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Nesta página estarão uma compilação dos extras, cenas cortadas, contos e outros bônus extras ou conteúdo especial dentro da série, lançado juntamente com Os Artifícios das Trevas ou pela própria Cassandra Clare.

Dama da Meia-Noite

Cena deletada de Jules

fonte: Cassandra Clare no Twitter

Algumas pessoas faziam listas de coisas que queriam fazer antes de morrerem; Julian tinha uma lista de coisas que não podia fazer. Ele estava deitado com o braço rodeando o corpo de Emma, seus dedos mal tocando seu braço nu, recitando silenciosamente sua lista.

Coisas que eu nunca posso fazer:
Deixar as crianças
Deixar que alguém descubra sobre Arthur
Deixe a Clave ter Ty
Deixar qualquer um saber porque eu me levanto antes do nascer do sol
Contar...

Emma se moveu enquanto dormia, acariciando-o suavemente com a mão, curvando-se para ele como um gato procurando calor. Passava da meia-noite; Julian teria que se levantar em quatro horas, mas ele podia sentir seu coração martelando na parte de trás de sua garganta e ele sabia que o sono não viria.

Coisas que eu nunca posso fazer:
Deixar as crianças
Deixar que alguém descubra sobre Arthur
Deixe a Clave ter Ty
Deixar qualquer um saber porque eu me levanto antes do nascer do sol
Contar a Emma

Uma Longa Conversa

CJ Jace & Clary 19, ALC

Capa da história online por Cassandra Jean.

Uma pequena história incluída nas primeiras edições de Dama da Meia-Noite, abordando uma festa com a presença de personagens de Os Instrumentos Mortais mencionados e amarrando-os a eventos em Dama da Meia-Noite, permitindo que os leitores vejam os personagens de Os Instrumentos Mortais.
A história será lançada online (em inglês) em abril de 2017.[1]
  • Abaixo está a história, retirada da edição brasileira de Dama da Meia-Noite.
ALERTA DE SPOILER: Detalhes do enredo a seguir. Aconselhamos atenção!


Clary olhou em volta da sala de música do Instituto com um sorriso. Em uma noite quente de verão em Nova York, as janelas estavam abertas e Magnus havia produzido magicamente pingentes de gelo que pendiam do teto e refrescavam o ambiente. O recinto estava cheio de pessoas que Clary amava e com as quais se importava, e em sua opinião, estava muito bonito, considerando que ela teve um prazo de 24 horas para correr e encontrar algum lugar no Instituto onde pudessem dar uma festa.

Realmente não existia razão para não sorrir.

Dois dias antes, Simon tinha aparecido no Instituto, arfando e com os olhos arregalados. Jace e Clary estavam na sala de treinamento, verificando a nova tutora do Instituto, Beatriz Mendoza, e alguns dos alunos do Conclave.

— Simon! — exclamou Clary. — Eu não sabia que você estava em Nova York.

Simon tinha se formado na Academia dos Caçadores de Sombras como parabatai de Clary e como Recrutador, um cargo criado pela Consulesa para ajudar a reabastecer as tropas de Caçadores de Sombras, diminuídas com a Guerra Maligna. Quando prováveis candidatos a Ascender eram encontrados, Simon ia até ales para falar sobre o que significava se tornar um Caçador de Sombras após a vida mundana. Era um trabalho que frequentemente o levava para longe de Nova York, e essa era a desvantagem; a parte boa era que Simon realmente parecia gostar de ajudar mundanos assustados com a Visão a sentir que não estavam sozinhos.

Não que Simon parecesse capaz de confortar qualquer um nesse momento. Ele parecia ter sido atingido por um tornado.

— Acabei de pedir Isabelle em casamento — anunciou ele.

Beatriz gritou de alegria. Alguns dos alunos, temendo um ataque demoníaco, também gritaram. Um deles caiu de uma viga e tombou com força no tatame. Clary começou a chorar de alegria e abraçou Simon.

Jace deitou no chão com os braços abertos.

— Vamos ser uma família — falou ele melancolicamente — Você e eu, Simon, seremos irmãos. As pessoas vão pensar que somos parentes.

— Ninguém vai pensar isso — disse Simon, com a voz abafada pelo cabelo de Clary.

— Estou tão feliz por você, Simon — disse Clary. — Você e Izzy serão tão, tão felizes. — Ela se virou e encarou Jace. — Quanto a você, pode se levantar para dar os parabéns a Simon ou vou entornar todo o seu xampu caro no ralo.

Jace se levantou; ele e Simon trocaram tapinhas nas costas de um jeito másculo, e Clary ficou feliz por perceber que ela tinha orquestrado aquilo. Jace e Simon eram amigos havia anos, mas Jace ainda parecia achar que precisava de desculpas para demonstrar o seu afeto; Clary senti-se feliz em oferecê-las.

— Correu tudo bem com o pedido? Foi romântico? Você a surpreendeu? Não acredito que não me contou que ia fazer isso. — Clary deu um tapa no braço de Simon. — Tinha rosas? Izzy adora rosas.

— Foi no impulso — disse Simon. — Um pedido impulsivo. Estávamos na Ponte do Brooklyn. Izzy tinha acabado de arrancar a cabeça de um demônio Shax.

— E coberta de icor, você nunca a achou tão bela? — perguntou Jace.

— Algo do tipo — respondeu Simon.

— Essa foi a coisa mais Nephilim que já ouvi — disse Clary. — E os detalhes? Você se ajoelhou?

— Caçadores de Sombras não fazem isso — disse Jace.

— É uma pena — falou Clary. — Adoro essa parte nos filmes.

— Então por que você parece tão assustado? — perguntou Jace. — Ela disse sim, não disse?

Simon passou os dedos no cabelo.

— Ela quer uma festa de noivado.

Open bar — disse Jace, que tinha desenvolvido um interesse em mixologia que Clary achava divertido. — Definitivamente open bar

— Não, vocês não estão entendendo — emendou Simon. — Ela quer que seja daqui a dois dias.

— Hum — disse Clary. — Dá para entender que ela está animada para dar a notícia aos amigos e à família, mas certamente tem como esperar mais um pouco...?

Quando Jace falou, a voz saiu seca:

— Ela quer que seja no aniversário de Max.

— Ah — responder Clary baixinho. Max, o mais jovem e doce dos Lightwood, o irmãozinho de Izzy e Alec. Ele teria 15 anos agora, quase a mesma idade de Tiberius e Livvy Blackthorn. Dava para entender totalmente por que Isabelle queria sua festa de noivado em uma ocasião em que sentiria que Max estava com ela. — Bem, você pensou em pedir ajuda a Magnus?

— Claro que sim — respondeu Simon. — E ele disse que ajudaria se pudesse, mas estão resolvendo aquela história com Rafael...

— Certo — falou Clary. — Então você quer a nossa ajuda?

— Queria poder fazer aqui — disse Simon. — No Instituto. E você poderia me ajudar com algumas coisas que eu não entendo bem?

Clary sentiu um medo crescente. O Instituto tinha passado por grandes reformas recentemente: algumas ainda em andamento. O salão de festas quase não era utilizado e seria transformado em uma segunda sala de treinamento, e vários andares estavam atulhados de pilhas de azulejos e madeira. Havia a sala de música, que era enorme, mas estava abarrotada com antigos violoncelos, pianos e até um órgão.

— Que tipo de coisas?

Simon olhou para ela com grandes olhos castanhos, feito um cachorrinho.

— Flores, bufê, decoração...

Clary resmungou. Jace afagou seu cabelo.

— Você consegue — encorajou ele, e Clary pôde ouvir no tom de voz que ele estava sorrindo. — Eu acredito em você.

E foi assim que Clary foi parar na sala de música do Instituto, com os pingentes de gelo brilhantes de Magnus pingando em seu vestido verde. De vez em quando Magnus fazia algumas mudanças, e pétalas ilusórias de rosas sopravam pelo recinto. Alguns dos integrantes do bando de licantropes de Maia ajudaram a mover a harpa, o órgão e vários outros instrumentos para a sala vazia ao lado (a porta estava firmemente fechada agora, semioculta por uma cachoeira enfeitiçada de borboletas caindo).

Lembrava Clary um pouco da corte da Rainha Seelie, que se apresentou diferente em todas as vezes que a visitou, anos antes: gelo brilhando algumas vezes, veludo vermelho macio em outras. Ela sentiu uma leve pontada, não pela Rainha, que foi cruel e traiçoeira, mas pela magia das fadas. Desde a Paz Fria, eles nunca mais visitaram as Cortes do Reino das Fadas. O Central Park não era mais ocupado com danças em noites de lua cheia. Não dava mais para ver pixies e sereias nas águas do rio Hudson. Às vezes, tarde da noite, ela ouvia os ruídos solitários e agudos da Caçada Selvagem cavalgando pelo céu, pensava em Mark Blackthorn e sofria. Mas Gwyn e seu povo jamais se sujeitaram a qualquer lei, e o barulho da Caçada não substituía a música das festas de fadas que outrora transbordava de Hart Island.

Ela havia conversado com Jace sobre o assunto, e ele concordava com ela, tanto como namorado, quanto como codiretor do Instituto: o mundo dos Caçadores de Sombras, sem o Povo das Fadas, perdia o equilíbrio. Caçadores de Sombras precisavam do Submundo. Sempre precisaram. Fingir que o Povo das Fadas não existia só causaria um desastre. Mas eles não eram o Conselho — apenas os líderes muito jovens de um único Instituto. Então esperavam e tentavam se preparar.

Certamente, Clary pensou, não havia outro Instituto — até onde ela sabia — que fosse fazer uma festa como aquela. Os alunos de Beatriz atuavam como garçons, carregando bandejas de canapés ao redor do recinto — os canapés foram oferecidos pela irmã de Simon, que gerenciava um restaurante no Brooklyn, e as travessas e talheres eram de peltre, não de prata, em homenagem aos lobisomens presentes.

Por falar em Submundo, Mais estava rindo em um canto, de mãos dadas com Morcego. Usava um vestido laranja ondulante, os cachos arrumados e o medalhão da Praetor Lupus brilhando em seu pescoço moreno.

Ela estava conversando com Luke, o padrasto de Clary, os óculos levantados na cabeça. Havia um pouco mais de grisalho em sua cabeça atualmente, mas os olhos continuavam brilhantes como sempre. Jocelyn havia se refugiado em um dos escritórios para ter uma longa conversa com Maryse Lightwood, potencial sogra de Simon. Clary não podia evitar imaginar se ela estava discursando sobre como os Lightwood tinham sorte de ter Simon na família e seria bom que não esquecessem disso.

Julie Beauvale, a parabatai de Beatriz, passou por eles com uma bandeja de docinhos. Enquanto Clary observava, Lily, a líder do clã de vampiros de Nova York, pegou um doce da bandeja, deu uma piscadela para Morcego e Maia, e foi até o piano, passando por Simon, que conversava com os pais de Isabelle — Robert e Maryse Lightwood —, pelo caminho. Simon usava um terno cinza e parecia nervoso o bastante para saltar da própria pele.

Jace estava tocando, seu blazer de veludo permanecia pendurado no encosto da cadeira, as mãos esguias dançando sobre as teclas do piano. Clary não pôde deixar de se lembrar da primeira vez que o viu no Instituto, tocando piano, de costas para ela. Alec?, ele dissera. Alec, é você?

A expressão de Jace estava focada e séria, do jeito que só ficava quando fazia alguma coisa que considerava digna de toda a sua concentração — lutando, tocando música ou beijando. Ele levantou os olhos, como se pudesse sentir o olhar de Clary, e sorriu para ela. Mesmo depois de todo esse tempo, ele ainda a fazia sentir calafrios na espinha.

Clary tinha um orgulho imenso dele. Eles ficaram tão surpresos quanto todo mundo quando o Conclave os elegeu como os novos diretores do Instituto após a saída de Maryse. Tinham apenas 19 anos, e ela presumiu que Alec e Isabelle fossem assumir, mas ambos recusaram. Isabelle queria viajar, e Alec estava envolvido com a Aliança entre Caçadores de Sombras e Integrantes do Submundo que estava criando.

Eles podiam recusar, Clary disse a Jace na época. Ninguém poderia obrigá-los a dirigir um Instituto, e eles tinham planejado viajar o mundo juntos enquanto Clary pintava e Jace combatia demônios em locais inusitados. Mas ele queria. Ela sabia que, no coração dele, esta era uma forma de retribuir pelas pessoas que perderam na guerra, que não conseguiram salvar. Pela sorte que tiveram em passar por tudo aquilo com todas as pessoas que amavam praticamente ilesas. Pelo fato de que o mundo havia lhe presenteado com Alec, Isabelle e Clary, quando ele achava que jamais teria um melhor amigo, uma irmã, e que jamais se apaixonaria.

Dirigir o Instituto era um trabalho difícil. Exigia todas as capacidades de encanto de Jace e o instinto de Clary para manter a paz e firmar alianças. Sozinhos, nenhum dos dois conseguiria, mas, juntos, a determinação de Clary equilibrava a ambição de Jace, seu conhecimento do mundo mundano e seus aspectos práticos, o ancestral sangue e treinamento Nephilim de Jace. Ele sempre foi o líder natural do grupo deles, um estrategista comprovado, excelente em conseguir perceber quem seria bom em quê. Clary era a que tranquilizava os assustados, assim como a que finalmente instalou um computador na Sala de Estratégia.

Lily sussurrou algo no ouvido de Jace, provavelmente pediu alguma música — ela morreu nos anos 1920 e vivia pedindo jazz —, antes de girar em seus saltos vermelhos e se dirigir a um cobertor que estava aberto em um canto da sala. Magnus estava sentado nele, seu filho Max, um feiticeiro de 3 anos com pele azul-marinho, encolhido ao seu lado. Também no cobertor encontrava-se um menino de 5 anos, um Caçador de Sombras, com cabelos negros emaranhados, que alcançava um livro que Magnus lhe estendia com um sorriso tímido.

Beatriz de repente apareceu ao lado de Clary.

— Onde está Isabelle? — sussurrou.

— Ela quer fazer uma entrada impactante — sussurrou Clary de volta. — Ela está esperando todo mundo chegar. Por quê?

Beatriz lhe lançou um olhar expressivo e inclinou a cabeça para a porta. Segundos mais tarde, Clary a estava seguindo pelo salão, levantando a saia do vestido para não tropeçar na bainha. Ela se viu no espelho da parede do corredor, o vestido da cor de um caule de flor.

Jace gostava quando ela usava verde, combinava com seu olhos, mas houve um tempo em que a cor a incomodava. Ela não conseguiu vê-la sem pensar em seu irmão, Jonathan, cujos olhos ficaram verde ao morrer.

Quando ele era Sebastian, tinha olhos negros. Mas isso foi há muito tempo.

Beatriz a levou até a sala de jantar, que estava cheia de flores. Tulipas holandesas, Clary tinha certeza. Estavam empilhadas nas cadeiras, na mesa, na bancada.

— Acabaram de entregar — disse Beatriz, com um tom trágico, como se fosse um cadáver, e não flores.

— Tudo bem, qual é o problema? — falou Clary.

— Isabelle é alérgica a tulipas — disse uma voz nas sombras. Clary deu um pulo. Alec Lightwood estava sentado em uma cadeira na ponta da mesa, com uma camisa branca para fora da calça social preta, e segurava uma tulipa amarela. Ele estava ocupado arrancando pétalas com sua mão de dedos longos. — Beatriz, posso falar com Clary um instante?

Beatriz fez que sim com a cabeça, parecendo aliviada por entregar o problema a outra pessoa, e se retirou.

— O que houve, Alec? — perguntou Clary, dando um passo em direção a ele. — Por que você está aqui, e não com o restante dos convidados?

— Minha mãe disse que talvez a Consulesa apareça — respondeu ele sombriamente.

Clary o encarou.

— E? — falou. Não era como se Alec fosse um criminoso procurado.

— Você sabe sobre Rafe, certo? — perguntou ele. — Quero dizer, sobre os detalhes.

Clary hesitou. Há alguns meses Alec tinha sido enviado a Buenos Aires para averiguar alguns ataques de vampiros. Enquanto estava lá, encontrou um menino Caçador de Sombras de 5 anos, um sobrevivente da destruição do Instituto de Buenos Aires durante a Guerra Maligna. Ele e Magnus viajaram de Portal para a Argentina muitas vezes, sem contar a ninguém o que estavam fazendo, até que um dia apareceram em Nova York com um menino magrinho e de olhos arregalados e anunciaram a sua adoção. Ele seria filho deles e irmão de Max.

Chamaram-no de Rafael Santiago Lightwood.

— Quando encontrei Rafe, ele estava morando na rua, morto de fome — disse Alec. — Roubando comida dos mundanos, tendo pesadelos porque tinha a Visão e enxergava monstros. — Mordeu o lábio. — A questão é que nos deixaram adotar Max porque ele é do Submundo. Ninguém o queria. Ninguém se importava. Mas Rafe é um Caçador de Sombras e Magnus... não. Não sei como o Conselho vai se sentir em relação a um integrante do Submundo criando uma criança Nephilim, principalmente quando estão desesperados por novos Caçadores de Sombras.

— Alec — falou Clary com firmeza —, não vão tirar Rafe de vocês. Não vamos deixar.

Eu não vou deixar — garantiu Alec. — Eu mataria todos eles antes disso. Mas isso seria estranho e arruinaria a festa.

Clary teve uma imagem mental breve, porém vívida, de Alec atirando nos convidados com seu arco e flecha enquanto Magnus os matava com fogo mágico. Ela suspirou.

— Você tem algum motivo para acreditar que vão levar Rafe? Recebeu algum sinal, alguma reclamação do Conselho?

Alec balançou a cabeça.

— Não. É que... você conhece esse Conselho. A Paz Fria significa que estão irritáveis o tempo todo. E, apesar de haver integrantes do Submundo no Conselho agora, não confiam neles. Às vezes, acho que estão piores do que antes da Guerra Maligna.

— Não vou dizer que está errado — falou Clary. — Mas posso dar uma sugestão?

— A sugestão é envenenar a bebida? — perguntou Alec, com ansiedade preocupante.

— Não — respondeu Clary. — Eu só ia dizer que você talvez esteja direcionando a sua ansiedade para o lugar errado.

Alec pareceu confuso. Termos psicológicos mundanos nem sempre eram compreendidos por Caçadores de Sombras.

— Você está preocupado porque um filho é assunto sério e isso tudo aconteceu muito de repente — disse Clary. — Mas Max também foi repentino. E você e Magnus são ótimos pais. Vocês se amam muito, e isso só significa que têm mais amor para dar. Você jamais deve se preocupar com a hipótese de não ter amor suficiente para quantos filhos quiser ter na vida.

Os olhos de Alec brilharam por um instante, azul liminoso sob cílios negros. Ele se levantou e foi até onde Clary estava perto da porta.

— Garota sábia — falou ele.

— Você nem sempre me achou sábia.

— Não, eu a achava uma peste, mas agora a conheço bem. — Ele deu um beijo na cabeça dela e passou pela porta, ainda segurando a tulipa.

— Jogue isso fora antes de chegar à sala de música! — gritou Clary para ele, imaginando Isabelle caída no chão, cheia de urticária.

Ela suspirou e fixou o olhar nas tulipas. Supunha que ainda fosse possível ter uma festa sem flores. Mesmo assim...

Bateram à porta. Uma menina com retalhos de seda com longos cabelos castanhos trançados em volta da cabeça. Rebecca, a irmã de Simon.

— Posso entrar? — perguntou ela, abrindo a porta. — Uau, tulipas!

— Isabelle é alérgica a tulipas — falou Clary, pesarosa. — Aparentemente.

— Que pena — disse Rebecca. — Pode falar um segundo?

Clary fez que sim com a cabeça.

— Claro, por que não?

Rebecca entrou e se sentou na beira da mesa.

— Eu queria agradecer — disse ela.

— Pelo quê?

— Por tudo. — Rebecca olhou em volta, assimilando os retratos de Caçadores de Sombras ancestrais, com motivos de anjos e espadas cruzadas. — Eu ainda não sei muito sobre essa coisa de Caçadores de Sombras. Simon só pode me contar pouco. Não sei, de fato, qual é o trabalho dele...

— Ele é um Recrutador — respondeu Clary, sabendo que isso não significaria nada para Rebecca, mas ela sentia orgulho de Simon. Tudo o que aconteceu com ele foi difícil, doloroso, desafiador (ser um vampiro, perder a memória, tornar-se Caçador de Sombras, perder George), mas ele transformou isso em uma maneira de ajudar as pessoas. — Perdemos muitos Caçadores de Sombras na guerra há cinco anos. E desde então estamos tentando arrumar novos. Os melhores candidatos são mundanos que têm sangue de Caçador de Sombras, que frequentemente significa que eles não sabem que são Caçadores de Sombras, mas têm a Visão. Conseguem ver vampiros, lobisomens, magia; coisas que podem fazer com que a pessoa pense que está enlouquecendo. Simon conversa com eles, conta sobre como é se tornar Caçador de Sombras, por que é difícil e por que é importante.

Clary sabia que provavelmente não devia dizer nada disso a uma mundana. Por outro lado, ela provavelmente não deveria sequer deixar que Rebecca entrasse no Instituto, quanto mais contratá-la para cuidar do bufê. Mas, quando Clary e Jace assumiram o Instituto, juraram um para o outro que seriam um tipo diferente de guardiões.

Afinal de contas, Clary e Simon também foram "mundanos" que não deveriam entrar no Instituto.

Rebecca estava balançando a cabeça.

— Certo, eu não entendo nada disso. Mas meu irmãozinho é importante, não é?

Clary sorriu.

— Ele sempre foi importante para mim.

— Ele está muito feliz — disse Rebecca. — Com a vida dele, com Isabelle. E tudo isso é graças a você. — Ela se inclinou para a frente e falou em um sussurro conspiratório. — Quando você e Simon se tornaram amigos e ele a trouxe para casa da escola, minha mãe me disse: "essa menina vai trazer magia à vida dele". E você trouxe.

— Literalmente — respondeu Clary. Rebecca permaneceu impassível. Ah, céus, Jace teria rido. — Quero dizer, que bom, e fico muito feliz. Você sabe que amo Simon como um irmão...

— Clary! — Clary levantou o olhar, alarmada, temendo por Isabelle, mas se enganou: era Lily Chen, com Maia Roberts. A líder do clã de lobisomens de Nova York e a líder do clã de vampiros de Nova York, juntas.

Não que fosse incomum vê-las juntas: eram amigas. Mas eram também aliadas políticas que frequentemente se viam em polos opostos de uma discussão.

— Oi, Rebecca — cumprimentou Maia. Ela acenou, e o seu anel de bronze brilhou. Ela e Morcego tinham trocado anéis de compromisso havia algum tempo, mas nada era oficial. Maia era a alfa dos lobisomens de Manhattan, encarregada de reconstruir a Praetor Lupus e estudando para conseguir sua licenciatura em Administração. Era extremamente competente.

Lily olhou sem interesse para Rebecca.

— Clary, precisamos falar com você — disse. — Tentei conversar com Jace, mas ele está tocando piano, e Magnus e Alec estão com aquelas pequenas criaturas.

— Crianças — respondeu Clary. — São crianças.

— Eu informei Alec de que precisávamos de assistência e ele mandou falar com você. — disse Lily, soando irritada.

Ela gostava de Alec, do jeito dela. Ele foi o primeiro Caçador de Sombras a, de fato, ceder e trabalhar com ela e Maia, unindo seu conhecimento Nephilim às habilidades do Submundo delas. Quando Jace e Clary assumiram o Instituto, eles também entraram nessa estranha aliança; Isabelle e Simon participavam quando podiam, e Clary tinha armado uma Sala de Estratégia para eles, cheia de mapas e planos, e importantes contatos em caso de emergência.

E havia muitas emergências. A Paz Fria significava que partes de Manhattan que pertenciam ao Povo das Fadas foram arrancadas deles, e outros grupos do Submundo lutavam pelos restos. Muitas foram as noites em que Clary e Jace, junto a Alec, Lily e Maia, se sentaram tentando acertar algum detalhe da trégua entre vampiros e licantropes ou conter algum plano de vingança antes mesmo que pudesse começar. Magnus tinha até criado feitiços especiais para que Lily pudesse entrar no Instituto apesar de ser terreno sagrado, coisa que Jace disse que, até onde sabia, jamais tinha sido feita por qualquer outro vampiro.

— É sobre o High Line — contou Maia. High Line era um parque público construído no alto de uma linha de trem descontinuada no centro, que recentemente tinha sido aberto ao público.

— O High Line? — repetiu Clary. — Como assim, vocês de repente então interessadas em projetos urbanistas?

Rebecca acenou para Lily.

— Oi, eu sou Rebecca. Seu delineador é incrível.

Lily ignorou.

— Por causa da elevação, é um novo território de Manhattan — explicou ela —, portanto, não pertence aos vampiros nem aos licantropes. Ambos os clãs estão tentando se apossar dele.

— Realmente precisamos discutir isso agora? — perguntou Clary. — É a festa de noivado de Isabelle e Simon.

— Ah, meu Deus! — Rebecca se levantou de um pulo. — Esqueci! A apresentação de slides!

Ela saiu correndo, e Clary ficou observando.

— Apresentação de slides?

— Entendo que em eventos como este é tradicional humilhar os noivos com fotos da infância de cada um — explicou Lily. Clary e Maia a encararam. Ela deu de ombros. — O que foi? Eu assisto à TV.

— Veja, eu sei que não é um bom momento para incomodá-la com isso — disse Maia —, mas a questão é a seguinte: aparentemente tem um grupo de licantropes e outro de vampiros se enfrentando lá agora. Precisamos de ajuda do Instituto.

Clary franziu o rosto.

— Como vocês sabem o que está acontecendo?

Maia levantou o telefone.

— Acabei de falar com eles — respondeu sucintamente.

— Me dê aqui — falou Clary, sombria. — Tudo bem, com que estou falando?

— Leila Haryana — disse Maia. — Ela é do meu bando.

Clary pegou o telefone, apertou o botão de rediscagem e esperou até a voz da menina atender do outro lado.

— Leila — disse. — Aqui quem fala é Clarissa Fairchild, do Instituto. — Fez uma pausa. — Sim, a diretora do Instituto. Sou eu. Olha, sei que está no High Line. Sei que está prestes a combater um clã de vampiros. Preciso que pare com isso.

Gritos indignados se seguiram. Clary suspirou.

— Os Acordos ainda são os Acordos — continuou. — E isso é uma transgressão. Segundo, hum, a seção sete, parágrafo 42, vocês devem levar disputas territoriais ao Instituto mais próximo antes de lutarem.

Mais uma discussão em voz baixa.

Clary cortou.

— Diga aos vampiros o que falei. E estejam aqui no Santuário cedo. — Ela pensou no champanhe na sala de música. — Talvez não tão cedo. Cheguem às onze, dois vampiros e dois licantropes, e vamos resolver isso. Se não o fizerem, serão considerados inimigos do Instituto.

Concordância aos resmungos.

Clary parou.

— Certo — falou. — Então tá. Tenha um bom dia.

Desligou.

— Tenha um bom dia? — disse Lily, erguendo as sobrancelhas.

Clary resmungou, devolvendo o telefone a Maia.

— Sou péssima em me despedir.

— Qual é o parágrafo 42 da seção sete? — perguntou Maia.

— Não faço ideia — respondeu Clary. — Eu inventei.

— Nada mal — admitiu Lily. — Agora vou voltar para a sala de música e avisar Alec que na próxima vez que precisarmos dele, é bom que ele atenda ou posso acabar mordendo algumas daquelas crianças dele.

Ela saiu, girando a saia.

— Eu vou impedir que esse desastre aconteça — falou Maia apressadamente. — Até mais tarde, Clary!

Ela partiu, deixando Clary apoiada contra a grande mesa no meio do recinto, respirando fundo, se acalmando. Ela tentou se imaginar em um local plácido, talvez na praia, mas isso só a fez pensar no Instituto de Los Angeles.

Ela e Jace foram para lá um ano após a Guerra Maligna para ajudar a restabelecer o local — foi o Instituto que mais sofreu com os ataques de Sebastian. Emma Carstairs os ajudou em Idris, e Clary sentiu um senso de proteção em relação à menininha loura. Eles passaram um dia organizando na nova biblioteca, e depois Clary levou Emma para a praia, para olharem conchas e vidro marinho. Emma estava fazendo uma pulseira. Mas se recusou a entrar na água e, até mesmo, a passar muito tempo olhando para ela.

Clary havia se perguntado se estava tudo bem.

— Não é comigo que me preocupo — respondeu Emma. — É Jules. Eu faria qualquer coisa para ele ficar bem.

Clary a olhou longamente, mas Emma, observando o pôr do sol ardente vermelho e laranja, não viu.

— Clary! — A porta abriu explosivamente outra vez. Finalmente era Isabelle, radiante com um vestido de seda lilás e sandálias brilhantes. Assim que entrou, começou a espirrar.

Clary se sentou ereta.

— Pelo Anjo... — O epíteto Nephilim agora vinha sem pensar, quando outrora parecia uma frase estranha. — Vamos.

Tulipas — disse Isabelle com a voz engasgada enquanto Clary a levava para o corredor.

— Eu sei — retrucou Clary, abanando a amiga e pensando se um símbolo de cura ajudaria com as alergias. Isabelle espirrou de novo, os olhos se enchendo de lágrimas. — Sinto tanto...

— Dão ézua gulba — disse Isabelle, o que Clary traduziu do alergiês como não é sua culpa.

— Mas é!

— Pffbt — disse Isabelle sem elegância, e acenou com a mão. — Dão zi breogubi. Já vai belhorar.

— Eu encomendei rosas — explicou Clary. — Juro que encomendei. Não sei o que aconteceu. Vou até a floricultura matá-los amanhã. Ou talvez Alec faça isso. Ele está com um instinto assassino hoje.

— Nada está arruinado — falou Isabelle, com a voz normal. — E ninguém precisa morrer. Clary, eu vou me casar! Com Simon! Estou feliz! — Ela se alegrou. — Eu achava que havia fraqueza em entregar seu coração a alguém. Achava que poderiam partir meu coração. Mas agora já sei. E é graças a Simon, mas também a você.

— Como assim, graças a mim?

Isabelle deu de ombros, timidamente.

— É que você ama muito. Com tanta vontade. Você oferece tanto. E isso sempre a deixou mais forte.

Clary percebeu que estava com os olhos lacrimejando.

— Sabe, casar com Simon significa que vamos ser irmãs, basicamente, certo? A pessoa que se casa com seu parabatai não é como se fosse sua irmã?

Isabelle a abraçou. Por um instante ficaram abraçadas no corredor escuro. Clary não pôde deixar de se lembrar dos primeiros gestos amistosos que ela e Isabelle realmente tiveram uma com a outra, agora há tanto tempo, ali nos corredores do Instituto. Não fiquei preocupada só com Alec. Mas com você também.

— Por falar em amor e em coisas relacionadas ao amor — disse Isabelle com um sorriso travesso, afastando-se de Clary —, que tal um casamento duplo? Você e Jace...

O coração de Clary parou. Ela nunca teve talento para esconder suas expressões ou sentimentos. Isabelle olhou para ela, confusa, prestes a perguntar alguma coisa — provavelmente se havia algo errado — quando a porta da sala de música reabriu, e luz e música transbordaram para o corredor. A mãe de Isabelle, Maryse, se inclinou para fora.

Ela estava sorrindo, claramente feliz. Clary ficou contente em ver isso. Maryse e Robert finalizaram o divórcio depois da Guerra Maligna. Robert se mudou para a Casa do Inquisidor em Idris. Maryse continuou em Nova York para dirigir o Instituto, mas ficou feliz em entregá-lo a Clary e Jace alguns anos depois. Continuou em Nova York, supostamente para ajudá-los caso não dessem conta, mas Clary desconfiou que era para ficar mais perto dos filhos — e do neto, Max. Havia mais branco em seu cabelo agora do que o que Clary se lembrava quando a conheceu, mas tinha a coluna ereta; a postura ainda era de Caçadores de Sombras.

— Isabelle! — chamou ela. — Estão todos esperando.

— Ótimo — disse Isabelle —, assim minha entrada será impactante! — E deu o braço para Clary, antes de seguir pelo corredor. As luzes brilhantes da sala de música de repente estavam diante delas, e a sala cheia de pessoas se virando, sorrindo para vê-la na entrada.

Clary procurou Jace, como sempre fazia: o rosto dele era sempre o primeiro que ela via quando entrava em algum lugar. Ele continuava tocando uma melodia leve, discreta, mas, quando ela entrou, ele deu uma piscadela.

O anel Herondale brilhou com a iluminação de dezenas de globos de luz em forma de estrela, que pairavam pelo recinto: sem dúvida, obra de Magnus. Clary pensou em Tessa, que tinha lhe dado aquele anel para entregar a Jace, e desejou que ela estivesse ali. Ela sempre adorou ver Jace tocando piano.

Vibrações eclodiram quando Isabelle entrou. Ela olhou em volta, sorrindo, claramente confortável. Soprou um beijo para Magnus e Alec, onde estavam sentados com Max e Rafe, que assistia, confuso. Maia e Morcego assobiaram, Lily ergueu o corpo, Luke e Rebecca sorriram, e Maryse e Robert observaram orgulhosos enquanto Isabelle avançava e pegava a mão de Simon.

O rosto de Simon ardeu de felicidade. Na parede atrás dele, a apresentação de slides que Rebecca havia mencionado continuava. Uma citação piscava na parede: Casamento é como uma longa conversa que termina cedo demais.

Eca! pensou Clary. Mórbido. Ela observou Magnus colocar a mão sobre a de Alec, que assistia à apresentação com Rafael no colo. Fotos de Simon – e bem menos fotos de Isabelle; Caçadores de Sombras não davam muita importância a fotos – piscavam, aparecendo e desaparecendo na parede branca atrás da harpa.

Lá estavam Simon, bebê, nos braços da mãe – Clary desejou que ela estivesse aqui, mas o conhecimento de Elaine sobre os Caçadores de Sombras era nulo. Até onde sabia, Isabelle era jma boa menina que trabalhava em um estúdio de tatuagem. E Simon, aos 6 anos, sorrindo com dois dentes faltando. Simon, adolescente, com seu violão. Simon e Clary, aos 10 anos, no parque, sob uma cachoeira de folhas cadentes de outono.

Simon olhou para a foto e sorriu para Clary, os olhos formando ruguinhas nos cantos; Clary tocou o antebraço direito, onde estava sua marca parabatai. Torceu para que ele conseguisse enxergar nos olhos dela tudo que ela estava sentindo: que ele era sua âncora, a base da sua infância e o farol de sua vida adulta.

Através de um borrão de lágrimas, ela percebeu que a música tinha cessado. Jace estava do outro lado da sala, sussurrando para Alec, a cabeça clara e a escura próximas. A mão de Alec tocava o ombro de Jace, e ele fazia um sinal alternativo de cabeça.

Há muito tempo ela olhava para Jace e Alec, e via melhores amigos. Ela sabia o quanto Jace amava Alec, desde a primeira vez que viu Alec ferido, e Jace – cujo autocontrole era quase assustador – desmoronava. Ela via como ele encarava qualquer um que dissesse alguma coisa ruim sobre Alec; os olhos cerrados, mortalmente dourados. E ela achava que entendia, pensava melhores amigos, como ela e Simon eram.

Agora que Simon se tornara seu parabatai, ela entendia muito mais. A forma como você ficava mais forte quando seu parabatai estava presente. A forma como eram um espelho que mostrava sua melhor forma. Ela não conseguia imaginar perder ser parabatai, não podia imaginar o inferno que seria.

Mantenha-o seguro, Isabelle Lightwood, ela pensou, olhando para Isabelle e Simon, de mãos dadas. Por favor, mantenha-o seguro.

— Clary. — Estava tão perdida em pensamentos que não viu Jace se afastar de Alec e se aproximar. Ele estava atrás dela agora; conseguia sentir o cheiro da colônia com a qual o presenteara no Natal, o cheiro fraco do sabão e do xampu dele, sentiu a suavidade do blazer quando tocou o braço no dela. — Vamos...

— Não podemos escapar, a festa é nossa...

— Só um segundo — disse ele, com aquela voz baixa que fazia com que suas más ideias parecessem boas. Ela o sentiu dar um passo para trás e seguiu; estavam perto da porta da sala de estratégia, e entraram sem que ninguém notasse.

Bem, quase sem que ninguém notasse. Alec os observava e, quando Jace fechou — e trancou — a porta, ele lançou a Jace um gesto positivo com os polegares. O que deixou Clary bastante confusa, mas ela não pensou muito a respeito, basicamente porque Jace atravessou a sala com um olhar determinado, a pegou nos braços e a beijou.

Seu corpo todo cantou, como sempre fazia quando se beijavam. Ela jamais ficava entediada, cansada ou acostumada, não mais do que se imaginava cansando de belos sóis poentes, de músicas perfeitas ou de seu livro preferido.

Clary também não achava que Jace tinha se cansado dela. Pelo menos, não pelo jeito como a segurava, como se cada vez fosse a última. Normalmente era assim com ele. Clary sabia que ele tivera uma infância que o deixou inseguro em relação ao amor, e, de certa forma, frágil como vidro, e ela tentava levar isso em conta. Estava preocupada com a festa e os convidados lá fora, mas se sentiu relaxando no beijo, apoiando a mão na bochecha dele até se afastarem para respirar.

— Uau — disse ela, passando o dedo na clavícula dele. — Acho que toso esse romance e pétalas de flores caindo do céu tiveram um efeito e tanto em você, não?

— Shh. — Ele sorriu. Seus cabelos louros estavam bagunçados, os olhos, sonolentos. — Deixe-me viver o momento.

— Que momento é esse? — Ela olhou em volta, entretida. A sala estava pouco iluminada, quase toda a luz estava vinha das janelas e da luminosidade embaixo da porta. Dava para ver os formatos de instrumentos musicais, fantasmas pálidos cobertos por lençóis brancos. Um piano meia cauda se encontrava contra a parede atrás deles. — O momento de nos escondermos no armário enquanto a festa de noivado dos nossos amigos acontece?

Jace não respondeu. Em vez disso, ele a pegou pela cintura e a levantou, sentando-a sobre a tampa fechada do piano. Os rostos deles estavam na mesma altura; Clary olhou, surpresa. Ele exibia uma expressão séria. Então se inclinou para beijá-la, com as mãos em sua cintura, os dedos agarrando o tecido do vestido.

— Jace — sussurrou ela. Seu coração estava acelerado. O corpo dele se inclinou, pressionando as costas de Clary contra o piano. Os sons de risos e música do lado de fora estavam ficando confusos; ela conseguia ouvir a respiração rápida de Jace e se lembrou do menino que ele foi um dia, na grama com ela, diante da Mansão Wayland em Idris, quando eles se beijaram e se beijaram, e ela percebeu que o amor pode cortar como uma lâmina afiada.

Dava para sentir a pulsação dele. A mão de Jace deslizou para cima, acariciou a alça do seu vestido. Os olhos semicerrados brilhavam no escuro.

— Verde para colar nossos corações partidos — citou ele. Era parte de uma rima infantil Nephilim, uma que Clary conhecia bem. Os cílios dele tocaram a face de Clary, a voz quente em seu ouvido. — Você colou meu coração — sussurrou. — Juntou os cacos de um menino quebrado e irritadiço, e o transformou em um homem feliz, Clary.

— Não — disse ela, com a voz trêmula. — Você fez isso. Eu só... incentivei da arquibancada.

— Eu não estaria aqui sem você — confessou ele; as palavras suaves como música em seus lábios. — Não só você... Alec, Isabelle, até Simon... Mas você é o meu coração.

— E você é o meu — retrucou ela. — Sabe disso.

Ele ergueu os olhos para os dela. Os dele eram dourados, firmes e lindos. Ela o amava tanto que suas costelas doíam quando respirava.

— Então aceita? — perguntou ele.

— Aceito o quê?

— Se casar comigo — falou ele.

O chão pareceu desabar sob seus pés. Ela hesitou, só por um segundo, mas pareceu uma eternidade, ela podia jurar que um punho espremia seu coração. E viu o princípio da confusão no rosto dele, então veio uma explosão e a porta explodiu em uma chuva de farpas.

Magnus entrou, parecendo perturbado, seus cabelos negros arrepiados, e as roupas, amarrotadas.

Jace se inclinou para longe de Clary, mas só um pouco. Estava com os olhos cerrados.

— Eu perguntaria "não bate não?", mas é evidente que não faz isso — censurou ele. — Mas estamos ocupados.

Magnus acenou, descartando o que Jace dissera.

— Já flagrei seus ancestrais fazendo coisa pior — disse ele. — Além do mais, é uma emergência.

— Magnus — disse Clary. — É bom que não seja sobre as flores. Ou o bolo.

Magnus desdenhou.

— Eu falei uma emergência. Isso é uma festa de noivado e não a Batalha da Normandia.

— A batalha de quê? — perguntou Jace, que não era muito bom em história mundana.

— O alarme ligado ao mapa disparou — disse Magnus. — O que marca a magia necromante. Houve uma explosão agora em Los Angeles.

Magnus lhe lançou um olhar atravessado.

— O mapa não é tão exato, mas a explosão foi perto do Instituto.

Clary se endireitou, alarmada.

Emma — disse ela. E Julian. As crianças...

— Lembra que — disse Magnus. — na última vez em que aconteceu, não foi nada. Mas há algumas coisas que me preocupam. — Ele hesitou. — Existe uma convergência de Linhas Ley não muito longe de lá. Eu chequei e parece que algo aconteceu ali. A área está devastada.

— Você tentou Malcolm Fade? — perguntou Jace.

— Sem resposta. — Magnus meneou a cabeça.

Clary desceu do piano.

— Você contou para alguém? — perguntou ela. — Além da gente, quero dizer.

— Não quis arruinar a festa por um alarme falso — disse Magnus. — Então só contei...

Um Caçador de Sombras alto apareceu na entrada. Robert Lightwood, com uma bolsa no ombro: Clary viu os cabos de várias lâminas serafim no alto. Ele parou ao ver as roupas amarrotadas e as faces ruborizadas de Clary e Jace.

— A ele — emendou Magnus.

— Com licença — falou.

Jace parecia desconfortável. Robert também. Magnus estava impaciente. Clary sabia que ele não morria de amores por Robert, apesar de as relações terem melhorado depois que ele e Alec adotaram Max. Robert era um bom avô do jeito que nunca foi um bom pai: disposto a sentar no chão e rolar com Max, e agora com Rafe também.

— Será que podemos parar de ficar sem jeito com a vida sexual de Clary e Jace e ir? — perguntou Magnus.

— Isso depende de você — disse Clary. — Eu não posso fazer o Portal; não vi o mapa. É você que sabe para onde vamos.

— Detesto quando tem razão, docinho — disse Magnus em tom resignado, e espalhou os dedos. Faíscas azuis iluminaram o recinto como vaga-lumes, um efeito estranhamente lindo que se abriu em um grande retângulo, um Portal brilhante através do qual Clary podia ver falésias, o brilho da lua na água e o movimento do mar.

Sentiu cheiro de água do mar e sálvia. Jace foi para perto dela, dando as mãos para Clary. Ela sentiu a leve pressão de seus dedos.

Casa comigo, Clary.

Quando voltassem, ela teria de responder. Estava morrendo de medo. Mas, por enquanto, eram Caçadores de Sombras acima de tudo. Com a coluna reta, a cabeça erguida, Clary atravessou o Portal.

Cena não-editada da praia

fonte: Idris BR; Cassandra Clare no Tumblr
CJ Emma & Jules 08, LM

Emma rolou sobre suas costas e encarou Julian acima e o céu atrás dele. Ela podia ver milhões de estrelas. Ele sentia calafrios, sua camiseta preta e seu jeans colados contra o corpo, seu rosto mais branco que a lua.

— Emma? — ele sussurrou.

— Eu tive que tentar.

— Você não tinha que tentar sozinha! — Sua voz parecia ecoar fora da água. Seus punhos estavam fechados do seu lado. — Qual é o ponto em sermos parabatai se você sai e se arrisca sem mim?

— Eu não quis colocar você em perigo.

— Eu quase me afoguei dentro do Instituto! Eu tossi água! Água que você respirou!

Emma olhou para ele em choque. Ela começou a se ajeitar e se apoiar em seus ombros. Seu cabelo, denso e molhado, descia por suas costas como um peso. — Eu não sabia.

— Como você não sabia? — Sua voz parecia explodir para fora de seu corpo. — Nós estamos conectados, Emma, conectados – Eu respiro quando você respira, eu sangro quando você sangra, eu sou seu e você é minha, você sempre foi minha, e eu sempre, sempre, pertenci a você! — Ela nunca havia ouvido ele falar algo como aquilo, nunca ouvira ele falar desse jeito, nunca vira ele tão perto de perder o controle.

— Eu não quis te machucar — Ela disse. Ela começou a sentar, buscado por ele. Ele pegou o pulso dela.

— Você está brincando? — Mesmo na escuridão, seus olhos azuis-esverdeado tinham cor. — Isso é uma piada pra você, Emma? Você não entende? Eu não vivo se você morrer! — A voz dele desceu para um sussurro. — Eu nem iria querer, mesmo se eu pudesse.

— Eu também não iria querer viver sem você. — Os olhos dela buscaram o rosto dele. — Jules, me desculpe, Jules.

O rosto dele se contorceu. A parede que normalmente escondia a verdade fundo em seu olhar havia desmoronado; ela podia ver o panico faminto ali, o desespero, o alívio que havia se forçado através das defesas dele.

Ele ainda segurava firmemente o pulso dela. Ela não soube se ela se inclinou até ele primeiro, ou se ele a puxou pra si. Talvez os dois. Eles se chocaram, forte, como duas estrelas colidindo e então ele a beijou.

Jules. Beijando ela. O choque foi tudo que ela sentiu a princípio, sua boca fria contra a dela, e então ela saboreou ele, sob a água salgada, sabor de açúcar e cravo, e foi como se alguém tivesse apertado um interruptor dentro dela e todas as luzes se acenderam.

— Emma. — Ele murmurou contra seus lábios, sem afastar sua boca da dela. Eles estavam apertados juntos, molhados e frios e quentes e queimando tudo ao mesmo tempo. Ele se inclinou para ela, beijando forte, febrilmente, as mãos dele se enterrando na massa de cabelos molhados dela. O peso dele a deitou na areia.

Ela se agarrou aos ombros dele, pensou no momento desorientada quando ele a puxou da água, o momento em que ela não sabia direito quem ele era. Ele era maior e mais forte do que ela se lembrava, mais do que ela havia se deixado notar, embora o beijo queimasse essas memórias do garoto que ele fora.

Isso não era como algo que já tivesse acontecido a ela. Seus lábios partiram e sua cabeça foi para trás. Julian escorregou uma mão sob sua cabeça, seus dedos brincavam na nuca dela, embalando ela enquanto sua lingua acariciava o interior da boca dela como um arco num violino, torcendo faíscas dolorosas de seus nervos.

Então era assim que isso devia ser, como beijar deveria ser, como tudo isso deveria ser. Isso.

Seu corpo todo estava tremendo. Ela pertava ele, seus ombros suas laterais, os dedos dela afundavam na pele dele, trazendo-o para mais perto dela. Ele arquejou em sua boca quando ela se esticou para segurar a bainha da camiseta molhada e encharcada dele e a trouxe a cabeça dele. Os olhos dele eram felinos, queimando na escuridão, quentes de desejo. — Emma, Deus. — Ele disse em uma voz abafada, e então ele estava recolhendo ela sob ele novamente, pressionando-a contra seu corpo como se pudessem se apertar um no outro, fundindo-se em uma pessoa.

A mãos dele arranharam até as costas da camiseta dela, e ela puxou para trás o suficiente para deixá-lo ajudá-la a escorregar para fora. E então estavam se beijando novamente, mais fortemente agora que poadiam sentir a pele nua um do outro. Ela não conseguia parar de tocá-lo, suas mãos dançando costas abaixo e por seu peitoral, sentindo os altos e baixos dos músculos e os ossos da espinha dele.

E ele estava tocando ela também. Ela olhou para baixo em descrença do que estava acontecendo, que esse era Julian tocando-a, o Julian dela. Os longos dedos dele acariciando a curva de seus seios, afangando suas costas, desastrado contra o fecho do sutiã até que finalmente ele se abriu e escorregou dos ombros dela. Ela encolheu os ombros até que caísse no chão.

O Suitã caiu na areia molhada e eles se olharam. As pupilas dele se dilataram, escurendo seus olhos para a cor do oceano durante a noite. Os olhos dele pareciam devorá-la, e ela por sua vez olhava para ele: Ele era maravilhoso sob a luz da lua, livre e claro e musculoso, e quando isso havia acontecido?

— Você é tão linda, — ele disse. — Tão linda, Emma.

Ela abriu os braços, e ele foi de encontro a ela. Seus seios se apertaram contra o tórax dele conforme ele a segurava, as mãos dele acariciavam para cima e para baixo as costas dela. Lentamente, ele a abaixou para a areia – ele se esticou e agarrou sua camiseta, sem tirar sua boca da dela, e a esticou debaixo, repousando a cabeça dela. Ela emitiu um som macio – algo sobre a ternura do gesto, uma clara e doce chama de gentileza cortando por entre a força vertiginosa do desejo dos dois, a fez querer chorar.

— Jules — ela sussurrou. De alguma forma ela havia chutado seu jeans molhado para fora sem tê-lo soltado, e a areia ralou levemente suas pernas nuas. Ela separou os joelhos, fazendo de seu corpo um berço para ele se apoiar contra. Ele beijou seu caminho abaixo pelo pescoço, seu hálito quente na pele dela. Amarrando suas mãos nos cachos molhados dele, ela encarou em êxtase o céu estrelado sobre eles, rodando com as estrelas, brilhantes e frias, e pensar que isso não poderia estar acontecendo, pessoas não conseguiam as coisas que queriam dessa forma.

Ele alcançou para se desprender de seu próprio jeans e ela o ajudou o quanto pode. Areia arranhou seus ombros quando ela se moveu. Com qualquer outro ela poderia ter se incomodado com isso, mas não havia espaço na cabeça dela para mais nada além de Julian. Ela o encarou: Ele estava apoiado em um braço, seu cabelo ensopado grudado na testa em ondas escuras. Luz da lua brilhava entre seus cílios, cada um tão longo e escuro quanto o percorrer de um traço de caneta. Cicatrizes pálidas e brancas formavam estrelas em seus ombros nús. Ele era mais belo que a imensidão do céu.

Ele jogou o jeans para longe e subiu de volta para o corpo dela, escorregando suas mãos sobre ela para pôr as mãos em concha em volta de suas omoplatas. Ele beijou sua clavícula e o meio de seus seios. Ela arqueou o quadril. Ele estava duramente contra sua coxa, e quando seus corpos se encaixaram ele soltou um som, um gemido, como se algo dentro dele houvesse quebrado.

— Você quer parar? — Ela congelou

— Nunca, nunca. — Os olhos dele estavam entreabertos. — Você... isso é...?”

— Sim — ela sussurrou. — Sim.

Os cílios dele tremeram contra suas bochechas. — Eu não posso, — Ele disse, baixo, sincero. — E não consigo. — E a boca dele encontrou a dela, desajeitado, inexperiente. Ela beijou o folego para fora dele, para fora dos dois, até que ele estivesse se movendo contra ela, sem descanso e incontrolado. O resto das roupas foram descartas. A pele dele era quente contra a dela, como se estivesse febril. Ela ouviu ele sussurrar seu nome.

Haviam apenas moléculas de ar entre os dois, e então Emma se moveu para prender as pernas ao redor da cintura dele. Julian arquejou e seu corpo se moveu instintivamente e então não havia nada entre os dois pois ele estava dentro dela.

Eles congelaram, olhando um ao outro, sem se mover. Os dentes de Julian estavam enterrados em seu lábio inferior. Seu rosto estava corado, seus olhos brilhantes. Ele parecia chocado e maravilhado, e sobrecarregado e desesperado.

— Emma, Deus, Emma, eu... — Ele engasgou, e então suas palavras se tornaram sons inarticulados conforme seu corpo se movia contra o dela.

Emma se segurou nos ombros dele, apertado, e seu corpo estava se movendo também, ela não poderia parar, mas ela também estava olhando, e ela nunca havia feito isso de olhos abertos antes. Ela havia sempre fechado os olhos, mas isso estava diferente, esse era Julian. Não Jules, não seu doce garoto Jules, esse era outro alguém, alguém que fazia sons ásperos de êxtase e enterrava sua cabeça nos cabelos dela e segurava seu corpo forte o suficiente para deixar marcas. Ela esperava que durassem por dias. Pois ela estava tentando decorar ele, decorar o jeito que ele estava em cima dela, com estrelas em sua silhueta, cabelo na testa e olhos semicerrados, as linhas de preocupação que estavam sempre próximas de sua boca amaciadas por prazer, mas ela não conseguia.

Ela não conseguia segurar nada disso em sua mente. A concentração dela estava despedaçada, ela não conseguia se segurar nisso, pensamentos disparavam em sua cabeça como gotículas do oceano se dissolvendo no ar. Relâmpagos subiam e desciam suas veias e ela estava agarrada às costas de Julian, arquejando, tentando conseguir ar o bastante, tentando colocá-lo perto e mais perto e então o mundo explodia em brilhantes fragmentos, um caleidoscópio quebrado, e ela finalmente, finalmente, fechou seu olhos e deixou cores que ela nunca antes havia visto colorirem o interior de suas pálpebras. Como se fosse longe, ela escutou Julian bradar, sentiu ele cair sobre ela, beijar seu ombro e encaixar o rosto em seu pescoço.

O coração dele ainda estava disparado, martelando contra o dela. Ela o amava tanto, que parecia que seu peito estava aberto.

Ela quis lhe dizer isso, mas as palavras se prenderam em sua garganta. — Você é pesado — ela sussurrou então, no cabelo dele.

Ele riu e rolou para o lado, puxou-a com força contra ele. Ela relaxou na curva quente do seu corpo. Ele estendeu a mão, pegou sua camisa de flanela e a abriu sobre eles. Não era muito, mas Emma se aconchegou sob ela, rindo , e ele beijou seu rosto, quase bêbado, salpicando beijos em todo o rosto, a ponte de seu nariz, o queixo.

Ela deitou a cabeça contra o braço dele. Ela nunca se sentiu tão feliz. Ele tinha parado de beijar seu rosto e estava olhando para ela, a cabeça apoiada em uma das mãos. Ele parecia atordoado, os olhos azul-esverdeados semicerrados. Seus dedos traçaram círculos lentos em seu ombro nu.

Ela pensou, eu te amo, Julian Blackthorn. Eu te amo mais do que a luz das estrelas.

O ar estava frio, mas ela estava quente aqui, neste pequeno círculo com Julian, escondido pelos afloramentos de rocha, envoltos na camisa de flanela que cheirava a ele. Sua mão era suave em seu cabelo. — Shh. Vai dormir.

Ela fechou os olhos.

Referências

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