FANDOM


Nesta página haverá uma compilação dos extras, cenas cortadas, contos e outros bônus ou conteúdo especial dentro da série, lançados juntamente com As Peças Infernais ou pela própria Cassandra Clare.

Anjo Mecânico

Na Ponte

fonte: Site da Cassandra Clare; Idris Brasil
Na Ponte: Will e Jem antes de Anjo Mecânico.

Já havia passado da meia-noite, e Londres estava tão quieta como sempre esteve: o som das carruagens nunca parava completamente, nem os choros e gritos dos moradores da cidade, nem as conversas animadas dos mendigos ao lado do rio, que remexiam entre os detritos jogados à margem pelo Tâmisa em busca de algo de valor. Will Herondale e James Carstairs se sentaram à beira do Victoria Embankment, as pernas deles balançando. De seu lado esquerdo, eles podiam ver a agulha de Cleópatra (obelisco em Londres), furando o céu; do lado direito, a ponte Hungerford.

Will bocejou e espreguiçou os braços. Uma espada pequena, desembainhada, brilhava em seu colo. "Você sabe, James, comecei a acreditar que esse demônio Leviatã não existe. Ou, se existe, já está há muito afundado no oceano."

"Bem, não será a primeira vez que ficamos sentados esperando a noite inteira por nada, nem vai ser a última, eu aposto," disse Jem, concordando. Sua bengala com cabeça de dragão estava equilibrada em seus ombros, seus braços apoiados nas extremidades dela. O cabelo cintilante dele brilhava conforme a lua aparecia e desaparecia por trás das nuvens. "Você ainda está insistindo naquela investigação? As garotas mortas no East End?"

"Me levou a lugares bastante interessantes," disse Will. "Eu ganhei 60 libras do Ragnor Fell na banca na noite passada. Quando você se juntar a mim de novo..." "Eu não gosto muito desses clubes. Mundanos inebriados, envolvidos em jogos nos quais eles não têm a menor chance de ganhar, zombando e drogando até mesmo criaturas do submundo, tudo isso deixa um gosto amargo em minha boca. E você sabe o que Charlotte diria se visse você apostando." "Charlotte se preocupa demais. Ela não é..." Will interrompeu a frase, e olhou para cima, vendo as estrelas, ou o que podia ser visto em meio à fumaça e às nuvens. Elas iluminaram os olhos dele, então o azul deles poderia ser visto mesmo na escuridão, amenizada apenas pelas lâmpadas em forma de golfinhos tradicionais de Embankment.

Minha mãe, Jem sabia que ele estava prestes a dizer. Era o jeito de Will, interromper-se cuidadosamente antes de revelar demais sobre si mesmo.

"Você disse que seu pai costumava apostar," disse ele, com uma casualidade deliberada, batendo os dedos no topo de sua bengala.

Por um momento, Will parecia estar tão distante quanto as estrelas que ele admirava. "Só uma batida de cartas casual. Minha mãe desencorajava qualquer coisa a mais. Ela não gostava de apostas. E ele nunca foi um desses homens doidos que costumavam apostar em tudo – a que horas o sol se poria naquele dia, ou se o velho Henderson conseguiria escalar o Minith Mawr bêbado, por exemplo." Jem desconhecia o que era Minith Mawr, e não perguntou. Em vez disso, ele disse, "Seu pai deve ter amado muito a sua mãe, para desistir de ser um Caçador de Sombras por ela." Will estremeceu, quase imperceptivelmente, mas seu tom de voz estava surpreendentemente calmo quando ele falou. "Ele amou. Eu perguntei a ele uma vez se ele havia se arrependido alguma vez, mas ele disse que nunca. Ele disse que há vários Caçadores de Sombras por aí, mas amor verdadeiro acontece apenas uma vez na vida se a pessoa tiver sorte, e essa pessoa seria muito tola de deixá-lo escapar."

"E você acredita nisso?" Jem falou com um tato enorme; falar com Will sobre qualquer coisa pessoal era como tentar não assustar um animal selvagem.

"Acho que sim," disse Will, depois de uma pausa. "Não que importe pra mim, mas..." ele encolheu os ombros. "Se o amor é verdadeiro, então vale a pena lutar por ele."

"E se for imoral, de alguma forma? Proibido?"

"Proibido? Mas o amor de meu pai pela minha mãe era proibido, ou pelo menos contra a lei. Ou você quer dizer se ela for casada, ou uma vampira?"

"Ou uma vampira casada."

"Bom, mesmo assim," disse Will, com um sorriso irônico. "A pessoa precisa continuar lutando por ele. O amor conquista tudo." "Avisarei os vampiros casados da região," disse Jem, de maneira seca. "E você, Carstais? Você ficou muito quieto quanto às suas opiniões."

Jem afastou seus braços da bengala e suspirou. "Você sabe que acredito que vamos nascer novamente," disse ele, muito quieto. "Acredito que se duas almas pertençam uma a outra, elas ficarão juntas na Roda e ficarão juntas na próxima vida depois dessa, não importa o que aconteça conosco agora." "Isso é um ensinamento oficial ou algo que você mesmo inventou?" Will perguntou. Jem riu. "Isso importa?"

Will olhou para ele, curioso. "Você acha que vai me ver de novo?" Com a mudança de expressão no rosto de Jem, Will acrescentou. "Quero dizer, há uma chance para mim? De ter uma vida depois dessa, uma vida melhor?"

Enquanto Jem abria a boca para responder, uma farfalhada passou por baixo dos pés deles. Quando os dois olharam para baixo, um tentáculo surgiu da superfície do rio, enroscou-se no tornozelo de Jem e puxou-o para baixo da superfície da água. Will se ergueu com a espada em punho; a água ainda fervia onde os tentáculos da criatura se debatiam com selvageria, o que indicava que Jem estava conseguindo dar uns bons golpes neles. O coração de Will bateu com força, bombeando o sangue e o chamado da batalha por suas veias.

"Inferno," disse ele. "Só porque estava ficando interessante," e ele saltou para dentro da água, em busca de seu amigo.

Burning Bright

fonte: Site da Cassandra Clare; Idris Brasil
Jem conhecendo Tessa sob o ponto de vista dele. Isso está disponível na edição especial do livro do Walmart.

O violino do pai de Jem havia sido feito pelo artesão Guarnerni, que fazia violinos para músicos tão famosos quanto Paganini. Jem pensava que na verdade seu pai poderia ter sido um Paganini, famoso no mundo inteiro, se não fosse Caçador de Sombras. Caçadores de Sombras podiam até se interessar por música, pintura ou poesia, principalmente depois de pararem de exercer seu trabalho, mas sempre seriam Caçadores de Sombras antes de tudo.

Jem sabia que não era tão talentoso com o violino como seu pai – que o havia ensinado a tocar quando ainda era pequeno o suficiente para ter dificuldade em equilibrar o pesado instrumento -, mas ele tocava-o por razões que iam muito além de meramente arte.

Essa noite, ele havia se sentido mal para acompanhar os outros no jantar – dor em seus ossos e uma preocupante sensação de cansaço no corpo – até que ele finalmente desistiu e tomou yin fen suficiente para acabar com a dor e dar um pouco de energia. Logo havia se irritado com a dependência e quando procurou Will, sempre o primeiro na linha de defesa contra o vício, seu parabatai – claro – não estava lá. Fora de novo, Jem pensou, caminhando pelas ruas como Diógenes, porém com um objetivo menos nobre.

Então Jem havia voltado para seu quarto e seu violino. Ele estava tocando Chopin agora, uma peça que era originalmente para o piano, mas cuja seu pai havia adaptado para o violino. A música começa com suavidade e ia aumentando para um crescendo, um que iria tirar dele cada grama de energia, suor e concentração, deixando-o tão cansado a ponto de não sentir o desejo pela droga que arrancava suas terminações nervosas como fogo.

Era uma das peças pela qual seu pai havia encantado sua mãe, antes de eles se casarem. O pai de Jem era o romântico e sua mãe a prática, mas a música mexia com ela de todo modo. Seu pai havia insistido que ele aprendesse – "Eu toquei para minha noiva, e um dia você tocará para a sua."

Mas eu nunca terei uma noiva. Ele não pensava nisso sentindo pena de si. Jem era como sua mãe: prático na maioria das coisas, até mesmo sua morte. Ele era capaz de manter uma distância do fato e examiná-lo. Cada uma das crianças do Instituto era peculiar, pensava ele: Jessamine com sua amargura e casa de boneca, Will com suas mentiras e segredos, e Jem – o fato de ele estar morrendo era apenas outro tipo de peculiaridade.

Ele parou por um momento, com falta de ar. Ele estava tocando ao lado da janela, onde era mais agradável: ele havia aberto de leve, e o amargo ar de Londres tocou quase fisicamente seu cabelo e sua bochecha, enquanto as cordas do violino em sua mão se estabilizavam. Ele estava de pé em uma parte iluminada pela luz da lua, prata como o pó yin fen...

Ele fechou os olhos com força e se jogou novamente na música, o arco furiosamente nas cordas como um grito. Às vezes o desejo pela droga era quase maior que sua força de vontade, maior que o desejo por comida, por água ou ar, por amor...

Eu toquei para a minha noiva, e um dia você tocará para a sua. Jem pensava nisso decididamente. Às vezes ele se perguntava como deveria ser olhar para as garotas como Will, com seus olhos azuis escuro analisando-as, oferecendo insultos e elogios alto o suficiente para fazê-lo ser estapeado em quase todas as festas de Natal. Ele queria uma companhia casual às vezes, quando uma garota bonita flertava com ele, ou quando ele se sentia particularmente solitário.

Mas Jem não pensava, não podia, pensar em garotas tão casualmente: ele supunha que um relacionamento podia ser possível, mas não era o que ele queria. Ele queria o que seu pai havia tido – o tipo de amor sobre o qual os poetas escreviam. O jeito com que seus pais se olhavam, a paz que os rodeava quando estavam juntos. Uma cópia de amor não o traria isso, e se desperdiçasse tempo assim, ele poderia perder a oportunidade para a coisa real – e ele não teria muitas.

Uma pontada percorreu seu corpo quando sua necessidade da droga aumentou, e ele aumentou a velocidade com que estava tocando. Ele tentou não olhar para a caixa em sua cabeceira. Era em horas como essa que ele se perguntava por que não pegava montes da droga de uma vez só. A maioria dos viciados em yin fen tomava-a incessantemente até morrerem pela sensação eufórica de se sentir indomável e nunca cansar-se, de ter a força e o poder de uma estrela. Era a euforia que acabava matando-os no final, queimando seus nervos, esmagando seus pulmões e exaurindo seus corações.

Às vezes Jem desejava arder. Às vezes ele não sabia porque lutava contra isso, porque dava valor a uma longa vida de sofrimento mais do que a uma vida mais curta sem dor. Então ele se lembrava que a ausência da dor seria apenas uma ilusão: como a casa de bonecas de Jessamine, as histórias de bordéis e palácios de gin de Will.

E se ele fosse realmente honesto, ele sabia que acabaria com suas chances de encontrar o amor que seus pais um dia tiveram. Por que isso era o que amor significava, não era? – ser o brilho que arde nos olhos de alguém?

Ele continuou a tocar. A música havia subido para um crescendo. Ele estava ofegando, suor brotando de seu corpo apesar do frio do ar noturno. Ele ouviu o som da porta do quarto se abrindo atrás dele e alívio se espalhou dentro dele, porém ele não parou de tocar. "Will," disse ele depois de um tempo. "Will, é você?"

Houve apenas silêncio, algo que não era característico de Will. Talvez Will estava irritado com alguma coisa. Jem abaixou o arco e se virou, franzindo a testa. "Will...", começou ele.

Mas não era Will. Uma garota estava em pé hesitantemente na porta de seu quarto. Uma garota com uma camisola e um robe em cima. Os olhos cinzas dela estavam pálidos à luz da lua, mas calmos, como se nada sobre sua aparência havia assustado-a. Ela é a feiticeira, ele percebeu de repente; aquela sobre a qual Will tinha contado a ele mais cedo, porém Will não havia mencionado a calma que emanava dela que fazia Jem se sentir relaxado apesar de seu desejo pela droga; ou o pequeno sorriso em seus lábios que iluminava seu rosto. Ela deveria estar lá há alguns momentos, ouvindo-o tocar: a evidência que ela tinha gostado estava em sua expressão e na inclinação sonhadora de sua cabeça.

"Você não é Will," disse ele, e imediatamente percebeu que era uma coisa realmente idiota para se dizer. Quando ela começou a sorrir, ele sentiu um sorriso de volta começando em seus lábios – por tanto tempo Will havia sido a pessoa que ele mais queria que o visse quando ele estava desse jeito e agora, pela primeira vez, ele se sentia satisfeito de não ver seu parabatai, mas outra pessoa.

Capítulo 2

fonte: Cenas deletadas de Anjo Mecânico no site
Uma conversa muito precoce entre Will e Tessa, em que a natureza de sua fuga era muito diferente, e em que a Casa Sombria era na verdade um bordel de trabalho de prostitutas mecânicas.

Will colocou Tessa dentro da carruagem, depois se abaixou atrás dela, gritando "Thomas! Vai! Vai!" para o motorista, que estalou as rédeas. A carruagem deu uma guinada para a frente quando Will fechou a porta, fazendo Tessa cair de novo.

"Fique firme", ele disse, e estendeu a mão para ela, mas Tessa já tinha se afastado, sentando-se no assento em frente a ele. Ela puxou a cortina para trás da janela e olhou para fora —havia a rua suja, os edifícios velhos que se aglomeravam em cada lado. Quando a carruagem avançou, passaram pelo beco que ela passara tantos dias olhando — estava lá, e depois se afastavam enquanto caminhavam em uma esquina, quase derrubando um vendedor empurrando um carrinho de burro empilhado com batatas novas. Tessa gritou.

Will chegou perto dela e puxou a cortina para fechar. "É melhor se você não olhar," ele disse a ela agradavelmente.

"Ele vai matar alguém. Ou nos matar."

"Não, ele não vai. Thomas é um excelente motorista."

Tessa olhou para ele. "Claramente, a palavra excelente significa algo diferente deste lado do Atlântico." A carruagem voltou a tremer, e Tessa agarrou o assento, apertando os olhos. Sua cabeça estava girando, e não apenas pelo movimento da carruagem: era a primeira vez que ela estava fora da Sala Vermelha há mais de um mês, e os sons da rua lá fora, até mesmo filtrados pelas janelas fechadas, pareciam ecoar dentro de sua cabeça como a batida de um tambor. Ela ouviu Will, distante, falando algo para o motorista; a carruagem abrandou, e o aperto de Tessa no assento relaxou ligeiramente, a tontura diminuindo. Ela abriu os olhos e viu Will olhando para ela com curiosidade. "Você disse a ele para onde estávamos indo?" Ela murmurou.

"Sim", disse ele, "embora eu não posso deixar de achar estranho que alguém como você tivesse um irmão com um endereço em Mayfair."

Tessa piscou para ele. "Alguém como eu?"

"Uma prostituta," disse Will.

A boca de Tessa se abriu. "Eu não sou uma...uma..."

"Uma prostituta?" Will disse novamente, erguendo as sobrancelhas.

Tessa fechou a boca com um estalo. "Que coisa horrível a dizer. Se essa é a sua ideia de uma forma de piada para me insultar..."

"Nunca faço piadas," disse Will, "ou, pelo menos, eu só brinco quando a ocasião realmente a justifica, o que esta não faz. Assumi que você era uma prostituta devido à sua presença no que só pode ser chamado de bordel."

Tessa olhou para ele.

"Você não pode esperar que eu acredite que você era inteiramente ignorante da função da Casa Sombria?" Will indagou. "Você deve ter visto o que estava acontecendo."

"Eu disse a você, eu nunca fui permitida a sair daquele quarto."

"Eu não sabia que isso significava que ninguém mais era permitido a entrar", disse Will.

"O quê... oh, ugh... Ugh... Há algo horrivelmente errado com você, não é? É como se você não pudesse parar de dizer coisas terríveis."

As sobrancelhas de Will subiram; apesar de sua raiva, confusão e horror, de alguma forma Tessa não conseguiu se impedir de perceber que elas fizeram meio-círculos escuros perfeitos acima de seus olhos. "Agora você parece Jem."

"Quem é Jem?"

"Não se preocupe com isso," disse Will. "Estou tentando descobrir como alguém poderia viver em um bordel por um mês e não perceber. Você deve estar terrivelmente aborrecida."

Tessa olhou furiosa.

"Se isso ajuda, parece ser um estabelecimento de alta classe. Bem mobiliado, relativamente impecáveis..."

"Parece que você visitou sua parte justa de bordéis," disse Tessa, amargamente. "Fazendo um estudo deles?"

"É meio que um hobby", disse Will, e sorriu como um anjo mau. Antes que Tessa pudesse dizer algo em troca, a carruagem parou.

"Parece que estamos aqui", anunciou Will, e Tessa se esticou por ele para puxar para trás a cortina através da janela; ela olhou para fora e viu que a carruagem tinha se estabelecido na frente de uma casa georgiana alta em uma bonita praça alinhada com árvores e outras casas semelhantes. Havia uma cerca cercada de ferro em volta da casa, o número 89 marcado proeminentemente em números de prata no portão.

Sobre Perda

fonte: Site da Cassandra Clare; Idris Brasil
Perspectiva de Will de seu beijo com Tessa em Anjo Mecânico, página 236 a 242 na edição brasileira.

Will Herondale estava queimando.

Essa não era a primeira vez que ele havia consumido sangue de vampiro, e ele sabia o padrão da dor. Primeiro havia uma vertigem e euforia, como se você tivesse bebido muito gin – o breve período de embriaguez antes de a sensação passar. E então vinha a dor, começando dos dedos dos pés, subindo como se linhas de pólvora tivessem sido postas sobre seu corpo e estivesse queimando até chegar a sua cabeça.

Ele ouvira que a dor não era tão intensa para humanos: que seu sangue, mais fino e mais fraco que o sangue de um Caçador de Sombras, não lutava pela doença demoníaca como o sangue Nephilim fazia. Ele estava vagamente consciente quando Sophie veio com a água benta, borrifando nele algo frio conforme deixava os baldes no chão e saía do quarto. O ódio de Sophie por ele era sólido como a neblina de Londres; ele podia sentir saindo dela quando ela se aproximava dele. A força disso o fez levantar e se apoiar pelos cotovelos. Ele puxou um balde para perto de si e o levantou em direção a sua cabeça, abrindo sua boca para engolir o que conseguisse.

Por um momento, ele sentiu como se fogo queimasse completamente suas veias. A dor cessou, exceto pela pulsação em sua cabeça. Ele se deitou cuidadosamente, curvando um braço sobre seu rosto para bloquear a iluminação fraca vindo das janelas baixas. Seus dedos pareciam deixar uma trilha de luz conforme se moviam. Ele ouviu a voz de Jem em sua cabeça, o repreendendo por arriscar sua vida. Mas o rosto que ele via contra suas pálpebras não era o de Jem.

Ela estava olhando para ele. A voz negra em sua consciência, o lembrete de que ele não poderia proteger ninguém, e que ficaria sozinho até o fim. Ela aparentava exatamente da maneira que ele a havia visto da última vez; ela nunca mudava, e assim ele sabia que ela era uma invenção de sua imaginação.

– Cecily – ele sussurrou – Cecy, pelo o amor de Deus, me deixe.

– Will? – Aquilo o surpreendeu; ela aparecia para ele frequentemente, mas raramente falava. Ela aproximou sua mão dele, ele teria se aproximado dela também, se não fosse o ruído de metal colidindo e o trazendo de volta de seu devaneio. Ele engoliu seco.

– De volta, é, Sophie? – Will disse. – Eu te disse que se você me trouxesse outro desses baldes infernais, eu...

– Não é a Sophie – veio a resposta. – Sou eu. Tessa.

O batimento de seu próprio pulso invadiu seu ouvido. A imagem de Cecily desvaneceu e se dissipou em suas pálpebras. Tessa. Porque eles a enviaram? Será que Charlotte o odiava tanto assim? Isso deveria ser algum objeto de lição para ela nas indignidades e perigos do Mundo das Sombras? Quando ele abriu seus olhos, ele a viu parada em sua frente, ainda em seu vestido de veludo e luvas. Seus cachos negros contrastavam com sua pele pálida, e sua bochecha estava salpicada, levemente, com sangue, provavelmente de Nathaniel.

Seu irmão, ele sabia que deveria dizer. Como ele está? Deve ter sido um choque tê-lo visto. Não há nada pior que ver alguém que você ama em perigo.

Mas fazia anos, e ele aprendera a engolir as palavras que ele queria dizer, transformando elas. De alguma forma eles estavam conversando sobre vampiros, sobre o vírus e como ele era transmitido. Ela deu o balde para ele com uma careta – ótimo, ela deveria ter raiva dele – e ele usou isso para extinguir a chama, para acalmar a queimação em suas veias e garganta e peito.

– Assim melhora? – ela perguntou, observando ele com seus olhos cinzas claros. – Derramando a água em sua cabeça desse jeito?

Will imaginou como ele deveria estar aparentando para ela, sentando no chão com um balde acima de sua cabeça, e fez um som com a garganta, quase uma risada. Oh, o glamour de ser um Caçador de Sombras! A vida de guerreiro que ele havia sonhado enquanto criança!

– As perguntas que você faz... – ele começou. Outra pessoa, outra pessoa que não fosse Tessa, talvez teria se desculpado por ter perguntando mas ela apenas permaneceu parada, o observando como um pássaro curioso. Ele não achava que ele já tivera visto alguém com olhos da cor dos dela antes: era da cor da névoa cinza pairando sobre o mar de Gales.

Você não poderia mentir para alguém que possuía olhos que o lembrava de sua infância.

– O sangue me faz ficar febril, faz minha pele queimar – ele admitiu. – Eu não consigo ficar mais fresco. Mas, sim, a água ajuda.

– Will... – Tessa disse. Quando ele olhou para cima de novo, ela parecia estar envolta em luz como um anjo, embora ele sabia que era o sangue de vampiro borrando sua visão. De repente ela estava se movendo em sua direção, pegando em sua saia para pode se sentar ao seu lado, no chão. Ele imaginou o porquê de ela estar fazendo isso, e percebeu, para seu próprio horror que ele havia pedido para ela fazer isso. Ele imaginou a doença de vampiro em seu corpo, subjugando seu próprio sangue, enfraquecendo sua força de vontade. Ele sabia, intelectualmente, que ele havia bebido água benta suficiente para matar a doença antes que ela pudesse se impregnar em seus ossos, e que ele não poderia deixar de lado seu autocontrole para a doença. E ainda – ela estava tão perto dele, perto o suficiente para ele poder sentir o calor irradiando de seu corpo.

– Você nunca ri – ela estava dizendo – Você se comporta como se tudo fosse engraçado para você, mas você nunca ri. Às vezes você sorri quando você acha que ninguém está prestando atenção.

Ele queria fechar seus olhos. As palavras dela passaram por ele como um corte limpo de uma lâmina serafim, queimando seus nervos como fogo. E ele não tinha ideia de como ela o observara tão atentamente, ou tão precisamente. – Você – ele respondeu – Você me faz rir. Desde o momento que você me acertou com aquela garrafa. Sem mencionar a maneira que você sempre me corrige. Com esse olhar engraçado em seu rosto quando você faz isso. E a maneira que você gritou com o Gabriel Lightwood. E até a maneira que você respondeu o de Quincey. Você me faz...

Sua voz sumiu. Ele podia sentir a água fria escorrendo por suas costas, por seu peito, contra sua pele aquecida. Tessa sentou a alguns centímetros dele, exalando um cheiro de pó e perfume e transpiração. Seus cachos úmidos enrolados contra suas bochechas, e os olhos dela estavam abertos para ele, seus lábios de um rosa pálido, levemente partidos. Ela levantou a mão para puxar uma mecha de seu cabelo, e, sentindo como se ele estivesse se afogando, ele foi em direção à sua mão. – Ainda há sangue, – ele disse, inarticuladamente. – Em suas luvas.

Ela começou a se esquivar, mas Will não a deixaria ir; ele estava se afogando, ainda, se afogando, e ele não conseguia soltá-la. Ele virou sua pequena mão para cima. Ele tivera o mais forte desejo de se aproximar dela completamente, de puxá-la contra ele e apertá-la em seus braços, de envolver seu corpo pequeno e forte com o dele. Ele curvou sua cabeça, grato de que ela não conseguia ver seu rosto conforme o sangue o corava completamente. Suas luvas estavam puídas, rasgadas onde ela havia pego nas algemas de seu irmão. Com um estalido de seus dedos, ele abriu os botões de pérola que mantinham a luva fechada, deixando seu pulso nu.

Ele conseguia ouvir a si mesmo respirando. Um calor se espalhou por seu corpo – não o calor não natural da doença vampírica, mas o mais comum rubor do desejo. A pele do pulso dela estava translucidamente pálida, as veias azuis visíveis por baixo. Ele podia ver a palpitação de seu pulso, sentir o calor de sua respiração contra sua própria bochecha. Ele acariciou a maciez de seu pulso com as pontas de seus dedos e fechou seus olhos pela metade, imaginando suas mãos no corpo dela, a pele macia de seu antebraço, suas pernas sedosas debaixo de suas saias volumosas. – Tessa – ele disse, como se ela tivesse a menor ideia do efeito que estava tendo sobre ele. Havia mulheres que talvez tivessem esse efeito, mas ela não era uma delas. – O que você quer de mim?

– Eu... Eu quero entender você – ela sussurrou.

O pensamento era assustador. – Isso é mesmo necessário?

– Eu não tenho certeza se alguém realmente te entende, – ela respirou – exceto, possivelmente, o Jem.

Jem. Jem havia desistido de entendê-lo há muito tempo, Will pensou. Jem era um estudo sobre como você poderia amar alguém completamente sem ao menos entendê-lo. Mas o resto das pessoas não eram o Jem.

– Mas talvez ele só quer saber que há uma razão – ela estava dizendo. Seu olhar era feroz. Nada a impedia de argumentar, ele pensou, ou de se importar. Nesse aspecto ela era como Jem: a perda não a fazia amargurada, e a traição não deixava sua fé de lado. Inconscientemente, ela se moveu para mover sua mão para trás, para fazer um gesto passional, e ele a segurou, retirando a luva de sua mão. Ela engasgou, como se ele tivesse colocado as mãos em seu corpo, o sangue subindo e ficando fixo em suas bochechas. Sua mão pequena e nua, que se contraía como uma pomba contra a sua, ficou rígida. Ele levantou a mão em direção à sua própria boca, sua bochecha, beijando sua pele: roçando seus lábios por suas articulações, até seu pulso. Ele a ouviu fazer um barulho baixo com sua voz, e levantou sua cabeça para vê-la sentada perfeitamente ereta, sua mão estendida, seus olhos fechados e seus lábios semi abertos.

Ele beijara garotas, outras garotas, quando o desejo básico de contato físico se tornou algo do senso comum, em esquinas escuras, em festas, ou embaixo de um visgo. Beijos rápidos, apressados, a maioria deles, embora alguns tiverem sido surpreendentemente elaborados – como Elspeth Mayburn havia aprendido a fazer aquilo com seus dentes, e o por que ninguém nunca contara a ela que essa não era uma boa ideia? – mas isso era diferente.

Antes houvera uma tensão controlada, uma decisão deliberada de ceder ao que seu corpo estava pedindo, separado de qualquer outro sentimento. Cortado de qualquer outra emoção. Mas isso... isso era um calor florescendo dentro de seu peito, deixando sua respiração mais curta, enviando uma onda de arrepios por sua pele. Esse era um sentimento de dor quando ela soltou sua própria mão, uma doença de perda curada apenas quando ele a puxou para perto de si através do chão de madeira rachada, suas mãos atrás de sua nuca conforme seus lábios iam em direção aos dela tanto com ternura como com ferocidade.

A boca dela se abriu sob a dele, hesitantemente, e algum canto de sua mente o alertou para desacelerar seu passo, que por algum palpite razoável esse era o primeiro beijo dela. Ele forçou suas mãos para desacelerar, para gentilmente tirar os grampos em seu cabelo e alisar os cachos que escorriam por seus ombros e costas, as pontas de seus dedos traçando uma linha pelas bochechas dela, por seus ombros nus. Seu cabelo parecia uma seda quente, passando por seus dedos, e o corpo dela pressionado contra o dele, era todo maciez. As mãos dela eram leves como plumas em sua nuca, em seu cabelo; quando ele a puxou para mais perto, ela fez um som baixo contra sua boca que quase dissipou os últimos pensamentos de sua cabeça. Ele começou a direcionar as costas dela para o chão, movendo seu corpo em cima do dela...

E então congelou. Pânico correu em seu sangue em uma corrente em ebulição conforme ele viu a estrutura completa e frágil que ele construíra em torno de si, se partir, tudo por causa disso, dessa garota, que quebrou seu controle como se nada nunca existira. Ele separou sua boca bruscamente da dela, empurrando ela para longe, a força de seu terror quase a derrubando. Ela olhou para ele através da cortina entrelaçada que era seu cabelo, seu rosto pálido em choque.

– Deus do Céu – ele sussurrou – O que foi isso?

A consternação dela era clara em seu rosto. Seu coração contraiu, lançando auto aversão em suas veias. Aquele momento, ele pensou. Aquele único momento...

– Tessa – ele disse. – Acho que você deve ir.

– Ir? – Os lábios dela se partiram; eles estavam inchados de seus beijos. Era como olhar para um ferimento que ele mesmo infligira, e no mesmo momento, ele queria nada mais além de beijá-la novamente. – Eu não deveria ter ido tão longe. Desculpe-me...

– Deus! – A palavra o surpreendeu; ele deixara de acreditar em Deus há um longo tempo atrás, e agora ele o havia invocado duas vezes. A dor no rosto dela era quase mais do que ele poderia aguentar, e não menos porque ele não havia tido a intenção de machucá-la. Tão frequentemente, ele tinha a intenção de machucar e ferir, e nesse momento ele não tivera – não a princípio – e ele causara mais ferimentos que ele poderia imaginar. Ele queria nada mais que se aproximar dela e pegá-la em seus braços, não para satisfazer seu desejo, mas para transmitir ternura. Mas fazer isso apenas faria a situação piorar além do imaginado. – Apenas me deixe sozinho agora – ele ouviu a si mesmo dizer. – Tessa. Estou lhe implorando. Você entende? Estou lhe implorando. Por favor, por favor me deixe.

A resposta dela veio, finalmente, rígida com mágoa e raiva. – Muito bem – ela disse, embora claramente não estivesse tudo bem. Ele deu um olhar rápido para ela pelo canto de seu olho: ela era orgulhosa, não choraria. Ela não se importou em pegar os grampos de cabelo que estavam jogados; ela apenas levantou e virou suas costas para ele.

Ele não merecia nada melhor, ele sabia. Ele jogara a si mesmo contra ela sem consideração por sua reputação ou de sua paixão indecorosa. Jem pensaria nisso. Jem teria sido mais cuidadoso com os sentimentos dela. E a partir de então, ele pensou, conforme os passos dela recuaram, ele também seria. Mas ele não sabia mais ser aquela pessoa. Ele cobrira aquele Will por tanto tempo com fingimento, que era pelo fingimento que ele procurava primeiro, não pela realidade. Ele cravou suas unhas no piso, agradecendo a dor, pois ela era pequena comparada à dor de saber que ele perdera mais do que a opinião de Tessa essa noite. Ele perdera Will Herondale. E ele não sabia se ele poderia alguma vez tê-lo de volta.

O Porquê de Will Odiar Patos

fonte: Site da Cassandra Clare; Idris Brasil
Ocorre no começo do Capítulo 9, "O Enclave"

Will bateu os sapatos impacientemente contra as pernas da mesa da biblioteca. Se Charlotte estivesse ali, diria a ele para parar de danificar os móveis, embora metade da mobília na biblioteca já apresentasse marcas de anos de abuso – lasquinhas nos pilares onde ele e Jem praticavam briga de espadas fora da sala de treino, marcas de sapatos nos assentos perto das janelas, onde ele havia ficado sentado por horas, lendo. Orelhas de livros dobradas, lombadas quebradas, marcas de dedos nas paredes. Claro que se Charlotte estivesse ali, eles também não estariam fazendo o que faziam, que era assistir a Tessa se transformar em Camille e depois nela mesma novamente. Jem estava sentado ao lado de Will na mesa da biblioteca, e de vez em quando, murmurava encorajamentos ou conselhos. Will, recostando-se nas mãos com uma maçã que tinha roubado da cozinha ao lado dele, fingia não estar prestando atenção. Mas ele estava. Tessa andava para lá e para cá no cômodo, com as mãos fechadas ao lado do corpo, que demonstrava sua concentração. Era fascinante observá-la se transformando: havia uma onda, como a formada pela água de uma lagoa quando alguém atira uma pedra, e o cabelo preto dela iria aos poucos se tornando loiro, seu corpo se curvando e se transformando de uma maneira que tornava impossível, para Will, desviar os olhos. Não era costumeiramente considerado educado encarar uma moça dessa maneira tão direta, mas mesmo assim, ele estava grato pela chance...

Ele estava, não estava? Ele piscou, como se quisesse clarear os pensamentos. Camille era linda – uma das mulheres mais bonitas que ele já havia visto. Mas a beleza dela o deixava frio. Era, como ele disse a Jem, como uma flor morta pressionada embaixo de vidro. Se seu coração estava disparado e seu olhar, hipnotizado, era pela própria Tessa. Ele disse a ele mesmo que isso era devido à fascinação por uma magia tão diferente, e não a adorável carranca que retorcia suas feições quando ela tinha dificuldade de imitar o jeito deslizante que Camille caminha – ou o jeito com que seu vestido se afastava da clavícula dela e caia por cima dos ombros quando ela voltava a ser ela mesma, ou a maneira com que seu cabelo preto, solto, espalhavam-se pelas bochechas dela e pelo pescoço dela enquanto ela balança a cabeça, frustrada – Ele pegou a maçã ao seu lado e começou a ostensivamente limpá-la na frente de sua camisa, esperando que isso disfarçasse suas mãos, subitamente trêmulas. Ter sentimentos por Tessa Gray não era aceitável. Ter sentimentos por qualquer pessoa era perigoso, mas sentimentos por uma garota que estava vivendo no Instituto – alguém que havia se tornado uma parte importante dos planos deles, alguém que ele não poderia evitar – eram especialmente perigosos.

Ele sabia o que precisava fazer nesse caso. Afastá-la, machucá-la, fazer com que ela o odiasse. E, mesmo assim, tudo dentro dele se rebelava contra essa ideia. Era porque ela estava sozinha, vulnerável, ele dizia para ele mesmo. Seria tão cruel fazer isso com ela...

Ela parou onde estava, jogando os braços para o alto e emitindo um ruído de frustração. "Eu simplesmente não consigo caminhar desse jeito!" exclamou ela. "O jeito com que Camille parece deslizar..."

"Você caminha com os pés muito para fora," disse Will, embora isso não fosse realmente verdade. Era o mais cruel que ele poderia ser, e Tessa o recompensou com um olhar duro de reprovação. "Camille caminha de uma maneira delicada. Como um fauno na floresta. Não como um pato." "Eu não caminho como um pato."

"Eu gosto de patos," disse Jem. "Especialmente os do parque Hyde." Ele sorriu de lado para Will, e Will sabia do que ele recordava: ele estava lembrando-se da mesma coisa. "Lembra quando você tentou me convencer a alimentar um pato com uma torta de frango no parque para ver se você conseguia criar uma raça de patos canibais?"

Ele sentiu Jem se balançar, rindo, ao lado dele. O que Jem não sabia é que os sentimentos de Will por patos – e sim, ele sabia que era ridículo ter sentimentos complicados acerca de aves aquáticas, mas não podia evitar – estavam misturados com memórias de sua infância. No País de Gales, houve um lago com patos em frente à sua casa de campo. Quando criança, Will frequentemente ia até lá, jogar pedaços de pão aos patos. Ele achava divertido observá-los grasnando e brigando pelos restos de sua torrada de café da manhã. Ou costumava achar, até que um dos patos – um pato particularmente grande – ao perceber que Will não tinha mais pão em seus bolsos, correu em direção ao garoto e mordeu-o com força no dedo.

Will tinha apenas seis anos, e fugiu rapidamente de volta à casa, onde Ella, já com oito anos e bastante superior a ele, riu absurdamente da história dele e depois fez um curativo no dedo dele. Will não teria mais pensado nesse assunto, se não fosse pela manhã seguinte quando, ao sair da casa pela porta da cozinha, ele se distraiu pela visão do mesmo pato preto, com seus olhos redondos fixados nele. Antes que Will pudesse se mover, o pato avançou nele e o mordeu com força na outra mão; e quando Will conseguiu gritar, o pato ofensivo já havia desaparecido em meio aos arbustos.

Dessa vez, enquanto Ella fazia o curativo no dedo de Will, ela disse, "O que você fez à pobre criatura, Will? Nunca ouvi falar de um pato vingativo antes." "Nada!" protestou Will, indignado. "Eu apenas não tinha mais pão, então ele me mordeu." Ella olhou para ele, a dúvida em seu olhar. Mas naquela noite, antes de Will ir dormir, ele afastou as cortinas de seu quarto para observar as estrelas – e viu, parado sem se mover nos jardins, a pequena figura de um pato, com os olhos grudados na janela do quarto dele.

O grito de Will trouxe Ella ao quarto, correndo. Juntos, eles observaram o pato pela janela, que parecia pronto para permanecer naquela posição a noite toda. Finalmente, Ella balançou a cabeça. "Eu vou lidar com isso," disse ela. Jogando suas tranças escuras para trás, ela seguiu em direção às escadas que levavam ao andar inferior.

Pela janela, Will a avistou saindo da casa. Ela marchou em direção ao pato e se inclinou em direção a ele. Por um momento, pareceu que eles estavam imersos em uma conversa. Depois de alguns minutos, ela se endireitou, e o pato deu meia volta, e com uma sacudida final das penas de seu rabo, caminhou para fora dos jardins. Ella se virou e voltou para dentro da casa.

Quando ela voltou ao quarto de Will, ele estava sentado na cama e olhando para ela com olhos enormes. "O que você fez?"

Ela sorriu presunçosamente. "Chegamos a um acordo, o pato e eu." "Que tipo de acordo?"

Ella se inclinou e, afastando as curvas grossas e escuras de seu cabelo do rosto dele, beijou a testa dele. "Nada com o que você precise se preocupar, querido. Vá dormir."

E Will o fez, e o pato nunca o incomodou novamente. Durante anos depois disso, ele perguntou a Ella o que ela havia feito para se livrar do maldito pato, e ela apenas ria em silêncio e não respondia. Quando ele fugiu de casa depois da morte dela, e estava à caminho de Londres, ele havia lembrado do beijo dela na testa dele – um gesto incomum para Ella, que não era tão afetuosa como Cecily, quem ele nunca conseguia realmente impedir de se agarrar às suas mangas – e essa lembrança havia sido como uma faca quente entrando nele; ele se encolheu com a dor e chorou.

Jogar tortas de frango aos patos no parque havia ajudado, de uma maneira estranha; ele havia pensado em Ella, primeiramente, mas a risada de Jem afastou um pouco da dor dessa lembrança, e ele pensava apenas em como sua irmã ficaria contente de vê-lo rindo naquele espaço verde, e como ele havia tido pessoas que o amaram na vida dele, e ainda tinha agora, mesmo que fosse apenas uma.

"E eles comeram," disse Will, mordendo um pedaço da maçã. Ele já havia praticado o suficiente para saber que nada do que ele estivera pensando havia transparecido em seu rosto. "Pequenas bestas sedentas de sangue. Nunca confie em um pato." Tessa olhou para ele de lado, e por um breve momento, Will teve uma sensação inquieta de que talvez ela tenha o visto melhor do que ele imaginava. Ela era Tessa agora; seus olhos eram cinzentos como o mar, e por uma longa pausa, tudo o que ele podia fazer era olhar para ela, todo o resto havia ficado esquecido – maçãs, vampiros, patos, e todo o resto no mundo que não fosse Tessa Grey.

"Patos," murmurou Jem, ao lado dele, baixo demais para que Tessa pudesse ouvir. "Você é louco, sabe disso, não sabe?" Will desviou o olhar dos olhos de Tessa. "Oh, eu sei."

Do Capítulo 14

Em construção

Do Capítulo 17

Em construção

Mapa de Londres

Um mapa de Londres, com certos lugares apresentados na série marcados e ilustrados no mapa. Foi lançado com as edições repaginadas de todos os volumes da série.
TID London map.jpg

Príncipe Mecânico

Uma Oferta de Luar

Em construção

Do Capítulo 17

Em construção

O Todo

Em construção

Carta de Will para sua família

fonte: Site da Cassandra Clare; Idris Brasil
Uma carta que Will escreveu para seu pais em seu aniversário de 17 anos, não enviada e inacabada. Todas as primeiras edições impressas de Príncipe Mecânico na América do Norte, Reino Unido/Irlanda, Australia/Nova Zelândia, assim como todas as edições brasileiras, contém essa carta belamente formatada de Will para sua família, que ele nunca enviou, em seu interior. Uma versão narrada por Ed Westwick por ser ouvida aqui.

Mãe, Pai:

Hoje é meu décimo sétimo aniversário. Sei que escrever para vocês é uma transgressão. Sei que provavelmente rasgarei esta carta em pedaços quando terminar, como fiz em todos os meus aniversários desde o de 12 anos. Mas escrevo mesmo assim, para comemorar a ocasião, da mesma forma que alguns fazem peregrinações anuais a um túmulo e recordam diante dele a morte de uma pessoa amada. Afinal, não estamos mortos um para o outro?

Fico imaginando se, quando acordaram hoje de manhã, se lembraram de que há 17 anos tiveram um filho. Fico imaginando se pensam em mim e imaginam minha vida aqui no Instituto em Londres. Duvido que possam imaginar. É tão diferente da nossa casa cercada por montanhas e pelo céu azul, enorme e claro, e pelo verde infinito, Aqui tudo é negro, cinza e marrom, e todo pôr do sol é tingido de fumaça e sangue.

Fico imaginando se vocês se preocupam com a possibilidade de eu ser solitário, ou, com a possibilidade de eu estar com frio, ou ter saído na chuva sem chapéu. Ninguém aqui se preocupa com esses detalhes. Existem tantas coisas que podem nos matar a qualquer instante que um pouco de frio não parece importante.

Fico imaginando se sabiam que eu podia escutá-los naquele dia que vieram me buscar quando eu tinha 12 anos. Arrastei-me para baixo da cama para não ouvir vocês gritando meu nome. Mas ouvi. Ouvi mamãe gritar pelo fach, seu pequenino. Mordi as mãos até sangrarem, mas não desci, e eventualmente Charlotte os convenceu a se retirarem. Pensei que talvez pudessem voltar, mas não voltaram. É a teimosia dos Herondale.

Lembrei-me dos grandes suspiros de alívio que vocês dois soltavam cada vez que o Conselho aparecia para perguntar se eu desejava abandonar minha família e me juntar aos Nephilim e eu recusava, mandando-os embora. Fico imaginando se sabiam que eu eratentado pela idéia de uma vida de glória, dedicada a lutar e matar em nome da proteção, como um homem deve fazer. Está no nosso sangue: o chamado para serafim e estela, para Marcas e monstros.

Fico imaginando por que deixou os Nephilim, pai, fico me perguntando por que mamãe escolheu não Ascender e se tornar Caçadora de Sombras. É porque os achava frios e cruéis? Eu não achei. Charlotte é especialmente gentil comigo, nem imagina como não mereço. Henry é doido de pedra, mas é um bom sujeito: teria feito Ella rir. Há poucas coisas boas a serem ditas sobre Jessamine, mas ela é inofensiva. Por outro lado, tenho muitas coisas boas a falar sobre Jem – ele é o irmão que papai sempre achou que eu devesse ter, sangue do meu sangue, apesar de não sermos parentes. Apesar de eu ter perdido tudo, pelo menos ganhei uma coisa com a amizade dele. E temos uma nova adição a nossa casa. O nome dela é Tessa. Um nome muito bonito, não? Quando as nuvens vêm do oceano cobrir as montanhas – o cinza delas é o mesmo de seus olhos.

E agora vou revelar uma terrível verdade, pois não pretendo mesmo enviar essa carta. Vim para o Instituto porque não tinha para onde ir. Nunca esperei que fosse ser minha casa, mas no meu tempo aqui, descobri que sou um verdadeiro Caçador de Sombras. De algum jeito, meu sangue me diz que nasci para fazer isso. Se ao menos eu tivesse sabido antes e ido com a Clave na primeira vez em que me chamaram, talvez pudesse ter salvado a vida de Ella. Talvez pudesse ter salvado a minha.

Seu filho,
Will

Carta, Will para Tessa

fonte: Post no Tumblr; Idris Brasil
Uma dedicatória de Will para Tessa em uma cópia de Um Conto de Duas Cidades. Disponível nas edições especiais de Príncipe Mecânico da Barnes and Noble e Indigo Chapter.

Tess, Tess, Tessa

Já houve um som mais lindo do que o seu nome? Falar em voz alta faz meu coração bater como um sino. Estranho imaginar, não é – um coração batendo – mas quando você me toca, é como é: como se meu coração está tocando no meu peito e o som trás arrepios em minhas veias e estilhaça meus ossos com alegria.

Por que eu escrevi estas palavras neste livro? Por causa de você. Você me ensinou a amar este livro que eu tinha desprezado. Quando o li pela segunda vez, com uma mente e coração abertos, eu senti o desespero mais completo e inveja de Sydney Carton. Sim, Sydney, pois mesmo que ele não tivesse esperança de que a mulher que ele amava o amaria, pelo menos ele poderia dizer-lhe seu amor. Pelo menos ele poderia fazer alguma coisa para provar sua paixão, mesmo que a coisa fosse morrer.

Eu teria escolhido a morte por uma chance de dizer a verdade, Tessa, se eu pudesse ter a garantia de que a morte seria a minha própria. E é por isso que eu invejava Sydney, pois ele era livre.

E agora que finalmente estou livre, e finalmente posso dizer, sem medo de machucar você, tudo o que eu sinto no meu coração.

Você não é o último sonho da minha alma.

Você é o primeiro sonho, o sonho que eu nunca fui capaz de parar de sonhar. Você é o primeiro sonho da minha alma, e desse sonho eu espero que venham todos os outros sonhos que valham uma vida inteira.

Com, finalmente, esperança, Will Herondale.

Princesa Mecânica

Árvore Genealógica

Esta árvore genealógica foi apresentada nas primeiras edições de Princesa Mecânica. Na edição brasileira, lançada pela Galera Record, a árvore consta em todas as edições.

Árvore Genealógica.jpg

Cassandra Clare declarou diversas vezes que essa árvore genealógica das famílias Carstairs, Herondale e Lightwood é meramente um objeto encontrado na série e é na verdade subjetiva e imcompleta, aparentemente contendo somente os personagens de As Peças Infernais e seus filhos, alguns dos quais estarão em As Últimas Horas, e seus principais descendentes levando até os personagens apresentados em Os Instrumentos Mortais.[1] A árvore genealógica também não incluiu vários parentes do sexo feminino (além das necessárias para a série de acompanhamento imediata) como a árvore focada nos homens que iriam levar o nome da família.[2] Parte dos registros dos Carstairs, ditos estarem ausentes ou perdidos, também foi destruída, possivelmente deliberadamente, por alguma razão.[3][4]

Também é bastante enganosa, uma vez que a árvore genealógica só contém informações consideradas verdadeiras por quem a escreveu. A desinformação pode incluir uma falsificação política, um casamento secreto, fingido, arranjado ou fixo (embora possa não ser isso)[5], adoções,[6] pessoas sendo secretamente mortas, pessoas sendo secretamente outras pessoas, mortes falsas ou pessoas escritas como mortas quando, de fato, só se transformaram ou se tornaram Seres do Submundo ou mundanos, entre outras naturezas de erros – intencionais ou não.[3][7][8][9][10][11][12][4][13] Os relacionamentos reais, a serem mais explorados em As Últimas Horas, podem mesmo ser muito diferentes dos mostrados na árvore.[14] As falácias e pretensões da árvore genealógica encontrada serão esclarecidas ou ferão sentido até o final de As Últimas Horas.[3]

Capítulo 22

fonte: Tumblr da Cassandra Clare; Idris Brasil
Uma cena reescrita de Princesa Mecânica. É a cena que começa por volta da página 468, com Will no quarto de Henry.

"A Tessa acordou!" anunciou Charlotte, feliz, abrindo a porta do quarto dela e de Henry, como um beija-flor excitado.

Will, que estava sentado na cadeira ao lado da cama de Henry, levantou imediatamente, o livro que estava lendo deslizando de seu colo. "Tess – a Tessa acordou?" gaguejou ele. "E ela está..."

"Sim, falando, e o Irmão Enoch disse que ela está bastante bem, apesar de exausta." "Eu desejo vê-la," disse Will, e começou a se mover em direção à porta, mas Charlotte ergueu uma das mãos.

"Dê um momento a ela, Will; a Sophie está com ela, ajudando-a a se vestir."

Will sabia o que "ajudando-a a se vestir" significava: se ele as interrompesse agora, Tessa estaria no banho. Uma onda de desejo, misturada com uma pontada de culpa, o acertou como um trem. Ele se sentou rapidamente, procurando o livro no chão.

Charlotte olhou na direção dele, com um sorriso se curvando no canto da boca. Claramente, ele estava fornecendo a ela um pouco de divertimento. "Você esteve lendo poesia a Henry?" perguntou ela.

"Sim, algo terrível, tudo cheio de poesia," disse Henry, rabugento. Ele estava completamente vestido, apoiado em seus travesseiros na cama com uma caneta em uma das mãos e papéis espelhados no acolchoado ao redor dele. Will não o culpava por sua rabugice. Tessa esteve adormecida e Henry, de cama, por três dias, quando os Irmãos do Silêncio reuniram os membros do Instituto ao redor da cama de Henry para contar a ele que embora ele fosse viver, ele não caminharia de novo. Mesmo com toda a magia que os Irmãos tinham a seu dispor, não havia mais o que pudessem fazer.

Henry encarou as novidades com a mesma força de espírito de sempre, e a decisão de construir uma cadeira para si mesmo, como uma cadeira para inválidos, só que melhor, com rodas auto-propulsoras e todo o tipo de apetrechos: ele estava determinado que ela seria capaz de subir e descer escadas, para que ele ainda pudesse chegar às suas invenções na cripta. Ele tinha estado rabiscando desenhos para a cadeira durante toda a hora em que Will esteve lendo Idylls of the King para ele, mas poesia nunca havia sido uma área que interessasse Henry.

"Bem, você está dispensado de seus deveres, Will, e Henry, você está livre de futuros poemas," disse Charlotte. "Se você quiser, querido, posso ajudá-lo a juntar suas anotações..."

Houve uma batida na porta, e Charlotte, franzindo o cenho, foi ver quem era. Um momento depois, ela retornou, um olhar sombrio em seu rosto. Ela lançou um olhar a Will, e no momento seguinte, ele descobriu o motivo: dois Irmãos do Silêncio estavam parados em frente a ela, e um deles era Jem.

Will sentiu seu peito apertar. Desde a batalha em Cader Idris, ele e Jem não haviam se falado.

Will tinha tido certeza que todos eles iriam morrer, juntos, lá, embaixo da montanha, até que Tessa usou o brilho da glória do Anjo e abateu Mortmain como um raio quando cai em uma árvore. Foi uma das coisas mais maravilhosas que Will já tinha visto, mas seu assombro foi rapidamente substituído por terror quando Tessa desmaiou depois da Transformação, sangrando e inconsciente, não importa o quanto eles tentassem acordá-la. Magnus, perto da exaustão, quase não conseguiu abrir um Portal para voltarem ao Instituto com a ajuda de Henry, e Will só se lembrava de borrões depois disso, uma névoa de exaustão e sangue e medo, mais Irmãos do Silêncio sendo chamados para assistir os feridos, e as informações vindas do Conselho de todos que haviam sido mortos naquele dia, antes dos autômatos que os atacaram terem parado de funcionar com a morte de Mortmain. E Tessa – que não falava, não acordava, quase não respirava. Tessa sendo carregada para o quarto dela e ele, que não podia ir com ela. Como não era nem irmão nem marido, ele podia apenas ficar parado e olhar para ela, abrindo e fechando as mãos, que estavam manchadas de sangue. Ele nunca havia se sentido tão desamparado.

E quando ele foi encontrar Jem, para dividir o medo com a única pessoa no mundo que amava Tessa tanto quanto ele – Jem havia ido embora, de volta à Cidade do Silêncio, sob ordens dos Irmãos. Tinha ido embora sem ao menos se despedir.

Embora Cecily tenha tentado acalmá-lo, Will estava com raiva – com raiva de Jem, e até mesmo, com o passar dos dias, com raiva de Charlotte, por permitir que Jem se tornasse um Irmão do Silêncio, embora ele soubesse que isso era injusto: havia sido escolha de Jem, e o único jeito de mantê-lo vivo. A preocupação insana que sentia por Tessa não ajudou em nada sua raiva: embora seus ferimentos físicos fossem pequenos, o choque no sistema dela por causa do que ela fez havia sido muito grande, bem como a dor que ela sentiu. Ele se sentou ao lado dela, indo e voltando, por dias, segurando a mão dela, implorando que ela acordasse e o visse, até que Charlotte teve que ergué-lo de onde ele havia pego no sono, com o corpo meio esparramado na cama dela.

Will encarou Jem agora, com força o suficiente para abrir um buraco na cabeça dele, mas embora o capuz de Jem estivesse abaixado, expondo seu rosto, ele desviava o olhar de Will, de maneira determinada. O cabelo dele havia começado a retornar a sua cor preta original: o preto estava misturado com o prata, mecha por mecha, e os cílios dele estavam pretos novamente, também, e roçando contra as runas na bochecha dele quando ele abaixava o olhar.

Eram runas que apenas os Irmãos do Silêncio tinham: pareciam, para Will, com ferimentos, como cortes no rosto de Jem. Ele se sentiu enjoado por dentro.

Charlotte, disse o Irmão Enoch, e estendeu a mão: havia uma carta, selada com o selo do Conselho. Eu trouxe uma mensagem para você.

Charlotte o olhou com espanto. "Os Irmãos do Silêncio não entregam cartas."

"Essa carta é de suma importância. É imprescindível que você a leia agora."

Lentamente, Charlotte pegou a carta. Ela puxou a aba, franziu o cenho e atravessou o quarto para pegar o abridor de cartas em sua escrivaninha. Will aproveitou a oportunidade para encarar Jem com ainda mais força. Não adiantou nada. Jem não devolveu o olhar de Will; seu rosto estava sem expressão; não havia nada lá para encontrar. Will se sentiu quase nauseado – era como ter sido um navio ancorado por anos e, de repente, ser liberto para flutuar nas ondas, sem a menor ideia de qual direção tomar. E lá estava Jem, sua âncora, sem olhar na direção dele ou encontrar seu olhar.

O som do papel sendo rasgado se fez ouvir, e todos eles assistiram à Charlotte abrir a carta e lê-la, a cor se esvaindo de seu rosto. Ela ergueu os olhos e encarou o Irmão Enoch. "Isso é algum tipo de brincadeira?"

Não há brincadeira nenhuma, lhe garanto. Você tem uma resposta?

"Lottie," disse Henry, olhando para sua esposa, até seus cabelos ruivos radiando ansiedade e amor. "Lottie, o que é, o que há de errado?"

Ela olhou na direção dele, e depois, tornou a olhar o Irmão Enoch. "Não," disse ela. "Eu não tenho uma resposta. Não ainda."

O Conselho não deseja esperar.

"Bom," disse Charlotte, e sua voz era firme. "Eles precisarão. Diga a eles que enviarei uma resposta até o fim do dia."

Depois de uma pausa, o Irmão Enoch assentiu com a cabeça, e se virou para deixar o quarto. Jem se virou para segui-lo.

E Will quebrou. Ele deu uns passos para frente, e segurou a manga de Jem. O material grosso do manto era escorregadio sob seus dedos. "Isso é tudo?" disse ele, em voz baixa, urgente. "Você volta para cá, e você não fala comigo – ou visita Tessa? Você ao menos terminou seu noivado, James Carstairs?"

Jem congelou no meio do que fazia. O Irmão Enoch se virou. Ele não parecia satisfeito, mesmo com a falta de expressão que os Irmãos tinham. Um Irmão do Silêncio não pode se casar ou estabelecer noivados, ele disse, e Will conseguia ver, pelos rostos daqueles que os cercavam, que ele e Jem podiam ouvir as palavras, mas ninguém mais podia. Ele não possui nem esposa nem parabatai agora.

A mão de Will ainda segurava a manga de Jem. "Você quer que eu conte a ela, então?" perguntou Will. Charlotte estava olhando para ele, balançando a cabeça, Will, não faça isso. Ele sabia que seu ódio era injusto, injustificável – o noivado de Jem e Tessa estava acabado, ele não deveria estar feliz? – mas ele não estava feliz. O luto e o ódio jorravam como água das rachaduras de seu coração partido. Jem, que nunca havia machucado ninguém, magoando ele, magoando Tessa – e se tudo que havia acontecido entre ela e Will houvesse acontecido somente por ela ter pensado que Jem estava morto, só por causa do desespero do luto e da necessidade humana de procurar conforto? E se ela amasse Jem e ainda esperasse por ele, de qualquer modo, sabendo que ele estava vivo mas longe dela, sem ouvir dele uma palavra que pudesse providenciar um final a esse capítulo da vida dela? E ainda assim, não havia futuro para ele sem Tessa. "James Carstairs, você quer que eu conte a Tessa que você cansou dela, uma vez que você não vai fazer isso?"

"Que eu cansei dela?" Jem puxou a manga para longe de Will, e seus olhos estavam abertos e escuros e magoados, os olhos do Jem-criança, os olhos escuro que Jem havia conhecido enquanto crescia. "Eu vim até aqui porque Enoch me disse que ela havia acordado," disse ele, e havia uma raiva em sua voz que Will praticamente nunca havia ouvido antes. "Eu pedi permissão para falar com ela uma última vez. Você sabe o que eu sinto. Eu nunca a superarei. Nem em cem anos. Nem em mil." Ele olhou de Will para o Irmão Enoch, e de novo para Will. "E, no entanto, preciso. Não tenho escolha. Não soa como você, William, não sentir compaixão por isso."

Will engoliu em seco. Tudo no quarto parecia ter se resumido a isso, havia apenas ele e Jem. "Eu pensei que, talvez – ser um Irmão do Silêncio – tivesse tirado de você sua capacidade de sentir," ele disse, e então irrompeu, "Eu não posso suportar isso, um James Carstairs que não é capaz de sentir. Não apenas por Tessa, mas por mim. Se ela o ama, se ela desejar passar o resto da vida dela sofrendo por sua partida, eu posso sobreviver a isso, mas não à morte de seu coração, ou do dela." Jem olhou para ele, e nas profundezas de seus olhos escuros Will conseguiu ver, por uns segundos, o Jem que ele conhecia. "Wo men shi jie bai xiong di," disse Jem. "Você saberia se meu coração tivesse morrido, e eu saberia o mesmo de você. Minha partida, como você diz, embora eu ainda permaneça no mundo, é como se eu pegasse um navio para alguma ilha desconhecida, um lugar ao qual você não pode me seguir. Mas saiba," acrescentou ele, em uma voz que somente Will poderia ouvir, "Eu farei o que puder para garantir que eu possa ver você novamente, e a Tessa. Porque você é uma metade de meu coração, e ela é a outra. Enquanto eu tiver um de vocês para ser minha estrela-guia, meu coração não morrerá, e eu permanecerei sendo James Carstairs."

"Will," disse Charlotte. Ela soou preocupada. "Will e J... Irmão Zachariah, isso é bastante irregular. Irmão Enoch, eu peço perdão..."

"Eu pedi permissão para falar com Will, também, antes de vir," disse Jem. "Me foi dito que eu poderia, desde que eu não falasse com ele ou respondesse enquanto o Irmão Enoch estava tratando dos assuntos do Conselho." Will o encarou, e depois desviou o olhar ao Irmão Enoch, percebendo, com uma pontada de náusea em seu estômago, que ele podia ter acabado de perder a única chance de falar em particular com Jem – para sempre. O rosto de Enoch estava sem expressão, não demonstrando nenhuma emoção.

"Isso não é justo!" disse Will. "Eu me dirigi a você primeiro..."

Se acalme, pequeno Caçador de Sombras, disse o Irmão Enoch. Os laços entre parabatai são compreendidos pela Irmandade. Afinal, nós mesmos que criamos esses laços entre vocês. Você possui permissão para falar com ele, uma última vez, antes de ele ir.

Depois da Ponte

Em construção

Quadrinho Will/Tessa

fontes: Cassandra Clare no Tumblr; Idris Brasil
Quadrinho Will/Tessa de Cassandra Jean e [Cassandra Clare]. Tessa volta de seu encontro anual com Jem com algumas notícias para Will. Ou: quando James Herondale recebe seu nome. Com participações de Charlotte e Cecily, Anna Lightwood e Charles Fairchild.

Referências

Interferência de bloqueador de anúncios detectada!


A Wikia é um site grátis que ganha dinheiro com publicidade. Nós temos uma experiência modificada para leitores usando bloqueadores de anúncios

A Wikia não é acessível se você fez outras modificações. Remova o bloqueador de anúncios personalizado para que a página carregue como esperado.

Também no FANDOM

Wiki aleatória