo tenha se passado até que o desespero se torna tão intenso que você começaria a conversar com pedras e árvores. Kieran havia devolvido a Mark sua humanidade por meio da graça do afeto comum, e agora Mark não sabia como poderia viver sem isso.

Ele poderia ir agora, ele decidiu, e se desculpar com Kieran. Isso seria a coisa certa a se fazer, a única coisa a se fazer, a única forma de salvar as coisas.

Ele escalou o caminho e escorregou na terra molhada, ele caiu e deslizou vários metros, chocando-se forte contra uma pedra. Em pé, ele limpou a lama de suas roupas e percebeu duas coisas: uma, que ele podia ver seu cavalo idiota, comendo grama a vários metros de distância, parecendo imperturbável com o tempo. A segunda era que Kieran estava a poucos metros dele: de alguma forma, ele voltou para o abrigo, embora ele não soubesse como.

— Mark! — disse Kieran. Sua voz soou rouca, provavelmente por causa do vento. Ele olhou com os olhos arregalados, os cabelos escuros recém-curtos e a cor profunda e negra que este se tornava quando ele estava chateado. — Mark, onde você estava?

— Eu fui procurar meu cavalo — disse Mark. — Quero dizer, ah, não de início. Eu fui porque — Ele suspirou, deixando as mãos caírem ao seu lado. — Desculpe, Kieran. Não pretendia fazer o que fiz.

— Você não pretendia fazer o quê?

Mark enxugou a chuva dos seus olhos. — Eu preferiria não dizer.

— Os seres humanos — disse Kieran, com surpreendente veemência. — Pensando que se eles não falam as palavras, eles podem desfazer o passado. Diga-me, Mark. Diga-me do que você se arrepende.

— Beijado você — disse Mark. — Se for algo que você não queria, então me arrependo.

Kieran ficou imóvel como uma estátua, olhando para ele. Ele já estava encharcado, suas roupas esticadas nele. — E se fosse algo que eu queria?

Mark ergueu a cabeça. As palavras eram como chamas individuais, iluminando faíscas incrédulas ao longo de suas terminações nervosas. — Então eu não me arrependo — ele disse com uma voz firme. — Então, é o melhor que aconteceu comigo desde que entrei na Caçada e os primeiros segundos em eu não sei quantos anos, que eu fiquei feliz.

As palavras pareceram eletrificar Kieran. Ele quase tropeçou chegando até Mark pelo caminho. Quando chegou até ele, ele puxou Mark para seus braços, seus dedos passando pelos cabelos molhado de Mark. — Por todos os deuses, Mark — ele disse com uma voz trêmula. — Como você pode não saber?

Mark não disse nada; ele estava surpreso demais. Kieran estava passando as mãos sobre o cabelo de Mark, o rosto dele, como se Mark fosse um tesouro que havia se perdido e então, quando toda a esperança desapareceu, retornou, e Kieran estava examinando para ver se ainda estava inteiro. — Você está bem — ele disse, finalmente, o tom da voz dele. — Você não está ferido.

— Claro — disse Mark, tão tranquilizador quanto podia.

Os olhos negros e prateados de Kieran brilhavam. — Quando você correu para a tempestade, pensei apenas em quão perigoso Mynydd Mawr é, quantos caíram para suas mortes aqui, e como caso alguma coisa acontecesse com você, Mark, como eu mesmo morreria. Você é insuportavelmente precioso para mim.

— Como amigo? — Mark disse, completamente atordoado. Kieran estava segurando-o, e tocava-o, meio frenético e meio adorando. Não era possível. Kieran não poderia se sentir assim por ele.

— Mark. — A voz de Kieran falhou. — Peço-lhe, pare de ser obtuso, ou eu também posso saltar da montanha.

— Mas — Mark protestou, e com um gemido, Kieran o beijou.

Desta vez, Mark deixou-se cair de cabeça no beijo, como se ele realmente estivesse caindo da montanha, no mar. Os lábios de Kieran sobre os dele eram firmes e doces e ele tinha gosto de fumaça e água da chuva. Ele soltou um gemido suave quando Mark separou seus próprios lábios e o calor onde suas bocas se encostavam fundidas pareceu multiplicar.

Mark nunca tinha beijado ninguém antes desta noite, não de verdade — houve toques furtivos rápidos nas rodas de dança durante as músicas, mas, em alguma parte de sua mente, ele tinha pensado estar guardando seu primeiro beijo. E ele estava feliz por isso, agora, porque ele estava tonto com o prazer doloroso do coração, a quase dor de uma fome desesperada que finalmente estava sendo saciada.

Foi Kieran quem se afastou primeiro, embora apenas uma distância suficiente para segurar o rosto de Mark em suas mãos e dizer com admiração: — Meu Mark. O coração do meu afeto. Como você não sabia?

— Você é um príncipe — disse Mark. — Eu sou — nada. Não sou nobre, nem membro das cortes, nem qualquer coisa. Mesmo agora, não posso acreditar que você realmente possa se importar comigo — no entanto — ele acrescentou, apressadamente, — Se o desejo por si só é o que você tem para oferecer, eu aceitarei.

— Eu desejo você — disse Kieran, e havia uma escuridão em seus olhos que fez Mark tremer. — Mas não é tudo o que sinto. Se fosse, eu teria feito algo sobre isso há muito tempo.

— Por que você não fez? — Mark disse. — Você poderia só ter me pedido — a qualquer hora ou momento. Sou eu que estou passando dos limites, não você.

Kieran balançou a cabeça. — Mark, você é um prisioneiro das fadas — ele disse, e havia um desespero em sua voz. — Nós o mantemos acorrentado à Caçada! Você teria tido motivos para me odiar e a todos os outros como eu. Eu não pude imaginar que você poderia sentir por mim uma sombra do que eu sinto por você.

— Não foi você que me acorrentou — disse Mark. — Foi a Clave, meu próprio povo, que me deixou aqui. Eu sei quem me traiu, Kieran; Eu conheço aqueles em quem eu não confio, e eles nunca usaram o seu rosto.

— Muitos não conseguiriam fazer esse julgamento — disse Kieran.

Mark roçou a parte de trás de seus dedos na bochecha de Kieran. O príncipe estremeceu. — Muitos me olhariam e veriam apenas um Caçador de Sombras e um agente da Paz Fria.

— Eu olho para você e vejo o firme companheiro de meus dias e noites — Kieran falou em um sussurro; seu cabelo preto azulado molhado colado em suas bochechas e pescoço. — Eu amaria você mesmo se você não me amasse: eu te amei desde que eu conheci você. Eu amei você todo esse tempo, acreditando que você nunca poderia me amar de volta. Te amei sem esperança ou expectativa.

Mark abaixou a mão para segurar a frente da camisa de Kieran. — Me ame, então — disse ele, com uma voz áspera. — Me mostre.

Uma chama escura acendeu nos olhos de Kieran; Ele colocou as mãos ao redor da parte de trás da cabeça de Mark e o manteve no lugar enquanto ele se inclinava para explorar sua boca completamente, fazendo Mark ofegar: ele sugou o lábio inferior de Mark, provocou os cantos de sua boca, atacou a boca de Mark com longos golpes de sua língua que fizeram com que Mark pressionasse o seu corpo impotente contra Kieran, querendo mais. Ele estava com a pele molhada de chuva e tremendo, mas não se importava. Ele não sentia nada além de Kieran e do calor de seu corpo e da sensualidade tortuosa de sua boca.

Foi Kieran quem os separou, finalmente, Kieran que pegou Mark pelo pulso e puxou-o de volta para o abrigo. Eles rastejaram sob o abrigo, onde o fogo queimou e agora era somente brasas cintilantes. Eles se ajoelharam na sujeira e se beijaram freneticamente, rasgando as roupas um do outro. O tecido úmido rasgou e foi descartado, e quando ambos estavam despidos, caíram de costas entre o emaranhado de capas e tecidos e se beijaram até que Mark estivesse bêbado com isso: beijos longos e lentos, como as águas negras das correntes da Terra Faerie que faziam os humanos esquecer. Eles não falaram, exceto uma vez:

— Você já fez? — Kieran perguntou, parcialmente nas sombras.

— Não. — disse Mark. — Com ninguém.

Kieran pausou, a mão esticada sobre o peito de Mark. Ele era lindo assim, à luz do fogo, pele pálida e cabelos escuros como um esboço de Michelangelo em caneta e tinta. — Na Caçada, nossos corpos nos trazem apenas dor — disse ele. — A agonia da fome e a dor do cansaço e dos chicotes. Deixe eu te mostrar agora o milagre que um corpo pode ser.

Mark assentiu e Kieran foi trabalhar com as suas mãos e sua boca. Ele estava sem pressa em sua intensidade; Mark não tinha percebido que alguma coisa poderia ser tão áspera e tão suave ao mesmo tempo. Kieran o tocou com tanto cuidado que ele imaginou que, onde as mãos de Kieran foram, uma estela passou com runas de cura, alisando suas cicatrizes, apagando a dor que se lembrava.

Ele atraiu o prazer do fundo do corpo de Mark, empurrando-o lentamente, como uma bandeira que se desenrolava. A respiração de Mark se tornou rápida e depois mais rápida. Ele foi tocar Kieran, querendo devolver algo do que estava recebendo, e foi quase desfeito pelo forte suspiro de prazer de Kieran. Com a sensação do corpo de Kieran sob as mãos: a pele lisa e fina como a seda, a angularidade dos ossos, a sua intensa sensibilidade, sensível ao toque mais leve de Mark. Ele já estava tremendo quando Mark acariciou seu corpo, lambeu e chupou sua pele: finalmente ele gritou e arrastou Mark para debaixo dele, se apoiando com os cotovelos sobre Mark.

Seus olhos estavam vidrados, sem foco: Mark sentiu uma sensação de orgulho intenso, que ele poderia fazer um Príncipe Faerie se sentir assim. O orgulho só durou um momento: Kieran sorriu imoralmente e balançou os quadris de uma maneira que atirou fogo nas veias de Mark e tudo desapareceu. Mark apertou Kieran: eles estavam pressionados peito a peito e coxa a coxa e quando o príncipe deslizou a mão entre seus corpos e começou a acariciá-los juntos, foi o prazer físico mais puro que Mark conheceu desde que se juntou à Caçada. Todo o resto foi levado para fora de sua mente, todas as complicações e todas as perdas se foram com a maravilhosa realização de que seu corpo era mais do que um instrumento que trazia dor ou duras privações. Era também capaz de maravilhas.

As mãos e os dedos de Kieran eram como fogo, fogo que causava uma alegria indescritível. Mark fechou os olhos, seu corpo se arqueou impotente para o do príncipe. Kieran também estava ofegante, seu corpo tremendo, e cada tremor trouxe mais fricção e mais prazer até Mark pensar que ele poderia morrer disso. Ele se arqueou para prender o rosto de Kieran entre suas mãos e o beijou, profundo e intenso, e o beijo pareceu acabar com a última resistência do príncipe: Kieran sentiu no mesmo momento que Mark, ambos tremendo e gemendo um nos braços um do outro.

Mais tarde, Mark não se lembraria do que tinha exclamado ou sussurrado naquele momento, mas ele não se esqueceria das palavras de Kieran, saindo dos lábios do príncipe quando ele se afundou no abraço de Mark, pois essa não seria a última vez que Mark as ouviria.

— Você nunca será nada para mim, Mark Blackthorn — disse Kieran. — Pois você é tudo que eu amo na terra e sob o céu.

Depois, eles se deitaram nos braços um do outro, Mark com a cabeça no ombro de Kieran, e Mark disse a Kieran que ele estava certo, que as estrelas não podiam ser vistas, mesmo através das lacunas na capa acima deles.

— Conte os brasões no fogo — disse Kieran, os dedos nos cabelos de Mark. — Dê a eles nomes que você considera valiosos.

E Mark fez, embora, no final, sua voz estivesse cheia de sono; ele se deixou levar, e pela primeira vez em muitos anos vagando, foi sem um último pensamento de tristeza ou de dor, mas apenas de amor, e como ofuscou as estrelas.

Referências

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