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Nesta página haverá uma compilação dos extras, cenas cortadas, contos e outros bônus ou conteúdo especial dentro da série, lançados juntamente com As Peças Infernais ou pela própria Cassandra Clare.

Anjo Mecânico

Na Ponte

fonte: Site da Cassandra Clare; Idris Brasil
Na Ponte: Will e Jem antes de Anjo Mecânico.

Já havia passado da meia-noite, e Londres estava tão quieta como sempre esteve: o som das carruagens nunca parava completamente, nem os choros e gritos dos moradores da cidade, nem as conversas animadas dos mendigos ao lado do rio, que remexiam entre os detritos jogados à margem pelo Tâmisa em busca de algo de valor. Will Herondale e James Carstairs se sentaram à beira do Victoria Embankment, as pernas deles balançando. De seu lado esquerdo, eles podiam ver a agulha de Cleópatra (obelisco em Londres), furando o céu; do lado direito, a ponte Hungerford.

Will bocejou e espreguiçou os braços. Uma espada pequena, desembainhada, brilhava em seu colo. "Você sabe, James, comecei a acreditar que esse demônio Leviatã não existe. Ou, se existe, já está há muito afundado no oceano."

"Bem, não será a primeira vez que ficamos sentados esperando a noite inteira por nada, nem vai ser a última, eu aposto," disse Jem, concordando. Sua bengala com cabeça de dragão estava equilibrada em seus ombros, seus braços apoiados nas extremidades dela. O cabelo cintilante dele brilhava conforme a lua aparecia e desaparecia por trás das nuvens. "Você ainda está insistindo naquela investigação? As garotas mortas no East End?"

"Me levou a lugares bastante interessantes," disse Will. "Eu ganhei 60 libras do Ragnor Fell na banca na noite passada. Quando você se juntar a mim de novo..." "Eu não gosto muito desses clubes. Mundanos inebriados, envolvidos em jogos nos quais eles não têm a menor chance de ganhar, zombando e drogando até mesmo criaturas do submundo, tudo isso deixa um gosto amargo em minha boca. E você sabe o que Charlotte diria se visse você apostando." "Charlotte se preocupa demais. Ela não é..." Will interrompeu a frase, e olhou para cima, vendo as estrelas, ou o que podia ser visto em meio à fumaça e às nuvens. Elas iluminaram os olhos dele, então o azul deles poderia ser visto mesmo na escuridão, amenizada apenas pelas lâmpadas em forma de golfinhos tradicionais de Embankment.

Minha mãe, Jem sabia que ele estava prestes a dizer. Era o jeito de Will, interromper-se cuidadosamente antes de revelar demais sobre si mesmo.

"Você disse que seu pai costumava apostar," disse ele, com uma casualidade deliberada, batendo os dedos no topo de sua bengala.

Por um momento, Will parecia estar tão distante quanto as estrelas que ele admirava. "Só uma batida de cartas casual. Minha mãe desencorajava qualquer coisa a mais. Ela não gostava de apostas. E ele nunca foi um desses homens doidos que costumavam apostar em tudo – a que horas o sol se poria naquele dia, ou se o velho Henderson conseguiria escalar o Minith Mawr bêbado, por exemplo." Jem desconhecia o que era Minith Mawr, e não perguntou. Em vez disso, ele disse, "Seu pai deve ter amado muito a sua mãe, para desistir de ser um Caçador de Sombras por ela." Will estremeceu, quase imperceptivelmente, mas seu tom de voz estava surpreendentemente calmo quando ele falou. "Ele amou. Eu perguntei a ele uma vez se ele havia se arrependido alguma vez, mas ele disse que nunca. Ele disse que há vários Caçadores de Sombras por aí, mas amor verdadeiro acontece apenas uma vez na vida se a pessoa tiver sorte, e essa pessoa seria muito tola de deixá-lo escapar."

"E você acredita nisso?" Jem falou com um tato enorme; falar com Will sobre qualquer coisa pessoal era como tentar não assustar um animal selvagem.

"Acho que sim," disse Will, depois de uma pausa. "Não que importe pra mim, mas..." ele encolheu os ombros. "Se o amor é verdadeiro, então vale a pena lutar por ele."

"E se for imoral, de alguma forma? Proibido?"

"Proibido? Mas o amor de meu pai pela minha mãe era proibido, ou pelo menos contra a lei. Ou você quer dizer se ela for casada, ou uma vampira?"

"Ou uma vampira casada."

"Bom, mesmo assim," disse Will, com um sorriso irônico. "A pessoa precisa continuar lutando por ele. O amor conquista tudo." "Avisarei os vampiros casados da região," disse Jem, de maneira seca. "E você, Carstais? Você ficou muito quieto quanto às suas opiniões."

Jem afastou seus braços da bengala e suspirou. "Você sabe que acredito que vamos nascer novamente," disse ele, muito quieto. "Acredito que se duas almas pertençam uma a outra, elas ficarão juntas na Roda e ficarão juntas na próxima vida depois dessa, não importa o que aconteça conosco agora." "Isso é um ensinamento oficial ou algo que você mesmo inventou?" Will perguntou. Jem riu. "Isso importa?"

Will olhou para ele, curioso. "Você acha que vai me ver de novo?" Com a mudança de expressão no rosto de Jem, Will acrescentou. "Quero dizer, há uma chance para mim? De ter uma vida depois dessa, uma vida melhor?"

Enquanto Jem abria a boca para responder, uma farfalhada passou por baixo dos pés deles. Quando os dois olharam para baixo, um tentáculo surgiu da superfície do rio, enroscou-se no tornozelo de Jem e puxou-o para baixo da superfície da água. Will se ergueu com a espada em punho; a água ainda fervia onde os tentáculos da criatura se debatiam com selvageria, o que indicava que Jem estava conseguindo dar uns bons golpes neles. O coração de Will bateu com força, bombeando o sangue e o chamado da batalha por suas veias.

"Inferno," disse ele. "Só porque estava ficando interessante," e ele saltou para dentro da água, em busca de seu amigo.

Burning Bright

fonte: Site da Cassandra Clare; Idris Brasil
Jem conhecendo Tessa sob o ponto de vista dele. Isso está disponível na edição especial do livro do Walmart.

O violino do pai de Jem havia sido feito pelo artesão Guarnerni, que fazia violinos para músicos tão famosos quanto Paganini. Jem pensava que na verdade seu pai poderia ter sido um Paganini, famoso no mundo inteiro, se não fosse Caçador de Sombras. Caçadores de Sombras podiam até se interessar por música, pintura ou poesia, principalmente depois de pararem de exercer seu trabalho, mas sempre seriam Caçadores de Sombras antes de tudo.

Jem sabia que não era tão talentoso com o violino como seu pai – que o havia ensinado a tocar quando ainda era pequeno o suficiente para ter dificuldade em equilibrar o pesado instrumento -, mas ele tocava-o por razões que iam muito além de meramente arte.

Essa noite, ele havia se sentido mal para acompanhar os outros no jantar – dor em seus ossos e uma preocupante sensação de cansaço no corpo – até que ele finalmente desistiu e tomou yin fen suficiente para acabar com a dor e dar um pouco de energia. Logo havia se irritado com a dependência e quando procurou Will, sempre o primeiro na linha de defesa contra o vício, seu parabatai – claro – não estava lá. Fora de novo, Jem pensou, caminhando pelas ruas como Diógenes, porém com um objetivo menos nobre.

Então Jem havia voltado para seu quarto e seu violino. Ele estava tocando Chopin agora, uma peça que era originalmente para o piano, mas cuja seu pai havia adaptado para o violino. A música começa com suavidade e ia aumentando para um crescendo, um que iria tirar dele cada grama de energia, suor e concentração, deixando-o tão cansado a ponto de não sentir o desejo pela droga que arrancava suas terminações nervosas como fogo.

Era uma das peças pela qual seu pai havia encantado sua mãe, antes de eles se casarem. O pai de Jem era o romântico e sua mãe a prática, mas a música mexia com ela de todo modo. Seu pai havia insistido que ele aprendesse – "Eu toquei para minha noiva, e um dia você tocará para a sua."

Mas eu nunca terei uma noiva. Ele não pensava nisso sentindo pena de si. Jem era como sua mãe: prático na maioria das coisas, até mesmo sua morte. Ele era capaz de manter uma distância do fato e examiná-lo. Cada uma das crianças do Instituto era peculiar, pensava ele: Jessamine com sua amargura e casa de boneca, Will com suas mentiras e segredos, e Jem – o fato de ele estar morrendo era apenas outro tipo de peculiaridade.

Ele parou por um momento, com falta de ar. Ele estava tocando ao lado da janela, onde era mais agradável: ele havia aberto de leve, e o amargo ar de Londres tocou quase fisicamente seu cabelo e sua bochecha, enquanto as cordas do violino em sua mão se estabilizavam. Ele estava de pé em uma parte iluminada pela luz da lua, prata como o pó yin fen...

Ele fechou os olhos com força e se jogou novamente na música, o arco furiosamente nas cordas como um grito. Às vezes o desejo pela droga era quase maior que sua força de vontade, maior que o desejo por comida, por água ou ar, por amor...

Eu toquei para a minha noiva, e um dia você tocará para a sua. Jem pensava nisso decididamente. Às vezes ele se perguntava como deveria ser olhar para as garotas como Will, com seus olhos azuis escuro analisando-as, oferecendo insultos e elogios alto o suficiente para fazê-lo ser estapeado em quase todas as festas de Natal. Ele queria uma companhia casual às vezes, quando uma garota bonita flertava com ele, ou quando ele se sentia particularmente solitário.

Mas Jem não pensava, não podia, pensar em garotas tão casualmente: ele supunha que um relacionamento podia ser possível, mas não era o que ele queria. Ele queria o que seu pai havia tido – o tipo de amor sobre o qual os poetas escreviam. O jeito com que seus pais se olhavam, a paz que os rodeava quando estavam juntos. Uma cópia de amor não o traria isso, e se desperdiçasse tempo assim, ele poderia perder a oportunidade para a coisa real – e ele não teria muitas.

Uma pontada percorreu seu corpo quando sua necessidade da droga aumentou, e ele aumentou a velocidade com que estava tocando. Ele tentou não olhar para a caixa em sua cabeceira. Era em horas como essa que ele se perguntava por que não pegava montes da droga de uma vez só. A maioria dos viciados em yin fen tomava-a incessantemente até morrerem pela sensação eufórica de se sentir indomável e nunca cansar-se, de ter a força e o poder de uma estrela. Era a euforia que acabava matando-os no final, queimando seus nervos, esmagando seus pulmões e exaurindo seus corações.

Às vezes Jem desejava arder. Às vezes ele não sabia porque lutava contra isso, porque dava valor a uma longa vida de sofrimento mais do que a uma vida mais curta sem dor. Então ele se lembrava que a ausência da dor seria apenas uma ilusão: como a casa de bonecas de Jessamine, as histórias de bordéis e palácios de gin de Will.

E se ele fosse realmente honesto, ele sabia que acabaria com suas chances de encontrar o amor que seus pais um dia tiveram. Por que isso era o que amor significava, não era? – ser o brilho que arde nos olhos de alguém?

Ele continuou a tocar. A música havia subido para um crescendo. Ele estava ofegando, suor brotando de seu corpo apesar do frio do ar noturno. Ele ouviu o som da porta do quarto se abrindo atrás dele e alívio se espalhou dentro dele, porém ele não parou de tocar. "Will," disse ele depois de um tempo. "Will, é você?"

Houve apenas silêncio, algo que não era característico de Will. Talvez Will estava irritado com alguma coisa. Jem abaixou o arco e se virou, franzindo a testa. "Will...", começou ele.

Mas não era Will. Uma garota estava em pé hesitantemente na porta de seu quarto. Uma garota com uma camisola e um robe em cima. Os olhos cinzas dela estavam pálidos à luz da lua, mas calmos, como se nada sobre sua aparência havia assustado-a. Ela é a feiticeira, ele percebeu de repente; aquela sobre a qual Will tinha contado a ele mais cedo, porém Will não havia mencionado a calma que emanava dela que fazia Jem se sentir relaxado apesar de seu desejo pela droga; ou o pequeno sorriso em seus lábios que iluminava seu rosto. Ela deveria estar lá há alguns momentos, ouvindo-o tocar: a evidência que ela tinha gostado estava em sua expressão e na inclinação sonhadora de sua cabeça.

"Você não é Will," disse ele, e imediatamente percebeu que era uma coisa realmente idiota para se dizer. Quando ela começou a sorrir, ele sentiu um sorriso de volta começando em seus lábios – por tanto tempo Will havia sido a pessoa que ele mais queria que o visse quando ele estava desse jeito e agora, pela primeira vez, ele se sentia satisfeito de não ver seu parabatai, mas outra pessoa.

Capítulo 2

fonte: Cenas deletadas de Anjo Mecânico no site
Uma conversa muito precoce entre Will e Tessa, em que a natureza de sua fuga era muito diferente, e em que a Casa Sombria era na verdade um bordel de trabalho de prostitutas mecânicas.

Will colocou Tessa dentro da carruagem, depois se abaixou atrás dela, gritando "Thomas! Vai! Vai!" para o motorista, que estalou as rédeas. A carruagem deu uma guinada para a frente quando Will fechou a porta, fazendo Tessa cair de novo.

"Fique firme", ele disse, e estendeu a mão para ela, mas Tessa já tinha se afastado, sentando-se no assento em frente a ele. Ela puxou a cortina para trás da janela e olhou para fora —havia a rua suja, os edifícios velhos que se aglomeravam em cada lado. Quando a carruagem avançou, passaram pelo beco que ela passara tantos dias olhando — estava lá, e depois se afastavam enquanto caminhavam em uma esquina, quase derrubando um vendedor empurrando um carrinho de burro empilhado com batatas novas. Tessa gritou.

Will chegou perto dela e puxou a cortina para fechar. "É melhor se você não olhar," ele disse a ela agradavelmente.

"Ele vai matar alguém. Ou nos matar."

"Não, ele não vai. Thomas é um excelente motorista."

Tessa olhou para ele. "Claramente, a palavra excelente significa algo diferente deste lado do Atlântico." A carruagem voltou a tremer, e Tessa agarrou o assento, apertando os olhos. Sua cabeça estava girando, e não apenas pelo movimento da carruagem: era a primeira vez que ela estava fora da Sala Vermelha há mais de um mês, e os sons da rua lá fora, até mesmo filtrados pelas janelas fechadas, pareciam ecoar dentro de sua cabeça como a batida de um tambor. Ela ouviu Will, distante, falando algo para o motorista; a carruagem abrandou, e o aperto de Tessa no assento relaxou ligeiramente, a tontura diminuindo. Ela abriu os olhos e viu Will olhando para ela com curiosidade. "Você disse a ele para onde estávamos indo?" Ela murmurou.

"Sim", disse ele, "embora eu não posso deixar de achar estranho que alguém como você tivesse um irmão com um endereço em Mayfair."

Tessa piscou para ele. "Alguém como eu?"

"Uma prostituta," disse Will.

A boca de Tessa se abriu. "Eu não sou uma...uma..."

"Uma prostituta?" Will disse novamente, erguendo as sobrancelhas.

Tessa fechou a boca com um estalo. "Que coisa horrível a dizer. Se essa é a sua ideia de uma forma de piada para me insultar..."

"Nunca faço piadas," disse Will, "ou, pelo menos, eu só brinco quando a ocasião realmente a justifica, o que esta não faz. Assumi que você era uma prostituta devido à sua presença no que só pode ser chamado de bordel."

Tessa olhou para ele.

"Você não pode esperar que eu acredite que você era inteiramente ignorante da função da Casa Sombria?" Will indagou. "Você deve ter visto o que estava acontecendo."

"Eu disse a você, eu nunca fui permitida a sair daquele quarto."

"Eu não sabia que isso significava que ninguém mais era permitido a entrar", disse Will.

"O quê... oh, ugh... Ugh... Há algo horrivelmente errado com você, não é? É como se você não pudesse parar de dizer coisas terríveis."

As sobrancelhas de Will subiram; apesar de sua raiva, confusão e horror, de alguma forma Tessa não conseguiu se impedir de perceber que elas fizeram meio-círculos escuros perfeitos acima de seus olhos. "Agora você parece Jem."

"Quem é Jem?"

"Não se preocupe com isso," disse Will. "Estou tentando descobrir como alguém poderia viver em um bordel por um mês e não perceber. Você deve estar terrivelmente aborrecida."

Tessa olhou furiosa.

"Se isso ajuda, parece ser um estabelecimento de alta classe. Bem mobiliado, relativamente impecáveis..."

"Parece que você visitou sua parte justa de bordéis," disse Tessa, amargamente. "Fazendo um estudo deles?"

"É meio que um hobby", disse Will, e sorriu como um anjo mau. Antes que Tessa pudesse dizer algo em troca, a carruagem parou.

"Parece que estamos aqui", anunciou Will, e Tessa se esticou por ele para puxar para trás a cortina através da janela; ela olhou para fora e viu que a carruagem tinha se estabelecido na frente de uma casa georgiana alta em uma bonita praça alinhada com árvores e outras casas semelhantes. Havia uma cerca cercada de ferro em volta da casa, o número 89 marcado proeminentemente em números de prata no portão.

Sobre Perda

fonte: Site da Cassandra Clare; Idris Brasil
Perspectiva de Will de seu beijo com Tessa em Anjo Mecânico, página 236 a 242 na edição brasileira.

Will Herondale estava queimando.

Essa não era a primeira vez que ele havia consumido sangue de vampiro, e ele sabia o padrão da dor. Primeiro havia uma vertigem e euforia, como se você tivesse bebido muito gin – o breve período de embriaguez antes de a sensação passar. E então vinha a dor, começando dos dedos dos pés, subindo como se linhas de pólvora tivessem sido postas sobre seu corpo e estivesse queimando até chegar a sua cabeça.

Ele ouvira que a dor não era tão intensa para humanos: que seu sangue, mais fino e mais fraco que o sangue de um Caçador de Sombras, não lutava pela doença demoníaca como o sangue Nephilim fazia. Ele estava vagamente consciente quando Sophie veio com a água benta, borrifando nele algo frio conforme deixava os baldes no chão e saía do quarto. O ódio de Sophie por ele era sólido como a neblina de Londres; ele podia sentir saindo dela quando ela se aproximava dele. A força disso o fez levantar e se apoiar pelos cotovelos. Ele puxou um balde para perto de si e o levantou em direção a sua cabeça, abrindo sua boca para engolir o que conseguisse.

Por um momento, ele sentiu como se fogo queimasse completamente suas veias. A dor cessou, exceto pela pulsação em sua cabeça. Ele se deitou cuidadosamente, curvando um braço sobre seu rosto para bloquear a iluminação fraca vindo das janelas baixas. Seus dedos pareciam deixar uma trilha de luz conforme se moviam. Ele ouviu a voz de Jem em sua cabeça, o repreendendo por arriscar sua vida. Mas o rosto que ele via contra suas pálpebras não era o de Jem.

Ela estava olhando para ele. A voz negra em sua consciência, o lembrete de que ele não poderia proteger ninguém, e que ficaria sozinho até o fim. Ela aparentava exatamente da maneira que ele a havia visto da última vez; ela nunca mudava, e assim ele sabia que ela era uma invenção de sua imaginação.

– Cecily – ele sussurrou – Cecy, pelo o amor de Deus, me deixe.

– Will? – Aquilo o surpreendeu; ela aparecia para ele frequentemente, mas raramente falava. Ela aproximou sua mão dele, ele teria se aproximado dela também, se não fosse o ruído de metal colidindo e o trazendo de volta de seu devaneio. Ele engoliu seco.

– De volta, é, Sophie? – Will disse. – Eu te disse que se você me trouxesse outro desses baldes infernais, eu...

– Não é a Sophie – veio a resposta. – Sou eu. Tessa.

O batimento de seu próprio pulso invadiu seu ouvido. A imagem de Cecily desvaneceu e se dissipou em suas pálpebras. Tessa. Porque eles a enviaram? Será que Charlotte o odiava tanto assim? Isso deveria ser algum objeto de lição para ela nas indignidades e perigos do Mundo das Sombras? Quando ele abriu seus olhos, ele a viu parada em sua frente, ainda em seu vestido de veludo e luvas. Seus cachos negros contrastavam com sua pele pálida, e sua bochecha estava salpicada, levemente, com sangue, provavelmente de Nathaniel.

Seu irmão, ele sabia que deveria dizer. Como ele está? Deve ter sido um choque tê-lo visto. Não há nada pior que ver alguém que você ama em perigo.

Mas fazia anos, e ele aprendera a engolir as palavras que ele queria dizer, transformando elas. De alguma forma eles estavam conversando sobre vampiros, sobre o vírus e como ele era transmitido. Ela deu o balde para ele com uma careta – ótimo, ela deveria ter raiva dele – e ele usou isso para extinguir a chama, para acalmar a queimação em suas veias e garganta e peito.

– Assim melhora? – ela perguntou, observando ele com seus olhos cinzas claros. – Derramando a água em sua cabeça desse jeito?

Will imaginou como ele deveria estar aparentando para ela, sentando no chão com um balde acima de sua cabeça, e fez um som com a garganta, quase uma risada. Oh, o glamour de ser um Caçador de Sombras! A vida de guerreiro que ele havia sonhado enquanto criança!

– As perguntas que você faz... – ele começou. Outra pessoa, outra pessoa que não fosse Tessa, talvez teria se desculpado por ter perguntando mas ela apenas permaneceu parada, o observando como um pássaro curioso. Ele não achava que ele já tivera visto alguém com olhos da cor dos dela antes: era da cor da névoa cinza pairando sobre o mar de Gales.

Você não poderia mentir para alguém que possuía olhos que o lembrava de sua infância.

– O sangue me faz ficar febril, faz minha pele queimar – ele admitiu. – Eu não consigo ficar mais fresco. Mas, sim, a água ajuda.

– Will... – Tessa disse. Quando ele olhou para cima de novo, ela parecia estar envolta em luz como um anjo, embora ele sabia que era o sangue de vampiro borrando sua visão. De repente ela estava se movendo em sua direção, pegando em sua saia para pode se sentar ao seu lado, no chão. Ele imaginou o porquê de ela estar fazendo isso, e percebeu, para seu próprio horror que ele havia pedido para ela fazer isso. Ele imaginou a doença de vampiro em seu corpo, subjugando seu próprio sangue, enfraquecendo sua força de vontade. Ele sabia, intelectualmente, que ele havia bebido água benta suficiente para matar a doença antes que ela pudesse se impregnar em seus ossos, e que ele não poderia deixar de lado seu autocontrole para a doença. E ainda – ela estava tão perto dele, perto o suficiente para ele poder sentir o calor irradiando de seu corpo.

– Você nunca ri – ela estava dizendo – Você se comporta como se tudo fosse engraçado para você, mas você nunca ri. Às vezes você sorri quando você acha que ninguém está prestando atenção.

Ele queria fechar seus olhos. As palavras dela passaram por ele como um corte limpo de uma lâmina serafim, queimando seus nervos como fogo. E ele não tinha ideia de como ela o observara tão atentamente, ou tão precisamente. – Você – ele respondeu – Você me faz rir. Desde o momento que você me acertou com aquela garrafa. Sem mencionar a maneira que você sempre me corrige. Com esse olhar engraçado em seu rosto quando você faz isso. E a maneira que você gritou com o Gabriel Lightwood. E até a maneira que você respondeu o de Quincey. Você me faz...

Sua voz sumiu. Ele podia sentir a água fria escorrendo por suas costas, por seu peito, contra sua pele aquecida. Tessa sentou a alguns centímetros dele, exalando um cheiro de pó e perfume e transpiração. Seus cachos úmidos enrolados contra suas bochechas, e os olhos dela estavam abertos para ele, seus lábios de um rosa pálido, levemente partidos. Ela levantou a mão para puxar uma mecha de seu cabelo, e, sentindo como se ele estivesse se afogando, ele foi em direção à sua mão. – Ainda há sangue, – ele disse, inarticuladamente. – Em suas luvas.

Ela começou a se esquivar, mas Will não a deixaria ir; ele estava se afogando, ainda, se afogando, e ele não conseguia soltá-la. Ele virou sua pequena mão para cima. Ele tivera o mais forte desejo de se aproximar dela completamente, de puxá-la contra ele e apertá-la em seus braços, de envolver seu corpo pequeno e forte com o dele. Ele curvou sua cabeça, grato de que ela não conseguia ver seu rosto conforme o sangue o corava completamente. Suas luvas estavam puídas, rasgadas onde ela havia pego nas algemas de seu irmão. Com um estalido de seus dedos, ele abriu os botões de pérola que mantinham a luva fechada, deixando seu pulso nu.

Ele conseguia ouvir a si mesmo respirando. Um calor se espalhou por seu corpo – não o calor não natural da doença vampírica, mas o mais comum rubor do desejo. A pele do pulso dela estava translucidamente pálida, as veias azuis visíveis por baixo. Ele podia ver a palpitação de seu pulso, sentir o calor de sua respiração contra sua própria bochecha. Ele acariciou a maciez de seu pulso com as pontas de seus dedos e fechou seus olhos pela metade, imaginando suas mãos no corpo dela, a pele macia de seu antebraço, suas pernas sedosas debaixo de suas saias volumosas. – Tessa – ele disse, como se ela tivesse a menor ideia do efeito que estava tendo sobre ele. Havia mulheres que talvez tivessem esse efeito, mas ela não era uma delas. – O que você quer de mim?

– Eu... Eu quero entender você – ela sussurrou.

O pensamento era assustador. – Isso é mesmo necessário?

– Eu não tenho certeza se alguém realmente te entende, – ela respirou – exceto, possivelmente, o Jem.

Jem. Jem havia desistido de entendê-lo há muito tempo, Will pensou. Jem era um estudo sobre como você poderia amar alguém completamente sem ao menos entendê-lo. Mas o resto das pessoas não eram o Jem.

– Mas talvez ele só quer saber que há uma razão – ela estava dizendo. Seu olhar era feroz. Nada a impedia de argumentar, ele pensou, ou de se importar. Nesse aspecto ela era como Jem: a perda não a fazia amargurada, e a traição não deixava sua fé de lado. Inconscientemente, ela se moveu para mover sua mão para trás, para fazer um gesto passional, e ele a segurou, retirando a luva de sua mão. Ela engasgou, como se ele tivesse colocado as mãos em seu corpo, o sangue subindo e ficando fixo em suas bochechas. Sua mão pequena e nua, que se contraía como uma pomba contra a sua, ficou rígida. Ele levantou a mão em direção à sua própria boca, sua bochecha, beijando sua pele: roçando seus lábios por suas articulações, até seu pulso. Ele a ouviu fazer um barulho baixo com sua voz, e levantou sua cabeça para vê-la sentada perfeitamente ereta, sua mão estendida, seus olhos fechados e seus lábios semi abertos.

Ele beijara garotas, outras garotas, quando o desejo básico de contato físico se tornou algo do senso comum, em esquinas escuras, em festas, ou embaixo de um visgo. Beijos rápidos, apressados, a maioria deles, embora alguns tiverem sido surpreendentemente elaborados – como Elspeth Mayburn havia aprendido a fazer aquilo com seus dentes, e o por que ninguém nunca contara a ela que essa não era uma boa ideia? – mas isso era diferente.

Antes houvera uma tensão controlada, uma decisão deliberada de ceder ao que seu corpo estava pedindo, separado de qualquer outro sentimento. Cortado de qualquer outra emoção. Mas isso... isso era um calor florescendo dentro de seu peito, deixando sua respiração mais curta, enviando uma onda de arrepios por sua pele. Esse era um sentimento de dor quando ela soltou sua própria mão, uma doença de perda curada apenas quando ele a puxou para perto de si através do chão de madeira rachada, suas mãos atrás de sua nuca conforme seus lábios iam em direção aos dela tanto com ternura como com ferocidade.

A boca dela se abriu sob a dele, hesitantemente, e algum canto de sua mente o alertou para desacelerar seu passo, que por algum palpite razoável esse era o primeiro beijo dela. Ele forçou suas mãos para desacelerar, para gentilmente tirar os grampos em seu cabelo e alisar os cachos que escorriam por seus ombros e costas, as pontas de seus dedos traçando uma linha pelas bochechas dela, por seus ombros nus. Seu cabelo parecia uma seda quente, passando por seus dedos, e o corpo dela pressionado contra o dele, era todo maciez. As mãos dela eram leves como plumas em sua nuca, em seu cabelo; quando ele a puxou para mais perto, ela fez um som baixo contra sua boca que quase dissipou os últimos pensamentos de sua cabeça. Ele começou a direcionar as costas dela para o chão, movendo seu corpo em cima do dela...

E então congelou. Pânico correu em seu sangue em uma corrente em ebulição conforme ele viu a estrutura completa e frágil que ele construíra em torno de si, se partir, tudo por causa disso, dessa garota, que quebrou seu controle como se nada nunca existira. Ele separou sua boca bruscamente da dela, empurrando ela para longe, a força de seu terror quase a derrubando. Ela olhou para ele através da cortina entrelaçada que era seu cabelo, seu rosto pálido em choque.

– Deus do Céu – ele sussurrou – O que foi isso?

A consternação dela era clara em seu rosto. Seu coração contraiu, lançando auto aversão em suas veias. Aquele momento, ele pensou. Aquele único momento...

– Tessa – ele disse. – Acho que você deve ir.

– Ir? – Os lábios dela se partiram; eles estavam inchados de seus beijos. Era como olhar para um ferimento que ele mesmo infligira, e no mesmo momento, ele queria nada mais além de beijá-la novamente. – Eu não deveria ter ido tão longe. Desculpe-me...

– Deus! – A palavra o surpreendeu; ele deixara de acreditar em Deus há um longo tempo atrás, e agora ele o havia invocado duas vezes. A dor no rosto dela era quase mais do que ele poderia aguentar, e não menos porque ele não havia tido a intenção de machucá-la. Tão frequentemente, ele tinha a intenção de machucar e ferir, e nesse momento ele não tivera – não a princípio – e ele causara mais ferimentos que ele poderia imaginar. Ele queria nada mais que se aproximar dela e pegá-la em seus braços, não para satisfazer seu desejo, mas para transmitir ternura. Mas fazer isso apenas faria a situação piorar além do imaginado. – Apenas me deixe sozinho agora – ele ouviu a si mesmo dizer. – Tessa. Estou lhe implorando. Você entende? Estou lhe implorando. Por favor, por favor me deixe.

A resposta dela veio, finalmente, rígida com mágoa e raiva. – Muito bem – ela disse, embora claramente não estivesse tudo bem. Ele deu um olhar rápido para ela pelo canto de seu olho: ela era orgulhosa, não choraria. Ela não se importou em pegar os grampos de cabelo que estavam jogados; ela apenas levantou e virou suas costas para ele.

Ele não merecia nada melhor, ele sabia. Ele jogara a si mesmo contra ela sem consideração por sua reputação ou de sua paixão indecorosa. Jem pensaria nisso. Jem teria sido mais cuidadoso com os sentimentos dela. E a partir de então, ele pensou, conforme os passos dela recuaram, ele também seria. Mas ele não sabia mais ser aquela pessoa. Ele cobrira aquele Will por tanto tempo com fingimento, que era pelo fingimento que ele procurava primeiro, não pela realidade. Ele cravou suas unhas no piso, agradecendo a dor, pois ela era pequena comparada à dor de saber que ele perdera mais do que a opinião de Tessa essa noite. Ele perdera Will Herondale. E ele não sabia se ele poderia alguma vez tê-lo de volta.

O Porquê de Will Odiar Patos

fonte: Site da Cassandra Clare; Idris Brasil
Ocorre no começo do Capítulo 9, "O Enclave"

Will bateu os sapatos impacientemente contra as pernas da mesa da biblioteca. Se Charlotte estivesse ali, diria a ele para parar de danificar os móveis, embora metade da mobília na biblioteca já apresentasse marcas de anos de abuso – lasquinhas nos pilares onde ele e Jem praticavam briga de espadas fora da sala de treino, marcas de sapatos nos assentos perto das janelas, onde ele havia ficado sentado por horas, lendo. Orelhas de livros dobradas, lombadas quebradas, marcas de dedos nas paredes. Claro que se Charlotte estivesse ali, eles também não estariam fazendo o que faziam, que era assistir a Tessa se transformar em Camille e depois nela mesma novamente. Jem estava sentado ao lado de Will na mesa da biblioteca, e de vez em quando, murmurava encorajamentos ou conselhos. Will, recostando-se nas mãos com uma maçã que tinha roubado da cozinha ao lado dele, fingia não estar prestando atenção. Mas ele estava. Tessa andava para lá e para cá no cômodo, com as mãos fechadas ao lado do corpo, que demonstrava sua concentração. Era fascinante observá-la se transformando: havia uma onda, como a formada pela água de uma lagoa quando alguém atira uma pedra, e o cabelo preto dela iria aos poucos se tornando loiro, seu corpo se curvando e se transformando de uma maneira que tornava impossível, para Will, desviar os olhos. Não era costumeiramente considerado educado encarar uma moça dessa maneira tão direta, mas mesmo assim, ele estava grato pela chance...

Ele estava, não estava? Ele piscou, como se quisesse clarear os pensamentos. Camille era linda – uma das mulheres mais bonitas que ele já havia visto. Mas a beleza dela o deixava frio. Era, como ele disse a Jem, como uma flor morta pressionada embaixo de vidro. Se seu coração estava disparado e seu olhar, hipnotizado, era pela própria Tessa. Ele disse a ele mesmo que isso era devido à fascinação por uma magia tão diferente, e não a adorável carranca que retorcia suas feições quando ela tinha dificuldade de imitar o jeito deslizante que Camille caminha – ou o jeito com que seu vestido se afastava da clavícula dela e caia por cima dos ombros quando ela voltava a ser ela mesma, ou a maneira com que seu cabelo preto, solto, espalhavam-se pelas bochechas dela e pelo pescoço dela enquanto ela balança a cabeça, frustrada – Ele pegou a maçã ao seu lado e começou a ostensivamente limpá-la na frente de sua camisa, esperando que isso disfarçasse suas mãos, subitamente trêmulas. Ter sentimentos por Tessa Gray não era aceitável. Ter sentimentos por qualquer pessoa era perigoso, mas sentimentos por uma garota que estava vivendo no Instituto – alguém que havia se tornado uma parte importante dos planos deles, alguém que ele não poderia evitar – eram especialmente perigosos.

Ele sabia o que precisava fazer nesse caso. Afastá-la, machucá-la, fazer com que ela o odiasse. E, mesmo assim, tudo dentro dele se rebelava contra essa ideia. Era porque ela estava sozinha, vulnerável, ele dizia para ele mesmo. Seria tão cruel fazer isso com ela...

Ela parou onde estava, jogando os braços para o alto e emitindo um ruído de frustração. "Eu simplesmente não consigo caminhar desse jeito!" exclamou ela. "O jeito com que Camille parece deslizar..."

"Você caminha com os pés muito para fora," disse Will, embora isso não fosse realmente verdade. Era o mais cruel que ele poderia ser, e Tessa o recompensou com um olhar duro de reprovação. "Camille caminha de uma maneira delicada. Como um fauno na floresta. Não como um pato." "Eu não caminho como um pato."

"Eu gosto de patos," disse Jem. "Especialmente os do parque Hyde." Ele sorriu de lado para Will, e Will sabia do que ele recordava: ele estava lembrando-se da mesma coisa. "Lembra quando você tentou me convencer a alimentar um pato com uma torta de frango no parque para ver se você conseguia criar uma raça de patos canibais?"

Ele sentiu Jem se balançar, rindo, ao lado dele. O que Jem não sabia é que os sentimentos de Will por patos – e sim, ele sabia que era ridículo ter sentimentos complicados acerca de aves aquáticas, mas não podia evitar – estavam misturados com memórias de sua infância. No País de Gales, houve um lago com patos em frente à sua casa de campo. Quando criança, Will frequentemente ia até lá, jogar pedaços de pão aos patos. Ele achava divertido observá-los grasnando e brigando pelos restos de sua torrada de café da manhã. Ou costumava achar, até que um dos patos – um pato particularmente grande – ao perceber que Will não tinha mais pão em seus bolsos, correu em direção ao garoto e mordeu-o com força no dedo.

Will tinha apenas seis anos, e fugiu rapidamente de volta à casa, onde Ella, já com oito anos e bastante superior a ele, riu absurdamente da história dele e depois fez um curativo no dedo dele. Will não teria mais pensado nesse assunto, se não fosse pela manhã seguinte quando, ao sair da casa pela porta da cozinha, ele se distraiu pela visão do mesmo pato preto, com seus olhos redondos fixados nele. Antes que Will pudesse se mover, o pato avançou nele e o mordeu com força na outra mão; e quando Will conseguiu gritar, o pato ofensivo já havia desaparecido em meio aos arbustos.

Dessa vez, enquanto Ella fazia o curativo no dedo de Will, ela disse, "O que você fez à pobre criatura, Will? Nunca ouvi falar de um pato vingativo antes." "Nada!" protestou Will, indignado. "Eu apenas não tinha mais pão, então ele me mordeu." Ella olhou para ele, a dúvida em seu olhar. Mas naquela noite, antes de Will ir dormir, ele afastou as cortinas de seu quarto para observar as estrelas – e viu, parado sem se mover nos jardins, a pequena figura de um pato, com os olhos grudados na janela do quarto dele.

O grito de Will trouxe Ella ao quarto, correndo. Juntos, eles observaram o pato pela janela, que parecia pronto para permanecer naquela posição a noite toda. Finalmente, Ella balançou a cabeça. "Eu vou lidar com isso," disse ela. Jogando suas tranças escuras para trás, ela seguiu em direção às escadas que levavam ao andar inferior.

Pela janela, Will a avistou saindo da casa. Ela marchou em direção ao pato e se inclinou em direção a ele. Por um momento, pareceu que eles estavam imersos em uma conversa. Depois de alguns minutos, ela se endireitou, e o pato deu meia volta, e com uma sacudida final das penas de seu rabo, caminhou para fora dos jardins. Ella se virou e voltou para dentro da casa.

Quando ela voltou ao quarto de Will, ele estava sentado na cama e olhando para ela com olhos enormes. "O que você fez?"

Ela sorriu presunçosamente. "Chegamos a um acordo, o pato e eu." "Que tipo de acordo?"

Ella se inclinou e, afastando as curvas grossas e escuras de seu cabelo do rosto dele, beijou a testa dele. "Nada com o que você precise se preocupar, querido. Vá dormir."

E Will o fez, e o pato nunca o incomodou novamente. Durante anos depois disso, ele perguntou a Ella o que ela havia feito para se livrar do maldito pato, e ela apenas ria em silêncio e não respondia. Quando ele fugiu de casa depois da morte dela, e estava à caminho de Londres, ele havia lembrado do beijo dela na testa dele – um gesto incomum para Ella, que não era tão afetuosa como Cecily, quem ele nunca conseguia realmente impedir de se agarrar às suas mangas – e essa lembrança havia sido como uma faca quente entrando nele; ele se encolheu com a dor e chorou.

Jogar tortas de frango aos patos no parque havia ajudado, de uma maneira estranha; ele havia pensado em Ella, primeiramente, mas a risada de Jem afastou um pouco da dor dessa lembrança, e ele pensava apenas em como sua irmã ficaria contente de vê-lo rindo naquele espaço verde, e como ele havia tido pessoas que o amaram na vida dele, e ainda tinha agora, mesmo que fosse apenas uma.

"E eles comeram," disse Will, mordendo um pedaço da maçã. Ele já havia praticado o suficiente para saber que nada do que ele estivera pensando havia transparecido em seu rosto. "Pequenas bestas sedentas de sangue. Nunca confie em um pato." Tessa olhou para ele de lado, e por um breve momento, Will teve uma sensação inquieta de que talvez ela tenha o visto melhor do que ele imaginava. Ela era Tessa agora; seus olhos eram cinzentos como o mar, e por uma longa pausa, tudo o que ele podia fazer era olhar para ela, todo o resto havia ficado esquecido – maçãs, vampiros, patos, e todo o resto no mundo que não fosse Tessa Grey.

"Patos," murmurou Jem, ao lado dele, baixo demais para que Tessa pudesse ouvir. "Você é louco, sabe disso, não sabe?" Will desviou o olhar dos olhos de Tessa. "Oh, eu sei."

Do Capítulo 14

fonte: "Cenas Deletadas" de AM no site

Um pedaço deletado da conversa entre Jem e Tessa na Ponte Blackfriars em que Jem fala mais sobre sua herança e o estado das relações entre a Grã-Bretanha e a China durante e depois das Guerras do Ópio.

"Havia um lugar na China", disse Jem, "chamado Yuánmíng Yuán. Os Jardins do Brilho Perfeito. Era uma residência imperial. Minha mãe foi lá para visitar o Imperador uma vez, uma espécie de visita embaixadora dos Nephilim. Ela disse que era o lugar mais lindo que já tinha estado. Havia jardins requintados, pinturas, música, belos pavilhões. Eles chamaram de "Jardim dos jardins". Ele olhou para a água. "Quinze anos atrás, os britânicos o destruíram completamente. Repreensões por algo que aconteceu durante a Guerra do Arrow. Eles mataram os guardas, roubaram tudo o que eles achavam que podiam vender e incendiaram o palácio. Levaram três dias para queimar. Não há de toda aquela beleza agora, somente pedras silenciosas e terra queimada."

"Sinto muito," disse Tessa, sem ter ideia do que mais poderia dizer.

"Ninguém aqui se importa, é claro", disse Jem. "Eles nunca ouviram falar dos Jardins. Lorde Elgin foi aquele que ordenou que os Jardins fossem queimados; por isso, o fizeram o vice-rei da Índia. Ele é um homem célebre agora. Pelo que ele fez no meu país, eu deveria odiar ele e a todos os ingleses que gostam dele."

Sua voz era fria e clara, e enviou um arrepio até a espinha de Tessa. Do outro lado da ponte, o casal passeando em um parapeito; o homem parecia estar apontando para algo na água, a mulher balançando a cabeça enquanto falava. "E você os odeia?"

"Não importa", disse Jem. "Eu sou mais do que qualquer outra coisa um Caçador de Sombras. Eu sou um irmão dos Nephilim da Inglaterra mais do que eu sou um irmão para qualquer mundano da terra onde eu nasci. E quando os Nephilim me olham, eles vêem apenas um Caçador de Sombras. São os mundanos que me olham e vêem algo que eles não entendem - um menino que não é muito branco e não tão estranho também."

"Assim como eu também não sou humana, e também não sou um demônio," Tessa disse suavemente.

Os olhos dele suavizaram. "Você é humana", disse ele. "Nunca pense que você não é. Eu vi você com seu irmão, eu sei como você se importa com ele. Se você pode sentir esperança, culpa, tristeza, amor, então você é humana."

Do Capítulo 17

fonte: "Cenas Deletadas" de AM no site

Nate e Tessa discutem sobre Jessamine enquanto ela não está por perto.

"Sabe," disse Nate, "estou me sentindo um pouco sedento - acho que gostaria de um chá. Se pudéssemos ligar para um servo?"

"Oh, querido, você deve estar sedento. Receio que tenha sido uma anfitriã negligente." Jessamine levantou-se, aflita. "Não há sinos na biblioteca, mas vou atrás de Sophie para que ela peça a Agnes para fazer uma bandeja para você."

Ela correu da sala, alisando as saias enquanto saia. Nate observou-a com um olhar apreensivo antes de se voltar para Tessa, que lhe lançou um olhar duvidoso.

"Você não quer chá realmente," disse ela. "Você odeia chá."

"Eu odeio, mas eu amo minha irmãzinha." Ele sorriu para ela. "Você estava parecendo miserável. Eu acho que você não gosta muito de Jessamine? Por que não? Ela parece adorável para mim."

"Ela é adorável com você. Nem tanto para o resto de nós." Tessa pensou em Jessamine agarrando-se a ela em Hyde Park e hesitou. "É só ... ela é como uma criança. Cruel às vezes e gentil outras vezes, com um capricho. Outras pessoas não são reais para ela. Claro que ela gosta de você – você não é um Caçador de Sombras. Ela despreza Caçadores de Sombras."

"Despreza?" A voz de Nate se aprofundou do jeito que ele fazia quando estava genuinamente interessado em algo.


Mapa de Londres

Um mapa de Londres, com certos lugares apresentados na série marcados e ilustrados no mapa. Foi lançado com as edições repaginadas de todos os volumes da série.
TID London map

Príncipe Mecânico

Uma Oferta de Luar

fonte: Site da Cassie; Idris Brasil

Isso acontece no Capítulo 9 Príncipe Mecânico, intitulado "Meia-Noite Feroz". A cena em que Tessa e Jem se beijaram pela primeira vez sob a perspectiva dele.

Eu gostaria de te oferecer o luar em um punhado
— Zhang Jiu Ling

A primeira coisa que Jem fez no momento que entrou em seu quarto foi ir direto até a caixa de yin fen em sua mesa de cabeceira.

Ele normalmente colocava a droga em uma solução de água, deixando dissolver e depois bebia, mas ele estava muito impaciente agora; ele pegou um pouco entre o indicador e o dedão e chupou a droga diretamente de seus dedos. Tinha gosto de açúcar queimado e deixou o interior de sua boca dormente. Ele fechou a caixa com força, com um sentimento de satisfação sombrio.

A segunda coisa que ele fez foi pegar seu violino.

A névoa estava densa contra as janelas, como se elas tivessem sido pintadas com chumbo. Se não fosse pelas tochas de luz enfeitiçada queimando fracamente, não haveria iluminação suficiente para ele ver o que ele estava fazendo enquanto ele abria a caixa que guardava seu Guarneri e pegava o instrumento de dentro dela. Um fragmento de uma das músicas de Bridget tocou em sua cabeça: Estava escuro, uma noite escura, não havia luz das estrelas, e eles atravessaram por sangue até os joelhos.

Escuro, uma noite escura de fato. O céu estava preto como piche em Whitechapel. Jem pensou em Will, parado na calçada, olhos perdidos e sorrindo ironicamente. Até que Jem o acertou. Ele nunca havia batido em Will antes, não importa o quão louco seu parabatai estivera. Não importava o quão destrutivo ele estivesse com outras pessoas, não importava sua crueldade casual, não importava seu humor que era como a ponta de uma faca, Jem nunca havia batido nele. Até agora.

O arco já estava resinado, ele flexionou os dedos antes de pegá-lo e respirou fundo diversas vezes. Ele já podia sentir o yin fen surgindo por suas veias, acendendo seu sangue como fogo acendendo a pólvora. Ele pensou em Will novamente, dormindo na cama no covil do ópio. Ele estava corado, seu rosto suave e inocente durante o sono, como uma criança com a bochecha apoiada na mão como um travesseiro. Jem se lembrava de quando Will era jovem assim, apesar de nunca se lembrar de um tempo em que ele fosse inocente.

Ele posicionou o arco nas cordas e tocou. Tocou suavemente no início. Ele tocou Will perdido em sonhos, encontrando consolo na névoa das drogas que abafava seu sofrimento. Jem só poderia invejá-lo por isso. O yin fen não era um bálsamo: ele não encontrava nele o que quer que os viciados em ópio encontravam em seus cachimbos ou alcoólatras encontravam no fim de suas garrafas de gim. Havia apenas exaustão e falta de energia sem ele e, com ele, energia e febre. Mas não havia fim para o sofrimento.

Os joelhos de Jem cederam e ele afundou até o baú que ficava no pé de sua cama, ainda tocando. Ele tocou Will suspirando o nome Cecily, e ele tocou ele mesmo vendo o brilho de seu próprio anel nas mãos de Tessa no trem de York, sabendo que tudo era uma piada, sabendo também que ele queria que não fosse. Ele tocou o sofrimento nos olhos de Tessa, quando ela foi até a sala de música depois que Will disse a ela que ela nunca teria filhos. Imperdoável isso, que coisa a se fazer, e ainda assim Jem o perdoou. Amor era perdão, ele sempre acreditou nisso, e as coisas que Will fazia, ele fazia de algum poço sem fundo de dor. Jem não sabia a fonte dessa dor, mas sabia que existia e que era real, sabia disso como sabia da inevitabilidade de sua própria morte, sabia disso assim como sabia que ele tinha se apaixonado por Tessa Gray e que não havia nada que ele, ou ninguém, pudesse fazer quanto a isso.

Ele tocava isso agora, tocava todos os seus corações partidos e o som do violino o encobriu e o elevou e ele fechou os olhos –

A porta dele se abriu. Ele ouviu o som por entre a música, mas por um momento não deu confiança, foi a voz de Tessa que ele ouviu, dizendo seu nome. “Jem?”

Claro que isso era um sonho, conjurado pela música e pela droga e por sua própria mente febril. Ele continuou tocando, tocou sua própria fúria e raiva de Will, porque apesar de poder perdoar Will por sua crueldade com os outros, ele nunca poderia perdoa-lo por colocar-se em perigo.

“Jem!” chamou a voz de Tessa novamente e de repente havia mãos nas dele, tirando o arco de seu punho. Ele soltou em choque, encarando-a. “Jem, pare! Seu violino – seu adorável violino – você vai estragá-lo.”

Ela ficou em pé frente à ele, um robe jogado por cima de sua camisola. Ele se lembrava daquela camisola: ela estava usando-a na primeira vez que ele a viu, quando ela foi até seu quarto e ele pensou por um momento que ela fosse um anjo. Ela estava respirando rapidamente agora, seu rosto corado, seu violino preso à uma mão e o arco em outra.

“O que isso importa?” ele perguntou. “O que qualquer coisa dessas importa? Eu estou morrendo – Eu não ultrapassarei essa década, o que importa se o violino for antes de mim?” Ela olhou para ele com os olhos arregalados, seus lábios separados em espanto. Ele ficou de pé e virou de costas pra ela. Ele não podia mais suportar olhar para o rosto dela, ver o desapontamento com ele, com sua fraqueza. “Você sabe que é verdade.”

“Nada está decidido.” A voz dela estremeceu. “Nada é inevitável. Uma cura –“

“Não existe cura. Eu vou morrer e você sabe disso, Tess. Provavelmente dentro do próximo ano. Eu estou morrendo e eu não tenho família nesse mundo, e a única pessoa na qual eu mais confiei nesse mundo brinca com aquilo que está me matando.”

“Mas Jem, eu não acho que foi isso que Will quis fazer de forma alguma.” Ela tinha colocado de lado seu violino e arco e estava se movendo em direção a ele. “Ele só estava tentando escapar – ele estava fugindo de algo, algo sombrio e terrível, você sabe que ele estava, Jem. Você viu como ele ficou depois – depois de Cecily.”

“Ele sabe o que isso significa pra mim,” ele disse. Ela estava logo atrás dele: ele podia sentir o leve perfume de sua pele: água de violeta e sabão. A urgência de virar e tocá-la era irresistível, mas ele se segurou firme. “Vê-lo até mesmo brincando com o que destruiu minha vida –“

“Mas ele não estava pensando em você –“

“Eu sei disso.” Como ele poderia dizer isso? Como ele poderia explicar? Como ele poderia dizer a ela que Will foi o que ele devotou sua vida: a reabilitação de Will, a bondade inata de Will. Will era o espelho quebrado de sua própria alma que ele passou anos tentando consertar. Ele poderia perdoar Will machucando qualquer um menos ele mesmo. “Eu digo a mim mesmo que ele é melhor do que ele deixa transparecer, mas Tessa, e se ele não for? Eu sempre pensei que se eu não tivesse nada, pelo menos eu tinha Will – se eu não tivesse feito nada que fizesse minha vida importar, pelo menos eu sempre estive ali pra ele – mas talvez eu não devesse.”

“Oh, Jem.” A voz dela era tão suave que ele virou. Seu cabelo escuro estava se desfazendo: caía em torno de seu rosto e ele teve o mais absurdo impulso de enterrar as mãos neles, trazê-la pra perto, suas mãos envolvendo as costas do pescoço dela. Ela estendeu uma mão macia pra ele e por um momento, esperança selvagem tomou conta dele, imparável como as ondas – mas ela apenas a colocou contra sua testa, cuidadosa como uma enfermeira. “Você está queimando. Deveria estar descansando –“

Ele se afastou rapidamente dela, antes que não pudesse parar. Os olhos cinzas dela se arregalaram. “Jem, o que foi isso? Você não quer que eu o toque?”

“Não dessa forma.” As palavras saíram antes que ele pudesse se controlar. A noite, Will, a música, o yin fen, tudo destrancou algo nele – ele mal reconhecia seu próprio eu, esse estranho que falou a verdade, e a falou severamente.

“Dessa forma como?” A confusão estava estampada no rosto dela. A pulsação dela estava visível na lateral de sua garganta; onde sua camisola estava aberta ele podia ver a curva suave de sua clavícula. Ele afundou os dedos nas palmas das mãos. Ele não podia mais retirar as palavras. Era nadar ou se afogar.

“Como se você fosse uma enfermeira e eu seu paciente,” ele disse à ela. “Você acha que eu não sei que quando você pega minha mão é apenas para que possa sentir meu pulso? Você acha que eu não sei que quando você me olha nos olhos é apenas para checar o quanto de droga eu tomei? Se eu fosse um outro homem, um homem normal, eu poderia ter esperanças, presunções até; eu poderia – “ Eu poderia querer você. Ele se calou antes de dizer isso. Isso não poderia ser dito. Palavras de amor eram uma coisa, palavras de desejo eram perigosas como uma encosta rochosa onde um navio poderia naufragar. Não havia esperança, ele sabia que não havia esperança, e ainda assim –“

Ela balançou a cabeça. “Essa é a febre falando, não você.”

Nenhuma esperança. O desespero o cortou como uma faca cega e ele disse as próximas palavras sem pensar: “Você nem pode acreditar que eu poderia querer você. Que eu estou vivo o suficiente, saudável o suficiente –“

“Não –“ Ela pegou no braço dele e foi como ter 5 marcas de fogo por sobre sua pele. Desejo passou por ele como dor. “James, isso definitivamente não foi o que eu quis dizer –“

Ele colocou a mão por cima da dela, onde ela segurava seu braço. Ele ouviu ela segurar o ar – forte, surpresa. Mas não horrorizada. Ela não puxou para longe. Ela não removeu a mão dele. Ela o deixou segurá-la e virá-la, para que eles ficassem cara a cara, perto o suficiente para respirar um ao outro.

“Tessa,” ele disse. Ela olhou para cima, para ele. A febre bateu nele como sangue e ele não sabia mais o que era desejo e o que era a droga ou se um simplesmente intensificou o outro, e isso não importava, não importava porque ele a queria, ele a queria há tanto tempo. Os olhos dela estavam enormes e cinzas, suas pupilas dilatadas e seus lábios estavam entreabertos em um suspiro como se ela estivesse prestes a falar, mas antes que ela pudesse falar ele a beijou.

O beijo explodiu em sua cabeça como fogos de artifício no dia de Guy Fawkes. Ele fechou os olhos em um redemoinho de cores e sensações, quase muito intensos para suportar: os lábios dela eram macios e quentes sob os dele e ele se encontrou correndo os dedos pela face dela, nas curvas de suas maçãs do rosto, na pulsação martelando em sua garganta, na pele suave da parte de trás de seu pescoço. Precisou de cada partícula de controle para que ele a tocasse gentilmente, para que não a esmagasse contra ele, e quando ela subiu os braços e os cruzou envolta de seu pescoço, suspirando em sua boca, ele teve que sufocar um suspiro e por um momento se segurar firme ou eles estariam no chão.

As próprias mãos dela nele eram gentis, mas não confundiam seu encorajamento. Os lábios dela murmuravam contra os dele, sussurrando seu nome, o corpo dela era macio e forte em seus braços. Ele seguiu o arco das costas dela com as mãos, sentindo a curva dela por debaixo de seu robe e ele não conseguiu parar a si mesmo: ele a puxou tão forte para perto dele que os dois tropeçaram e caíram de costas na cama.

Tessa se acomodou no colchão e ele se colocou por cima dela. O cabelo dela se soltou de suas tranças e se espalhou escuro e solto sobre os travesseiros. Um rubor se espalhava pelo rosto dela e descia até a gola de sua camisola, manchando sua pele pálida. A pressão quente do corpo contra corpo era atordoante, não era como nada que ele havia imaginado, mais poderoso e delicioso que a música mais delirante. Ele a beijou de novo e de novo, cada vez mais forte, saboreando a textura de seus lábios contra os dele, o gosto da boca dela, até que a intensidade disso ameaçou passar de prazer para dor.

Ele deveria parar, ele sabia. Isso tinha ido além da honra, além de qualquer limite de propriedade. Ele havia imaginado, algumas vezes, beijando-a, cuidadosamente envolvendo seu rosto entre suas mãos, mas nunca havia imaginado isso: que eles estariam envoltos tão fortemente entre si que ele mal conseguiria dizer onde ele terminava e ela começava. Que ela o beijaria e o acariciaria e correria os dedos em seus cabelos. Que quando ele exitou com os dedos no laço de seu robe, a parte sensata de seu cérebro mandando que seu corpo rebelde e teimoso parasse, que ela simplesmente resolveria o dilema desfazendo ela mesma o fecho, deitando enquanto o material caía envolta dela e olharia para ele vestindo apenas sua fina camisola.

O queixo dela estava erguido, determinação e sinceridade em seus olhos, os braços erguidos o recebendo de volta para ela, envolvendo-o, puxando-o para perto. “Jem, meu Jem,” ela sussurrou e ele sussurrou de volta, perdendo suas palavras contra a boca dela, sussurrando o que era verdade, mas que ele esperava que ela não entendesse. Ele sussurrou em chinês, preocupado que se ele falasse em inglês ele diria algo profundamente estúpido. Wo ai ni. Ni hen piao liang, Tessa. Zhe shi jie shang, wo shi zui ai ni de.

Mas ele viu os olhos dela escurecerem; ele sabia que ela lembrou que era o que ele havia dito pra ela na carruagem. “O que isso quer dizer?” ela sussurrou.

Ele pausou contra o corpo dela. “Significa que você é linda. Eu não quis te dizer antes. Eu não queria que você achasse que eu estava tomando liberdades.”

Ela o alcançou e tocou sua bochecha. Ele podia sentir seu coração batendo contra o dela. Parecia que ele poderia bater inteiramente fora de seu corpo.

“Tome-as,” ela sussurrou.

O coração dele saltou e ele a puxou para cima, contra ele, algo que ele nunca havia feito antes, mas ela não se importou com sua falta de jeito. As mãos dela estavam passeando gentilmente sobre ele, conhecendo seu corpo. Os dedos dela acariciaram os ossos de seus quadris, o topo de seu colarinho. Eles se entrelaçaram em sua camisa e puxaram-na para cima, passando por sua cabeça, e ele estava inclinado sobre ela, sacudindo o cabelo prateado para fora de seu rosto. Ele viu os olhos dela se expandirem e sentiu suas entranhas se apertarem.

“Eu sei,” ele disse olhando para baixo, para si mesmo – pele como papel machê, costelas como cordas de violino. “Eu não sou – eu digo, eu pareço –“

“Lindo,” ela disse e a palavra era uma afirmação. “Você é lindo, James Carstairs.”

A respiração se acalmou em seus pulmões e eles estavam se beijando novamente, as mãos dela quentes e suaves contra a pele nua dele. Ela o tocou com carícias hesitantes e curiosas, mapeando um corpo que parecia florescer sob seus cuidados como algo perfeito, saudável: não mais um dispositivo frágil de carne que enfraquece rapidamente, presa a uma estrutura de ossos quebráveis. Apenas agora que isso estava acontecendo que ele percebeu o quão sinceramente ele acreditava que nunca iria acontecer.

Ele podia sentir as lufadas suaves e nervosas da respiração dela contra a pele sensível de sua garganta enquanto ele passava suas mãos para cima por sobre seu corpo. Ele a tocou como tocaria seu violino: foi como ele aprendeu como tocar algo que era precioso e amado. Ele havia carregado o violino em seus braços de Xangai até Londres, e ele carregou Tessa também, em seu coração, por mais tempo do que ele podia lembrar. Quando isso aconteceu? As mãos dele tocaram-na pela camisola, a curva e a inclinação da cintura e dos quadris dela como as curvas do Guarneri, mas o violino não dava suspiros gratificantes quando ele o tocava, não procurava sua boca para beijos, ou tinha pálpebras que se fechavam quando ele tocava a pele sensível atrás de seu joelho.

Talvez tenha sido no dia em que ele subiu correndo as escadas para ela e beijou sua mão. Mizpah. Que o Senhor nos vigie, a mim e a você, quando estivermos separados um do outro. Foi a primeira vez que ele pensou que havia algo mais em seu interesse do que apenas o interesse comum por uma garota bonita que ele não poderia ter, que havia um aspecto de algo sagrado.

Os botões de pérola da camisola dela eram suaves contra os dedos dele. O corpo dela se inclinou para trás, sua garganta arqueada enquanto o material escorregava para o lado, deixando seu ombro despido. A respiração estava rápida na garganta dela, os cachos de seus cabelos castanhos presos em suas bochechas coradas e testa, o material do vestido dela esmagado entre os dois. Ele mesmo estava tremendo quando se curvou para beijar a pele nua dela, pele que provavelmente ninguém além dela mesma e talvez Sophie, tenham visto, e sua mão subiu para tocar sua cabeça, passando pelo cabelo na parte de trás de seu pescoço…

Houve um som de uma trombada. E uma névoa sufocante de yin fen encheu o quarto.

Foi como se Jem tivesse engolido fogo; ele se empurrou para trás e para longe de Tessa com tanta força que ele quase desequilibrou os dois. Tessa se sentou também, juntando a frente de seu robe, sua expressão de repente auto-consciente. Todo o calor de Jem tinha sumido, sua pele estava repentinamente congelando – com vergonha e medo por Tessa – ele nunca nem sonhou com ela estando tão perto dessa coisa venenosa que destruiu a vida dele. Mas a caixa de laca estava quebrada: uma camada grossa de pó brilhante estava espalhada pelo chão; e mesmo enquanto Jem respirou fundo para dizer-lhe que ela deveria ir, que ela deveria deixá-lo para que ficasse segura, ele não pensou na perda da preciosa droga ou no perigo para ele se ela não pudesse ser recuperada. Ele apenas pensou:

Não mais.

O yin fen tirou muito de mim: minha família, os anos da minha vida, a força em meu corpo, o ar em meus pulmões. Ele não vai tirar isso de mim também: a coisa mais preciosa que nos é dada pelo Anjo. A habilidade de amar. Eu amo Tessa Gray.

E eu me certificarei de que ela saiba disso.

[Traduzido por Nanda Carstairs e enviando à equipe IdrisBR. Todos os créditos a tradutora.]

Do Capítulo 17

fonte:Tweet de Cassandra Clare no twishort
Nota de CC: Eu prometi ao meu Grupo do Google que eu publicaria algo para eles quando atingíssemos 5.000 membros. Então, aqui está uma cena excluída do Príncipe Mecânico e, no final, uma linha da City of Lost Souls. A cena do CP nunca aparece no texto e eu exporei alguns spoilers.

A escuridão veio e foi em ondas que cresceram cada vez mais devagar. Tessa estava começando a se sentir mais leve, menos como se um peso horrível a pressionasse. Ela se perguntou quanto tempo havia passado. Era noite na enfermaria, e ela podia ver Will algumas camas longe dela, uma figura enrolada sob os cobertores, cabeça escura pousada em seu braço. Irmão Enoch lhe deu uma infusão para beber uma vez que o [redigido] foi cortado de sua pele, e ele adormeceu quase que instantaneamente, graças a Deus. A visão dele com tanta dor tinha sido mais angustiante do que ela poderia ter imaginado.

Ela estava com uma camisola branca limpa agora; alguém deve ter cortado suas roupas endurecidas pelo sangue e lavado os cabelos antes de enfaixá-la – ficou suavemente sobre os ombros, não mais torcida em caudas de rato de emaranhados e sangue secando.

"Tessa," veio uma voz sussurrada. "Tess?"

Somente Will me chama disso. Ela abriu os olhos, mas era Jem que estava sentado ao lado de sua cama, olhando para ela. A luz da lua que se espalhava através dos forros altos o tornava quase transparente, um anjo etéreo, todo prata exceto pela corrente de ouro na garganta.

Ele sorriu. "Você está acordada."

"Eu estive acordada aqui e ali." Ela tossiu. "Suficiente para saber que estou bem além de uma rachadura na cabeça. Um monte de barulho sobre nada..." Os olhos de Tessa abaixaram e ela viu que Jem estava carregando alguma coisa nas mãos: uma espessa caneca de algum líquido que enviava um vapor perfumado. "O que é isso?"

"Uma das infusões do Irmão Enoch," disse Jem. "Isso irá ajudá-la a dormir."

"Tudo o que tenho feito é dormir!"

"E é muito divertido assistir," disse Jem. "Você sabia que você torceia o nariz quando você dorme, como um coelho?"

"Eu não faço isso," disse ela, com uma risada sussurrada.

"Você faz," disse ele. "Felizmente, eu gosto de coelhos." Ele entregou-lhe o copo. "Beba apenas um pouco," disse ele. "É certo que você durma. O Irmão Enoch diz para pensar nas feridas e choques do seu espírito como você pensaria nas feridas e choques para o seu corpo. Você deve descansar a parte ferida de si mesmo antes de começar a curar."

Tessa estava duvidosa, mas ela tomou um gole da infusão de qualquer maneira, e depois outro. Tinha um sabor agradável, como canela. Mal tinha engolido o segundo bocado quando uma sensação de exaustão a varreu. Ela se deitou contra os travesseiros, escutando a voz suave dele contando-lhe uma história sobre uma bela jovem cujo marido morreu construindo a Grande Muralha da China, e que havia chorado tanto pela perda que ela havia se transformado em um peixe prateado e nadado para longe em um rio. Quando Tessa mergulhou em sonhos, sentiu suas mãos gentis tirar o copo dela e colocá-lo na mesa de cabeceira. Ela queria agradecê-lo, mas já estava dormindo.

O Todo

fonte: Tumblr de Cassandra Clare

"E é isso?" Disse Jem. "Essa é a totalidade disso? A verdade?"

Ele estava sentado em sua escrivaninha, uma das pernas dobradas na cadeira embaixo dele; ele parecia muito jovem. Seu violino estava apoiado no lado da cadeira. Ele estava jogando quando Will entrou e, sem preâmbulo, anunciou que agora era o fim da pretensão: Will teria uma confissão a fazer, e ele queria fazê-lo agora. Esse tinha sido o fim da música: Jem colocou seu violão com um olhar assustado e se inclinou para trás, tenso como se ele estivesse se preparando para o que Will pudesse jogar sobre ele.

"Isso é tudo," disse Will, que andava de um lado para o outro enquanto falava, e agora apenas parou para olhar para Jem. "E eu não culpo você se você me odeia. Eu poderia entender."

Houve uma longa pausa. O olhar de Jem estava firme em seu rosto, firme e prata na luz vacilante do fogo. "Eu nunca poderia te odiar, William".

As entranhas de Will se contraíram quando viu outro rosto, um par de olhos cinza-azulados firmes olhando para o dele. "Eu nunca poderia te odiar Will, não importava o quanto eu tentasse," disse ela.

Naquele momento, ele estava dolorosamente consciente de que o que ele havia dito a Jem não era "o todo." Havia mais verdade. Havia seu amor por Tessa. Mas era seu fardo suportar, não o de Jem. Era algo que deve ser escondido para que Jem seja feliz. "Eu mereço," Will disse, sua voz se quebrando. "Eu acreditei que eu estava amaldiçoado de que todos os que cuidavam de mim morreriam; ainda me deixei cuidar de você, e deixo você ser um irmão para mim, arriscando o perigo para você..."

"Não houve perigo."

"Mas eu acreditei que havia. Se eu segurasse uma pistola na sua cabeça, James, e puxasse o gatilho, isso realmente importaria se eu não soubesse que não havia balas nas câmaras?"

Os olhos de Jem se arregalaram, e então ele riu, uma risada suave. "Você achou que eu não sabia que você tinha um segredo?" ele disse. "Você achou que entrei em minha amizade com você com os olhos fechados rapidamente? Não conhecia a natureza do peso que carregava. Mas eu sabia que havia um fardo." Sua voz suavizou. "Eu sabia que você se considerava veneno para todos aqueles que estavam ao seu redor," continuou ele. "Eu sabia que você achava que haveria alguma força corrupta sobre você que me quebraria. Eu queria mostrar-lhe que eu não iria quebrar. Que o amor não era tão frágil. Eu fiz isso?"

Will deu de ombros uma vez, impotente. Quase desejava que Jem ficasse bravo com ele. Seria mais fácil enfrentar. Mas como ele poderia dizer a Jem que esse perdão o perseguiria, cada vez que ele olhava para Tessa e queria ela, cada vez que ele se lembrasse de quanto ele queria o que ele não podia, não merecia, para ter. "Você salvou minha vida, James."

Um sorriso se espalhou pelo rosto de Jem, tão brilhante quanto o nascer do sol que atravessava o Tamisa. "Isso é tudo que eu sempre quis."

Carta de Will para sua família

fonte: Site da Cassandra Clare; Idris Brasil
Uma carta que Will escreveu para seu pais em seu aniversário de 17 anos, não enviada e inacabada. Todas as primeiras edições impressas de Príncipe Mecânico na América do Norte, Reino Unido/Irlanda, Australia/Nova Zelândia, assim como todas as edições brasileiras, contém essa carta belamente formatada de Will para sua família, que ele nunca enviou, em seu interior. Uma versão narrada por Ed Westwick por ser ouvida aqui.

Mãe, Pai:

Hoje é meu décimo sétimo aniversário. Sei que escrever para vocês é uma transgressão. Sei que provavelmente rasgarei esta carta em pedaços quando terminar, como fiz em todos os meus aniversários desde o de 12 anos. Mas escrevo mesmo assim, para comemorar a ocasião, da mesma forma que alguns fazem peregrinações anuais a um túmulo e recordam diante dele a morte de uma pessoa amada. Afinal, não estamos mortos um para o outro?

Fico imaginando se, quando acordaram hoje de manhã, se lembraram de que há 17 anos tiveram um filho. Fico imaginando se pensam em mim e imaginam minha vida aqui no Instituto em Londres. Duvido que possam imaginar. É tão diferente da nossa casa cercada por montanhas e pelo céu azul, enorme e claro, e pelo verde infinito, Aqui tudo é negro, cinza e marrom, e todo pôr do sol é tingido de fumaça e sangue.

Fico imaginando se vocês se preocupam com a possibilidade de eu ser solitário, ou, com a possibilidade de eu estar com frio, ou ter saído na chuva sem chapéu. Ninguém aqui se preocupa com esses detalhes. Existem tantas coisas que podem nos matar a qualquer instante que um pouco de frio não parece importante.

Fico imaginando se sabiam que eu podia escutá-los naquele dia que vieram me buscar quando eu tinha 12 anos. Arrastei-me para baixo da cama para não ouvir vocês gritando meu nome. Mas ouvi. Ouvi mamãe gritar pelo fach, seu pequenino. Mordi as mãos até sangrarem, mas não desci, e eventualmente Charlotte os convenceu a se retirarem. Pensei que talvez pudessem voltar, mas não voltaram. É a teimosia dos Herondale.

Lembrei-me dos grandes suspiros de alívio que vocês dois soltavam cada vez que o Conselho aparecia para perguntar se eu desejava abandonar minha família e me juntar aos Nephilim e eu recusava, mandando-os embora. Fico imaginando se sabiam que eu eratentado pela idéia de uma vida de glória, dedicada a lutar e matar em nome da proteção, como um homem deve fazer. Está no nosso sangue: o chamado para serafim e estela, para Marcas e monstros.

Fico imaginando por que deixou os Nephilim, pai, fico me perguntando por que mamãe escolheu não Ascender e se tornar Caçadora de Sombras. É porque os achava frios e cruéis? Eu não achei. Charlotte é especialmente gentil comigo, nem imagina como não mereço. Henry é doido de pedra, mas é um bom sujeito: teria feito Ella rir. Há poucas coisas boas a serem ditas sobre Jessamine, mas ela é inofensiva. Por outro lado, tenho muitas coisas boas a falar sobre Jem – ele é o irmão que papai sempre achou que eu devesse ter, sangue do meu sangue, apesar de não sermos parentes. Apesar de eu ter perdido tudo, pelo menos ganhei uma coisa com a amizade dele. E temos uma nova adição a nossa casa. O nome dela é Tessa. Um nome muito bonito, não? Quando as nuvens vêm do oceano cobrir as montanhas – o cinza delas é o mesmo de seus olhos.

E agora vou revelar uma terrível verdade, pois não pretendo mesmo enviar essa carta. Vim para o Instituto porque não tinha para onde ir. Nunca esperei que fosse ser minha casa, mas no meu tempo aqui, descobri que sou um verdadeiro Caçador de Sombras. De algum jeito, meu sangue me diz que nasci para fazer isso. Se ao menos eu tivesse sabido antes e ido com a Clave na primeira vez em que me chamaram, talvez pudesse ter salvado a vida de Ella. Talvez pudesse ter salvado a minha.

Seu filho,
Will

Carta, Will para Tessa

fonte: Post no Tumblr; Idris Brasil
Uma dedicatória de Will para Tessa em uma cópia de Um Conto de Duas Cidades. Disponível nas edições especiais de Príncipe Mecânico da Barnes and Noble e Indigo Chapter.

Tess, Tess, Tessa

Já houve um som mais lindo do que o seu nome? Falar em voz alta faz meu coração bater como um sino. Estranho imaginar, não é – um coração batendo – mas quando você me toca, é como é: como se meu coração está tocando no meu peito e o som trás arrepios em minhas veias e estilhaça meus ossos com alegria.

Por que eu escrevi estas palavras neste livro? Por causa de você. Você me ensinou a amar este livro que eu tinha desprezado. Quando o li pela segunda vez, com uma mente e coração abertos, eu senti o desespero mais completo e inveja de Sydney Carton. Sim, Sydney, pois mesmo que ele não tivesse esperança de que a mulher que ele amava o amaria, pelo menos ele poderia dizer-lhe seu amor. Pelo menos ele poderia fazer alguma coisa para provar sua paixão, mesmo que a coisa fosse morrer.

Eu teria escolhido a morte por uma chance de dizer a verdade, Tessa, se eu pudesse ter a garantia de que a morte seria a minha própria. E é por isso que eu invejava Sydney, pois ele era livre.

E agora que finalmente estou livre, e finalmente posso dizer, sem medo de machucar você, tudo o que eu sinto no meu coração.

Você não é o último sonho da minha alma.

Você é o primeiro sonho, o sonho que eu nunca fui capaz de parar de sonhar. Você é o primeiro sonho da minha alma, e desse sonho eu espero que venham todos os outros sonhos que valham uma vida inteira.

Com, finalmente, esperança, Will Herondale.

Princesa Mecânica

Árvore Genealógica

Esta árvore genealógica foi apresentada nas primeiras edições de Princesa Mecânica. Na edição brasileira, lançada pela Galera Record, a árvore consta em todas as edições.

Árvore Genealógica

Cassandra Clare declarou diversas vezes que essa árvore genealógica das famílias Carstairs, Herondale e Lightwood é meramente um objeto encontrado na série e é na verdade subjetiva e imcompleta, aparentemente contendo somente os personagens de As Peças Infernais e seus filhos, alguns dos quais estarão em As Últimas Horas, e seus principais descendentes levando até os personagens apresentados em Os Instrumentos Mortais.[1] A árvore genealógica também não incluiu vários parentes do sexo feminino (além das necessárias para a série de acompanhamento imediata) como a árvore focada nos homens que iriam levar o nome da família.[2] Parte dos registros dos Carstairs, ditos estarem ausentes ou perdidos, também foi destruída, possivelmente deliberadamente, por alguma razão.[3][4]

Também é bastante enganosa, uma vez que a árvore genealógica só contém informações consideradas verdadeiras por quem a escreveu. A desinformação pode incluir uma falsificação política, um casamento secreto, fingido, arranjado ou fixo (embora possa não ser isso)[5], adoções,[6] pessoas sendo secretamente mortas, pessoas sendo secretamente outras pessoas, mortes falsas ou pessoas escritas como mortas quando, de fato, só se transformaram ou se tornaram Seres do Submundo ou mundanos, entre outras naturezas de erros – intencionais ou não.[3][7][8][9][10][11][12][4][13] Os relacionamentos reais, a serem mais explorados em As Últimas Horas, podem mesmo ser muito diferentes dos mostrados na árvore.[14] As falácias e pretensões da árvore genealógica encontrada serão esclarecidas ou ferão sentido até o final de As Últimas Horas.[3]

Capítulo 22

fonte: Tumblr da Cassandra Clare; Idris Brasil
Uma cena reescrita de Princesa Mecânica. É a cena que começa por volta da página 468, com Will no quarto de Henry.

"A Tessa acordou!" anunciou Charlotte, feliz, abrindo a porta do quarto dela e de Henry, como um beija-flor excitado.

Will, que estava sentado na cadeira ao lado da cama de Henry, levantou imediatamente, o livro que estava lendo deslizando de seu colo. "Tess – a Tessa acordou?" gaguejou ele. "E ela está..."

"Sim, falando, e o Irmão Enoch disse que ela está bastante bem, apesar de exausta." "Eu desejo vê-la," disse Will, e começou a se mover em direção à porta, mas Charlotte ergueu uma das mãos.

"Dê um momento a ela, Will; a Sophie está com ela, ajudando-a a se vestir."

Will sabia o que "ajudando-a a se vestir" significava: se ele as interrompesse agora, Tessa estaria no banho. Uma onda de desejo, misturada com uma pontada de culpa, o acertou como um trem. Ele se sentou rapidamente, procurando o livro no chão.

Charlotte olhou na direção dele, com um sorriso se curvando no canto da boca. Claramente, ele estava fornecendo a ela um pouco de divertimento. "Você esteve lendo poesia a Henry?" perguntou ela.

"Sim, algo terrível, tudo cheio de poesia," disse Henry, rabugento. Ele estava completamente vestido, apoiado em seus travesseiros na cama com uma caneta em uma das mãos e papéis espelhados no acolchoado ao redor dele. Will não o culpava por sua rabugice. Tessa esteve adormecida e Henry, de cama, por três dias, quando os Irmãos do Silêncio reuniram os membros do Instituto ao redor da cama de Henry para contar a ele que embora ele fosse viver, ele não caminharia de novo. Mesmo com toda a magia que os Irmãos tinham a seu dispor, não havia mais o que pudessem fazer.

Henry encarou as novidades com a mesma força de espírito de sempre, e a decisão de construir uma cadeira para si mesmo, como uma cadeira para inválidos, só que melhor, com rodas auto-propulsoras e todo o tipo de apetrechos: ele estava determinado que ela seria capaz de subir e descer escadas, para que ele ainda pudesse chegar às suas invenções na cripta. Ele tinha estado rabiscando desenhos para a cadeira durante toda a hora em que Will esteve lendo Idylls of the King para ele, mas poesia nunca havia sido uma área que interessasse Henry.

"Bem, você está dispensado de seus deveres, Will, e Henry, você está livre de futuros poemas," disse Charlotte. "Se você quiser, querido, posso ajudá-lo a juntar suas anotações..."

Houve uma batida na porta, e Charlotte, franzindo o cenho, foi ver quem era. Um momento depois, ela retornou, um olhar sombrio em seu rosto. Ela lançou um olhar a Will, e no momento seguinte, ele descobriu o motivo: dois Irmãos do Silêncio estavam parados em frente a ela, e um deles era Jem.

Will sentiu seu peito apertar. Desde a batalha em Cader Idris, ele e Jem não haviam se falado.

Will tinha tido certeza que todos eles iriam morrer, juntos, lá, embaixo da montanha, até que Tessa usou o brilho da glória do Anjo e abateu Mortmain como um raio quando cai em uma árvore. Foi uma das coisas mais maravilhosas que Will já tinha visto, mas seu assombro foi rapidamente substituído por terror quando Tessa desmaiou depois da Transformação, sangrando e inconsciente, não importa o quanto eles tentassem acordá-la. Magnus, perto da exaustão, quase não conseguiu abrir um Portal para voltarem ao Instituto com a ajuda de Henry, e Will só se lembrava de borrões depois disso, uma névoa de exaustão e sangue e medo, mais Irmãos do Silêncio sendo chamados para assistir os feridos, e as informações vindas do Conselho de todos que haviam sido mortos naquele dia, antes dos autômatos que os atacaram terem parado de funcionar com a morte de Mortmain. E Tessa – que não falava, não acordava, quase não respirava. Tessa sendo carregada para o quarto dela e ele, que não podia ir com ela. Como não era nem irmão nem marido, ele podia apenas ficar parado e olhar para ela, abrindo e fechando as mãos, que estavam manchadas de sangue. Ele nunca havia se sentido tão desamparado.

E quando ele foi encontrar Jem, para dividir o medo com a única pessoa no mundo que amava Tessa tanto quanto ele – Jem havia ido embora, de volta à Cidade do Silêncio, sob ordens dos Irmãos. Tinha ido embora sem ao menos se despedir.

Embora Cecily tenha tentado acalmá-lo, Will estava com raiva – com raiva de Jem, e até mesmo, com o passar dos dias, com raiva de Charlotte, por permitir que Jem se tornasse um Irmão do Silêncio, embora ele soubesse que isso era injusto: havia sido escolha de Jem, e o único jeito de mantê-lo vivo. A preocupação insana que sentia por Tessa não ajudou em nada sua raiva: embora seus ferimentos físicos fossem pequenos, o choque no sistema dela por causa do que ela fez havia sido muito grande, bem como a dor que ela sentiu. Ele se sentou ao lado dela, indo e voltando, por dias, segurando a mão dela, implorando que ela acordasse e o visse, até que Charlotte teve que ergué-lo de onde ele havia pego no sono, com o corpo meio esparramado na cama dela.

Will encarou Jem agora, com força o suficiente para abrir um buraco na cabeça dele, mas embora o capuz de Jem estivesse abaixado, expondo seu rosto, ele desviava o olhar de Will, de maneira determinada. O cabelo dele havia começado a retornar a sua cor preta original: o preto estava misturado com o prata, mecha por mecha, e os cílios dele estavam pretos novamente, também, e roçando contra as runas na bochecha dele quando ele abaixava o olhar.

Eram runas que apenas os Irmãos do Silêncio tinham: pareciam, para Will, com ferimentos, como cortes no rosto de Jem. Ele se sentiu enjoado por dentro.

Charlotte, disse o Irmão Enoch, e estendeu a mão: havia uma carta, selada com o selo do Conselho. Eu trouxe uma mensagem para você.

Charlotte o olhou com espanto. "Os Irmãos do Silêncio não entregam cartas."

"Essa carta é de suma importância. É imprescindível que você a leia agora."

Lentamente, Charlotte pegou a carta. Ela puxou a aba, franziu o cenho e atravessou o quarto para pegar o abridor de cartas em sua escrivaninha. Will aproveitou a oportunidade para encarar Jem com ainda mais força. Não adiantou nada. Jem não devolveu o olhar de Will; seu rosto estava sem expressão; não havia nada lá para encontrar. Will se sentiu quase nauseado – era como ter sido um navio ancorado por anos e, de repente, ser liberto para flutuar nas ondas, sem a menor ideia de qual direção tomar. E lá estava Jem, sua âncora, sem olhar na direção dele ou encontrar seu olhar.

O som do papel sendo rasgado se fez ouvir, e todos eles assistiram à Charlotte abrir a carta e lê-la, a cor se esvaindo de seu rosto. Ela ergueu os olhos e encarou o Irmão Enoch. "Isso é algum tipo de brincadeira?"

Não há brincadeira nenhuma, lhe garanto. Você tem uma resposta?

"Lottie," disse Henry, olhando para sua esposa, até seus cabelos ruivos radiando ansiedade e amor. "Lottie, o que é, o que há de errado?"

Ela olhou na direção dele, e depois, tornou a olhar o Irmão Enoch. "Não," disse ela. "Eu não tenho uma resposta. Não ainda."

O Conselho não deseja esperar.

"Bom," disse Charlotte, e sua voz era firme. "Eles precisarão. Diga a eles que enviarei uma resposta até o fim do dia."

Depois de uma pausa, o Irmão Enoch assentiu com a cabeça, e se virou para deixar o quarto. Jem se virou para segui-lo.

E Will quebrou. Ele deu uns passos para frente, e segurou a manga de Jem. O material grosso do manto era escorregadio sob seus dedos. "Isso é tudo?" disse ele, em voz baixa, urgente. "Você volta para cá, e você não fala comigo – ou visita Tessa? Você ao menos terminou seu noivado, James Carstairs?"

Jem congelou no meio do que fazia. O Irmão Enoch se virou. Ele não parecia satisfeito, mesmo com a falta de expressão que os Irmãos tinham. Um Irmão do Silêncio não pode se casar ou estabelecer noivados, ele disse, e Will conseguia ver, pelos rostos daqueles que os cercavam, que ele e Jem podiam ouvir as palavras, mas ninguém mais podia. Ele não possui nem esposa nem parabatai agora.

A mão de Will ainda segurava a manga de Jem. "Você quer que eu conte a ela, então?" perguntou Will. Charlotte estava olhando para ele, balançando a cabeça, Will, não faça isso. Ele sabia que seu ódio era injusto, injustificável – o noivado de Jem e Tessa estava acabado, ele não deveria estar feliz? – mas ele não estava feliz. O luto e o ódio jorravam como água das rachaduras de seu coração partido. Jem, que nunca havia machucado ninguém, magoando ele, magoando Tessa – e se tudo que havia acontecido entre ela e Will houvesse acontecido somente por ela ter pensado que Jem estava morto, só por causa do desespero do luto e da necessidade humana de procurar conforto? E se ela amasse Jem e ainda esperasse por ele, de qualquer modo, sabendo que ele estava vivo mas longe dela, sem ouvir dele uma palavra que pudesse providenciar um final a esse capítulo da vida dela? E ainda assim, não havia futuro para ele sem Tessa. "James Carstairs, você quer que eu conte a Tessa que você cansou dela, uma vez que você não vai fazer isso?"

"Que eu cansei dela?" Jem puxou a manga para longe de Will, e seus olhos estavam abertos e escuros e magoados, os olhos do Jem-criança, os olhos escuro que Jem havia conhecido enquanto crescia. "Eu vim até aqui porque Enoch me disse que ela havia acordado," disse ele, e havia uma raiva em sua voz que Will praticamente nunca havia ouvido antes. "Eu pedi permissão para falar com ela uma última vez. Você sabe o que eu sinto. Eu nunca a superarei. Nem em cem anos. Nem em mil." Ele olhou de Will para o Irmão Enoch, e de novo para Will. "E, no entanto, preciso. Não tenho escolha. Não soa como você, William, não sentir compaixão por isso."

Will engoliu em seco. Tudo no quarto parecia ter se resumido a isso, havia apenas ele e Jem. "Eu pensei que, talvez – ser um Irmão do Silêncio – tivesse tirado de você sua capacidade de sentir," ele disse, e então irrompeu, "Eu não posso suportar isso, um James Carstairs que não é capaz de sentir. Não apenas por Tessa, mas por mim. Se ela o ama, se ela desejar passar o resto da vida dela sofrendo por sua partida, eu posso sobreviver a isso, mas não à morte de seu coração, ou do dela." Jem olhou para ele, e nas profundezas de seus olhos escuros Will conseguiu ver, por uns segundos, o Jem que ele conhecia. "Wo men shi jie bai xiong di," disse Jem. "Você saberia se meu coração tivesse morrido, e eu saberia o mesmo de você. Minha partida, como você diz, embora eu ainda permaneça no mundo, é como se eu pegasse um navio para alguma ilha desconhecida, um lugar ao qual você não pode me seguir. Mas saiba," acrescentou ele, em uma voz que somente Will poderia ouvir, "Eu farei o que puder para garantir que eu possa ver você novamente, e a Tessa. Porque você é uma metade de meu coração, e ela é a outra. Enquanto eu tiver um de vocês para ser minha estrela-guia, meu coração não morrerá, e eu permanecerei sendo James Carstairs."

"Will," disse Charlotte. Ela soou preocupada. "Will e J... Irmão Zachariah, isso é bastante irregular. Irmão Enoch, eu peço perdão..."

"Eu pedi permissão para falar com Will, também, antes de vir," disse Jem. "Me foi dito que eu poderia, desde que eu não falasse com ele ou respondesse enquanto o Irmão Enoch estava tratando dos assuntos do Conselho." Will o encarou, e depois desviou o olhar ao Irmão Enoch, percebendo, com uma pontada de náusea em seu estômago, que ele podia ter acabado de perder a única chance de falar em particular com Jem – para sempre. O rosto de Enoch estava sem expressão, não demonstrando nenhuma emoção.

"Isso não é justo!" disse Will. "Eu me dirigi a você primeiro..."

Se acalme, pequeno Caçador de Sombras, disse o Irmão Enoch. Os laços entre parabatai são compreendidos pela Irmandade. Afinal, nós mesmos que criamos esses laços entre vocês. Você possui permissão para falar com ele, uma última vez, antes de ele ir.

Depois da Ponte

fonte: Cassandra Clare no Tumblr; Idris Brasil
Uma história para aqueles que imaginam o que Tessa e Jem fizeram depois que se encontraram na ponte Blackfriars no epílogo de Princesa Mecânica. Aqueles que não gostam de Tessa e Jem juntos ou dos momentos sexy dos dois provavelmente deveriam pular isso aqui. (Você não perderá nada que afete sua compreensão de livros posteriores.) Aqueles que gostam desse tipo de coisa irão encontrar exatamente o tipo de coisa que gostam. Os pontos de vista em Depois da Ponte serão alternados entre Jem e Tessa. [Foi] postada em [cinco] partes.

Agora é a hora do nosso conforto e plenitude.
Esses são os dias pelos quais temos buscado
Nada pode nos tocar e nada pode nos causar mal
E nada mais dará errado

- Keane – Love Is The End

Com o caminhar das coisas, Tessa possuía um apartamento seu em Londres. Era o segundo andar de uma casa pálida em Kensington, e enquanto os dois entravam – sua mão tremendo suavemente enquanto ela virava as chaves – ela explicou a Jem que Magnus havia ensinado-lhe como feiticeiros poderiam obter casas para si fazendo com que seus donos as doassem de boa vontade.

“Depois de um tempo eu apenas comecei a escolher nomes bobos para mim.”, ela disse fechando a porta atrás deles. “Eu acho que consegui esse lugar com o pseudônimo de Bedelia Codfish.”

Jem riu, apesar de sua mente estar apenas meio focada nas palavras dela. Ele observava o apartamento – as paredes estavam pintadas com cores brilhantes: uma sala de estar lilás, com sofás brancos dispersos, uma cozinha verde abacate. Ele imaginou quando e porque Tessa havia comprado aquele apartamento. Ela havia viajado tanto, porque estabelecer um lar em Londres?

A pergunta transformou-se em pó em sua garganta quando ele se virou e percebeu que através da fresta de uma porta era possível observar as paredes azuis do que parecia ser um quarto.

Ele ficou parado, sua boca seca de repente. A cama de Tessa. Onde ela dormia.

Ela olhou para ele. “Você está bem?”

Ela o pegou pelo pulso e ele sentiu seus batimentos saltarem sob seu toque. Até ele se tornar um Irmão do Silêncio, isso sempre acontecera. Ele havia imaginado durante o tempo que passou em Idris, depois que o fogo celestial o havia curado, se ainda se sentiria dessa maneira: se seus sentimentos humanos retornariam para ele. Ele havia sido capaz de tocá-la e estar perto dela como um Irmão do Silêncio sem desejá-la como acontecia quando era mortal. Ele ainda a amava, mas era um amor de espírito e não corporal. Ele imaginava – temendo até, que os sentimentos físicos e as respostas não retornariam como haviam retornado. Ele havia dito para si mesmo que mesmo que a Irmandade do Silêncio matasse a habilidade de manifestação de seus sentimentos físicos ele não ficaria desapontado. Ele havia dito para si mesmo para esperar por isso.

Ele não deveria ter se preocupado.

No momento em que avistou-a na ponte, vindo em sua direção através da multidão em seus jeans modernos e com seu lenço, seu cabelo ondulando ao seu redor, ele sentiu sua respiração presa na garganta.

E quando ela tirou o pingente de Jade que ele havia dado para ela do pescoço e timidamente oferecido a ele, seu sangue ribombou em vida em suas veias, como um rio sem nome.

E quando ela disse, “Eu te amo. Eu sempre amei, e eu sempre amarei”, ele lutou com todas as suas forças para não beijá-la naquele momento. Ou fazer mais que beijá-la.

Mas, se a Irmandade havia lhe ensinado alguma coisa, foi o controle. Ele olhou para ela agora e lutou para manter a voz firme. “Um pouco cansado,” disse ele. “E com sede — Eu esqueço, às vezes, que preciso comer e beber agora.”

Ela deixou cair as chaves em uma pequena mesa lateral de jacarandá, se virou e sorriu para ele. “Chá,” ela disse, movendo-se em direção à cozinha verde-abacate. “Eu não tenho muita comida aqui, eu não costumo ficar muito tempo aqui, mas eu tenho chá. E biscoitos. Vá para a sala de estar; Eu já vou pra lá.”

Ele teve que sorrir para aquilo; mesmo que ele não conhecesse ninguém que falasse sala de estar mais. Talvez ela estivesse tão nervosa quanto ele, então? Ele só poderia esperar.

***

Tessa xingou silenciosamente pela quarta vez enquanto se curvava para recuperar a caixa de cubos de açúcar do chão. Ela já tinha colocado a chaleira no fogo, sem água nela, misturado os sacos de chá, derrubado leite, e agora isso. Ela deixou cair o cubo de açúcar dentro das duas xícaras de chá e disse a si mesma para contar até dez, enquanto observava os cubos dissolverem.

Ela sabia que as suas mãos estavam tremendo. Seu coração disparado. James Carstairs estava em seu apartamento. Em sua sala de estar. À espera de chá. Parte de sua mente gritava que era apenas Jem, enquanto a outra parte chorava tão alto quanto que Jem era alguém que ela não via em cento e trinta e cinco anos.

Ele havia sido o Irmão Zachariah por tanto tempo. E, claro, ele sempre foi Jem acima de tudo, com a sagacidade e bondade infalível de Jem. Ele nunca havia falhado em seu amor por ela ou por Will. Mas Irmãos do Silêncio — eles não sentem as coisas como as pessoas comuns.

Era algo que ela pensava, às vezes, nos últimos anos, muitas décadas depois da morte de Will. Ela nunca quis ninguém, ninguém além de Will e Jem, e ambos haviam partido pra ela, mesmo que Jem ainda estivesse vivo. Ela havia imaginado, ás vezes, o que eles teriam feito se apenas fosse proibido para Irmãos do Silêncio se casar ou amar; mas era mais que isso: ele não podia desejá-la. Ele não tinha esses sentimentos. Ela se sentia como Pygmalion, ansiando pelo toque de uma estátua de mármore. Irmãos do Silêncio não têm desejos físicos para o toque, não mais do que eles tinham necessidade para comida ou água.

Mas agora…

Eu esqueço, às vezes, que preciso comer e beber agora.

Ela pegou as canecas de chá com as mãos ainda trêmulas e entrou na sala de estar. Ela a tinha decorado sozinha ao longo dos anos, desde as almofadas do sofá até a longa tela japonesa pintada com um design de papoulas e bambu. As cortinas emoldurando a janela na outra extremidade da sala estavam entreabertas, com a quantidade suficiente de luz entrando na sala para tocar as mechas douradas nos cabelos pretos de Jem, e ela quase derrubou as xícaras de chá.

Eles haviam mal se tocado na viagem de táxi de volta ao Queen’s Gate, apenas segurando firmemente as mãos na parte de trás do táxi. Ele havia corrido os dedos pelas costas dos dedos dela, e de novo quando ele começou a contá-la a história de tudo o que havia acontecido desde que ela esteve em Idris pela última vez, quando a Guerra Maligna, na qual ela havia lutado, havia terminado. Quando Magnus tinha mostrado Jace Herondale para ela, e ela havia olhado para um menino que tinha o lindo rosto de Will e olhos como os do seu filho, James.

Mas o cabelo dele era igual o do pai, aquele emaranhado de ricos cachos dourados, e lembrando do que ela sabia sobre Stephen Herondale, ela se virou sem falar.

Herondales, alguém havia dito a ela uma vez. Eles eram tudo o que os Caçadores de Sombras podiam oferecer, tudo em uma família: os melhores e os piores.

Ela colocou as xícaras na mesa de centro – um velho baú, coberto de selos de suas muitas viagens – com uma forte batida. Jem se virou para ela e ela viu o que ele segurava em suas mãos.

Uma das estantes guardavam uma exposição de armas: coisas que ela pegava ao redor do mundo. Uma fina misericorde, uma kris curva, uma faca de trincheira, uma espada curta, e dezenas de outras. Mas a que Jem pegara e estava olhando era uma fina lâmina wasa de prata, seu cabo, escurecido por muitos anos de sepultamento na sujeira. Ela nunca a havia limpado, pois a mancha na lâmina era o sangue de Will. A lâmina de Jem, o sangue de Will, enterrados juntos nas raízes de um carvalho, um tipo de magia solidária que Will havia feito quando ele pensou que ele havia perdido Jem para sempre. Tessa a tinha recuperado depois da morte de Will e oferecido a Jem; ele tinha recusado pegá-la.

Isso havia sido em 1937.

“Fique com ela,” ele disse agora, a sua voz áspera. “Ainda pode vir um dia.”

“Isso foi o que você me disse.” Ela moveu-se em direção a ele, seus sapatos batendo no chão de madeira. “Quando eu tentei dar ela a você.”

Ele engoliu, correndo seus dedos por sobre a lâmina. “Ele tinha acabado de morrer,” ele disse. Ela não precisava perguntar quem ele era. Havia apenas um único Ele quando eram os dois falando. “Eu estava com medo. Eu vi o que aconteceu com os outros Irmãos do Silêncio. Eu vi como eles se endureciam ao longo do tempo, perdiam a pessoa que eles eram. Quando as pessoas que os amavam e que eles amavam morriam, eles se tornavam menos humanos. Eu fiquei com medo de que eu iria perder a minha habilidade de me importar. De saber o que essa lâmina significava para WIll e o que Will significava para mim.”

Ela colocou as mãos no ombro dele. “Mas você não se esqueceu.”

“Eu não perdi todos que amava.” Ele olhou para ela, e ela viu que os olhos dele tinham dourado também, preciosos flocos brilhantes entre o marrom. “Eu tinha você.”

Ela soltou o ar; seu coração estava batendo tão forte que o peito dela doía. Então ela viu que ele esta apertando a lâmina da faca, não apenas o cabo. Rapidamente ela a tirou das mãos dele. “Por favor, não,” ela disse. “Eu não posso desenhar um iratze.”

“E eu não tenho uma estela,” ele disse, olhando enquanto ela colocava a faca de volta na estante. “Eu não sou um Caçador de Sombras agora.” Ele olhou para as mãos; havia finas linhas vermelhas em suas palmas, mas ele não tinha cortado a pele.

Impulsivamente, Tessa inclinou-se e beijou as mãos dele, depois fechou-as, suas próprias mãos envolta das dele. Quando ela olhou para cima, as pupilas dele tinham aumentado. Ela podia ouvir a respiração dele.

“Tessa,” ele disse. “Não.”

“Não o que?” Ela se afastou dele, porém, instintivamente. Talvez ele não queria ser tocado, embora na ponte, não tivesse parecido ser assim...

“Os Irmãos me ensinaram controle,” ele disse, a sua voz firme. “Eu tenho todo o tipo de controle, e eu os aprendi por décadas e décadas, e eu estou usando todos eles agora para não te pressionar contra a estante e te beijar até que nenhum de nós possa respirar.”

Ela levantou o queixo. “E o que tem de errado nisso?”

“Quando eu era um Irmão do Silêncio, eu não me sentia como um homem normal,” ele disse. “O vento no meu rosto ou o sol na minha pele ou o toque de outra mão. Agora eu sinto tudo isso. Eu sinto – demais. O vento é como um trovão, o sol queima, e o seu toque me faz esquecer meu próprio nome.”

Uma pontada de calor lanceou através dela, um calor que começa no seu estômago e se espalhava por todas as partes de seu corpo. Um tipo de calor que ela não sentia há tantas décadas.

Quase um século. A sua pele se arrepiou toda. “Com o vento e o sol você irá se acostumar,” ela disse. “Mas o seu toque me faz esquecer meu nome também, e eu não tenho desculpas. Apenas que eu te amo, e eu sempre amei e sempre amarei. Eu não irei te tocar se você não quiser, Jem. Mas se nós estamos esperando até que a ideia de ficarmos juntos não nos assuste, nós vamos esperar por um longo tempo.”

A respiração lhe escapou em um assobio. “Diga isso de novo.”

Intrigada, ela começou: “Se nós estamos esperando até que -”

“Não,” ele disse. “A parte de antes.”

Ela inclinou o rosto para ele. “Eu te amo,” ela disse. “Eu sempre amei e sempre amarei.”

Ela não sabia quem foi em direção a quem primeiro, mas ele a segurou pela cintura e a estava beijando antes que ela pudesse tomar outra respiração. Esse não era como o beijo na ponte. Havia tido uma comunicação silenciosa de lábios nos lábios, a troca de uma promessa e uma garantia. Tinha sido doce e destruidor, um tipo de trovoada gentil.

Isso era uma tempestade. Jem a estava beijando, rígido e esmagador, e quando ela abriu os lábios dele com os dela e provou o interior da boca dele, ele suspirou e a puxou mais forte contra ele, suas mãos apertando os quadris dela, a pressionando para mais perto dele enquanto ele explorava os lábios e língua dela, acariciando, mordendo, e depois beijando para aliviar a dor. Nos dias antigos, quando ela o tinha beijado, ele tinha gosto de açúcar amargo: agora ele tinha gosto de chá e – pasta de dente?

Mas porque não pasta de dente. Mesmo Caçadores de Sombras de um século tinham que escovar os dentes. Uma pequena risada nervosa escapou dela e Jem se afastou, parecendo atordoado e deliciosamente amarrotado. Os cabelos estavam para todos os lados por ela ter corrido as mãos por eles.

“Por favor não me diga que você está rindo porque eu beijo tão mal que é engraçado,” ele disse, com um sorriso torto. Ela podia sentir a preocupação real dele. “Eu posso estar um pouco sem prática.”

“Irmãos do Silêncio não beijam muito?” ela brincou, alisando a frente do suéter dele.

“A não ser que tivesse orgias secretas para a qual eu não fui convidado,” Jem disse. “Eu sempre me preocupei em talvez não ser tão popular.”

Ela apertou as mãos ao redor dos pulsos dele. “Venha aqui,” ela disse. “Sente aqui – tome um pouco de chá. Tem algo que eu quero te mostrar.”

Ele foi, como ela havia pedido, e sentou-se no sofá de veludo, recostando-se nas almofadas que ela tinha costurado sozinha do tecido que tinha comprado na Índia e Tailândia. Ela não podia conter um sorriso – ele parecia apenas um pouco mais velho do que ele era quando se tornou um Irmão do Silêncio, como um jovem normal de jeans e suéter, mas ele sentava de um jeito que um homem vitoriano sentaria – costas retas, pés apoiados no chão. Ele pegou o olhar dela e sua própria boca se levantou nos cantos . “Tudo bem,” ele disse. “O que você tem para me mostrar?”

Em resposta, ela foi até a tela japonesa esticada em um canto da sala, e foi para trás dela. “É uma surpresa.”

Seu manequim estava lá, escondido do resto da sala. Ela não podia o ver atrás da tela, apenas um contorno borrado de formas. “Converse comigo,” ela disse, puxando o suéter por cima da cabeça. “Você disse que era uma história de Lightwoods e Fairchilds e Morgensterns. Eu sei um pouco do que aconteceu – eu recebi a sua mensagem enquanto estava no Labirinto – mas eu não sei como a Guerra Maligna afetou a sua cura.” Ela jogou o suéter por cima da tela. “Você pode me dizer?”

“Agora?” ele disse. Ela o ouviu abaixar a xícara de chá.

Tessa chutou os sapatos e abriu o zíper dos jeans, o som alto na sala quieta. “Você quer que eu saia de trás dessa tela, James Carstairs?”

“Definitivamente.” A voz dele parecia estrangulada.

“Então comece a falar.”

***

Jem falou. Ele falou sobre os dias sombrios em Idris, do exército de Crepusculares de Sebastian Morgenstern, de Jace Herondale e Clary Fairchild e as crianças Lightwood e a perigosa jornada deles para Edom.

“Eu ouvi sobre Edom,” ela disse, sua voz abafada. Fala-se sobre lá no Labirinto Espiral, onde eles acompanham as histórias de todos os mundos. Um lugar onde os Nephilim foram destruídos. Um deserto.” “Sim,” disse Jem, um pouco distraído. Ele não podia vê-la através da tela, mas ele podia ver o contorno do corpo dela, e isso era algo pior. “Deserto queimando. Muito… quente.”

Ele tinha medo de que os Irmãos do Silêncio tivessem tirado o desejo dele: que ele iria olhar para Tessa e sentir amor platônico mas não ser capaz de querer, mas o oposto era verdade. Ele não conseguia parar de desejar. Ele queria, ele pensou, mais do que jamais antes em sua vida.

Ela estava claramente trocando de roupa. Ele olhou para baixo rapidamente quando ela começou a dançar para fora dos jeans, mas não era como se ele pudesse esquecer a imagem, a silhueta dela, cabelos longos e longas, lindas pernas – ele sempre amou as pernas dela.

Certamente ele havia sentido isso antes, quando ele era um menino? Ele se lembrou da noite em seu quarto quando ela o havia impedido de destruir seu violino, e ele desejou então, desejou tanto que ele não havia pensado quando eles desabaram na cama dele: ele teria tido a inocência dela, e dado a sua própria, sem um pensamento momentâneo do futuro. Se eles não tivessem batido na caixa de yin fen. Se. Isso o trouxera de volta, o lembrou de quem ele era, e quando ela foi embora, ele rasgou os lençóis em tiras com os dedos de pura frustração. Talvez fosse esse desejo lembrado nada em comparação com o sentimento em si. Ou talvez ele estivesse doente, mais fraco. Ele estava morrendo afinal de contas e, certamente o seu corpo não poderia ter se sustentado.

“Uma Fairchild e um Herondale,” ela disse. “Agora, eu gosto disso. Os Fairchild sempre foram práticos e os Herondale – bem, você sabe.” Ela parecia afeiçoada, entretida. “Talvez ela irá sossegá-lo. E não me diga que ele não precisa ser sossegado.”

Jem pensou sobre Jace Herondale. Como ele era parecido com Will se alguém tivesse acendido um fósforo e o dourado em fogo vivo. “Eu não tenho certeza se é possível acalmar um Herondale, e certamente não esse.”

“Ele a ama? A menina Fairchild?”

“Eu nunca vi alguém tão apaixonado, exceto…” A voz dele sumiu, quando ela saiu de trás da tela, e agora ele entendeu o que a levara tanto tempo.

Ela estava usando um vestido de orquídea de seda, do tipo que ela usaria para jantar quando eles estavam noivos. Terminava com cordas de veludo brancas, a saia aparecendo por baixo — ela estava usando crinolina?

A boca dele se abriu. Ele não conseguiu evitar. Ele havia a achado bela através dos séculos: bela nas roupas cuidadosamente cortadas nos anos das guerras, quando as fábricas estavam em racionamento. Bela nos vestidos elegantes dos anos 50 e 60. Bela em minissaias e botas quando o fim do século se aproximava.

Mas isso era como garotas eram quando ele as notou pela primeira vez, pela primeira vez achando-as fascinantes e não irritantes, reparando nas linhas suaves do pescoço ou a pele clara na parte interna de um pulso feminino. Essa foi a Tessa que pela primeira vez o atravessou com amor e luxúria misturados: um anjo carnal com um espartilho emoldurando seu corpo como uma ampulheta, levantando seus seios e modelando o formato de seus quadris.

Ele forçou seus olhos para longe do corpo dela. Ela tinha prendido o cabelo, pequenos cachos escapando em cima das orelhas, e seus pingente jade brilhava em torno de sua garganta.

“Você gostou?”, disse ela. “Eu tive que arrumar meu cabelo sozinha, sem Sophie, e amarrar meus laços sozinha…” A expressão dela era tímida e um pouco nervosa — sempre tinha sido uma contradição característica dela, que ela era sempre uma das pessoas mais corajosas e tímidas que ele conhecia. “Eu comprei em Sotheby’s — um antiquário, agora, e foi caro demais, mas me lembrou de quando eu era uma garota e você disse que orquídea era sua flor preferida e eu estava determinada a encontrar um vestido da cor de uma orquídea, mas não consegui antes que você… se fosse. Mas esse é. É tingido, acredito, nada natural, mas eu acho — acho que isso ia te lembrar…” Ela levantou o queixo. “De nós. Do que eu queria ser para você, quando pensei que ficaríamos juntos.”

“Tess”, ele disse, roucamente. Ele estava de pé, sem saber como havia se levantado. Ele deu um passo em direção a ela, e depois outro. “Quarenta e nove mil, duzentos e setenta e cinco.”

Ela sabia imediatamente o que ele quis dizer. Ele sabia que ela saberia. Ela o conhecia como nenhuma outra pessoa viva. “Você está contando os dias?”

“Quarenta e nove mil, duzentos e setenta e cinco dias desde que eu te beijei pela última vez”, disse ele. “E eu pensei em você em todos eles. Você não precisa me lembrar da Tessa que eu amei. Você foi meu primeiro amor e vai ser o meu último. Eu nunca te esqueci. Eu nunca deixei de pensar em você.” Ele estava perto o suficiente agora para ver o coração dela pulsando em sua garganta. Para estender a mão e levantar um cacho de seu cabelo. “Nunca.”

Os olhos dela estavam meio fechados. Ela estendeu a mão e pegou a mão dele, onde ele acariciava seu cabelo. O sangue dele era um tempestade em seu corpo, tão forte que doía. Ela abaixou a mão dele até a altura do corpete do vestido. “O anúncio dizia que não tinha botões”, ela sussurrou. “Apenas ganchos na frente. Mais fácil para uma pessoa fechar.” Ela abaixou sua mão direita, pegou o outro pulso dele, e levantou. Agora as duas mãos deles estavam no corpete. “Ou para abrir”. Os dedos dela se curvaram sobre os deles enquanto, muito deliberadamente, ela abriu o primeiro gancho em seu vestido.

E o próximo. Ela moveu as mãos dele para baixo, seus dedos entrelaçados, abrindo os ganchos até que o vestido estava pendurado em cima do espartilho, dobrado em cada lado como uma pétala de flor. Ela estava respirando profundamente; ele não conseguia tirar os olhos de onde o pingente subia e descia com os arquejos dela. Ele não conseguia se mover nem um centímetro em direção a ela: ele queria, queria demais. Ele queria soltar o cabelo dela e enrolar em seus pulsos como cordas de seda. Ele queria os seios dela embaixo de suas mãos e as pernas dela em volta de sua cintura. Ele queria coisas que ele não sabia o nome e nem possuía experiência. Ele apenas sabia que se ele se movesse um centímetro mais perto da barreira de controle que ele havia erguido em torno de si, ela se estilhaçaria e ele não sabia o que aconteceria em seguida.

“Tessa”, disse ele. “Você tem certeza—?”

Seus cílios tremeram. Os olhos dela ainda estavam entreabertos, seus dentes fazendo meias-luas em seu lábio inferior. “Eu tinha certeza antes,” disse ela, “e tenho certeza agora”.

E ela prendeu suas mãos firmemente nas laterais de seu corpo, onde sua cintura curvava para cima, uma de cada lado de onde seus quadris se alargavam.

O controle dele se desfez, uma explosão silenciosa. Ele a puxou para si, com intenção de beijá-la ferozmente. Ele a ouviu fazer um barulho de surpresa e então seus lábios silenciaram os dela, e a boca dela se abriu ansiosamente embaixo da dele. As mãos dela estavam no cabelo dele, segurando com força; ela estava na ponta dos pés para beijá-lo. Ela mordeu o lábio inferior dele, beliscou seu queixo, e ele gemeu, introduzindo as mãos dentro do vestido dela, seus dedos traçando a parte de trás do corset, a pele dela queimando através da “camisa” que ele conseguia sentir através da renda. Ele estava tirando seus sapatos e as meias, o chão frio de encontro aos seus pés descalços.

Ela soltou um pequeno suspiro e se aproximou mais de seus braços. Ele tirou as mãos de dentro do vestido dela e pegou sua saia. Ela fez um som de surpresa e então ele estava tirando o vestido por cima da cabeça dela. Ela exclamou, rindo, quando o vestido saiu todo menos pela parte em que ainda estava preso nos pulsos, onde pequenos botões prendiam as abotoaduras. “Cuidado”, ela provocou, enquanto os dedos rápidos dele abriam os botões. Ele levantou o vestido e o jogou longe. “É uma antiguidade.”

“Tecnicamente, eu também sou.” disse ele, e ela riu de novo, olhando para ele com o rosto quente e aberto.

Ele tinha pensado em fazer amor com ela antes, claro que tinha. Ele havia pensado sobre sexo quando era um adolescente, porque é isso que adolescentes fazem, e quando ele havia se apaixonado por Tessa, ele havia pensado sobre sexo com ela. Pensamentos vagos de estar fazendo coisas, mas ele não tinha certeza do quê — uma imagem de braços e pernas claras, o toque imaginário da pele suave dela embaixo de suas mãos.

Mas ele não havia imaginado isso: que poderia ter riso, que poderia ser tão carinhoso e gentil quanto apaixonado. A realidade daquilo, dela, o deixava sem ar.

Ela se afastou por um momento e ele entrou em pânico. O que ele havia feito de errado? Ele havia a machucado, repelido? Mas não, seus dedos haviam ido para a crinolina em sua cintura, torcendo e puxando. Então ela levantou seus braços e os entrelaçou ao redor do pescoço dele. “Me levanta”, ela disse. “Me levanta, Jem.”

A voz dela era um suave ronronar. Ele pegou a cintura dela e levantou, tirando-a de sua anágua como se estivesse tirando uma cara orquídea de seu jarro. Quando ele a colocou no chão de volta, ela estava usando apenas o espartilho, roupa de baixo e meias. As pernas dela eram tão longas e lindas quanto ele havia sonhado e se lembrado.

Ele estendeu a mão para tocá-la, mas ela o interceptou. Ela ainda estava sorrindo, mas agora tinha algo travesso no riso. “Ah, não”, ela disse, gesticulando para ele, seu jeans e suéter. “Sua vez.”

***

Ele congelou por um momento, e, em pânico, Tessa se perguntou se havia pedido demais dele. Ele havia se desconectado de seu corpo por tanto tempo — uma mente numa carcaça de pele que era na maioria das vezes ignorada exceto quando precisava ser Marcada para algum poder novo. Talvez aquilo era muito pra ele.

Mas ele respirou fundo, e suas mãos se moveram para a barra de seu suéter. Ele o tirou por cima e surgiu com o cabelo amoravelmente bagunçado. Ele não estava usando uma camisa por baixo do moletom. Ele olhou para ela e mordeu o lábio.

Ela se aproximou dele, com os olhos e mãos ávidos. Ela olhou para ele antes de tocá-lo, e o viu acenando com a cabeça, Sim.

Ela engoliu em seco. Ela havia sido carregada como uma folha no vento na maré de suas memórias. Memórias de Jem Carstairs, o menino que havia sido seu noivo, com quem ela planejava casar. Com quem quase havia feito amor no chão da sala de música no Instituto de Londres. Ela havia visto seu corpo, naquela hora, nu até a cintura, sua pele branca com papel e estendida através de costelas proeminentes. O corpo de um garoto morrendo, embora ele tenha sempre sido belo aos olhos dela.

Agora a pele dele estava estendida em suas costelas e peito numa camada suave de músculos; seu tórax era largo, afinando na cintura. Ela o tocou tentativamente; ele estava quente e duro ao seu toque. Ela podia sentir as finas cicatrizes e runas antigas, claras em contraste com sua pele dourada.

Ele respirou por entre os dentes quando ela passou as mãos em seu peito e em seus braços, e na curva de seu bíceps, que se moldava ao toque dela. Ela se lembrou dele lutando com os outros Irmãos em Cadair Idris — e, é claro, ele havia lutado na Batalha da Cidadela, os Irmãos do Silêncio estavam sempre prontos para a batalha, mesmo que raramente o faziam.

De algum modo ela nunca havia pensado sobre o que significava para Jem o fato de que ele não estava mais morrendo.

Os dentes dele bateram um pouco; ela mordeu o lábio dele para mantê-lo quieto. Desejo a tomava e um pouco de medo também: Como isso poderia estar acontecendo? Acontecendo de verdade? “Jem,” ela sussurou. “Você é tão…”

“Cheio de cicatrizes?” Ele colocou sua mão na bochecha, onde a marca preta da Irmandade ainda repousava em cima do arco de sua maçã o rosto. “Horrível?”

Ela balançou a cabeça. “Quantas vezes tenho que te dizer que você é belo?” Ela correu as mãos sobre a curva nua do ombro dele até o seu pescoço; ele tremeu. Você é belo, James Carstairs. “Você não viu todos te encarando na ponte? Você é muito mais bonito que eu”, ela murmurou, esticando as mãos ao redor dele para tocar suas costas; elas se enrijeceram diante da pressão dos dedos dela. “Mas se você é tolo o suficiente para me querer, então não questionarei minha sorte.”

Ele virou a cabeça para o lado e ela o viu engolir. “Durante toda a minha vida”, disse ele, “quando alguém dizia a palavra ‘bela’, era seu rosto que eu via. Você é minha própria definição de beleza, Tessa Gray.”

O coração dela pulou. Ela se ergueu na ponta dos pés — ela sempre foi uma garota alta, mas Jem era mais alto — e pôs a boca sobre a lateral da garganta dele, beijando suavemente. Os braços dele se enroscaram atrás dela, pressionando-a contra ele, seu corpo duro e quente, e ela sentiu outra pontada de desejo. Dessa vez ela o beliscou, mordendo a pele onde o ombro dele encontrava o pescoço.

Foi tudo um borrão. Jem fez um som grave na garganta e de repente eles estavam no chão, ela em cima dele, o corpo dele amortecendo sua queda. Ela olhou para ele em surpresa. “O que aconteceu?” Ele parecia atordoado também. “Eu não consegui mais ficar em pé.”

O peito dela se aqueceu. Tinha sido há tanto tempo que ela havia esquecido a sensação de beijar alguém tão profundamente que seus joelhos cediam. Ele se apoiou nos cotovelos. “Tessa—”

“Não tem nada de errado”, ela disse, envolvendo o rosto dele em suas mãos. “Nada.. Entende?”

Ele estreitou os olhos. “Você me derrubou?”

Ela riu; o coração dela estava batendo forte, tonta com alegria e alívio e terror tudo de uma vez. Mas ela havia olhado para ele antes, visto o jeito que ele olhava para seu cabelo quando estava solto, tinha sentido seus dedos nele, acariciando tentativamente, quando ele a havia beijado na ponte. Ela se levantou e tirou as presilhas do cabelo, jogando-os do outro lado do quarto.

O cabelo dela caiu em camadas, se espalhando por seus ombros até a cintura. Ela se inclinou para frente, a ponto de seu cabelo encostar no rosto dele, e em seu peito nu.

“Você se importa?”, ela sussurrou.

“Como isso está progredindo…”, disse ele, contra a boca dela, “não me importo. Acho que prefiro estar reclinado.”

Ela riu e passou as mãos sobre o corpo dele. Ele se mexeu, se curvando em direção ao seu toque.

“Para uma antiguidade”, disse ela, “você teria um bom preço no Sotheby’s. Todas as suas partes estão funcionando muito bem.”
As pupilas dele dilataram e ele riu, a respiração quente dele esquentando o rosto dela. “Eu esqueci como é ser provocado, acho”, disse ele. “Ninguém provoca os Irmãos do Silêncio.”

Ela havia tirado vantagem da distração dele para tirar seus jeans. Havia tão pouca roupa entre os dois que estava distraindo-os. “Você não está mais na Irmandade”, disse ela, passando os dedos na barriga dele, nos cabelos finos abaixo de seu umbigo, no peito nu suave dele. “E eu ficaria muito decepcionada se você continuasse em silêncio.”

Ele estendeu a mão cegamente para ela e a puxou. As mãos dele se enterraram no cabelo dela.

E eles estavam se beijando de novo, os joelhos dela um de cada lado do quadril dele, as mãos de Tessa no peito dele. Ele passava as mãos pelo cabelo dela repetidamente, e cada vez ela podia sentir o corpo dele arquear em direção ao dela, os lábios dele pressionando os delas cada mais mais forte. Não eram beijos selvagens, não mais: agora eram deliberados, crescendo em intensidade e fervor cada vez que se afastavam e se aproximavam de novo.

Ele colocou a mão na renda do espartilho dela e o puxou. Ela se moveu para mostrá-lo que também estava preso na frente, mas ele já tinha alcançado a frente. “Minhas desculpas,” disse ele, “à antiguidade.”, e então do jeito mais não-Jem possível, rasgou o espartilho na frente e o jogou longe. Embaixo estava sua camisola, a qual ele puxou por cima da cabeça dela e jogou ao lado.

Ela respirou fundo. Ela estava nua na frente dele agora, como nunca havia estado.

***

Jem tinha a sensação de que, mais tarde, suas mãos iriam doer (ele nunca tinha rasgado um espartilho ao meio antes), mas, naquele momento, ele não sentia nada além de Tessa. Ela estava sentada montada em seus quadris, os olhos arregalados, os cabelos caindo sobre os ombros e seios nus. Ela parecia Vênus saindo das ondas, com apenas o pingente de jade para cobri-la, brilhando contra a pele dela.

“Eu acho,” disse ela, sua voz saiu alta e ofegante, “que eu preciso que você me beije agora.”

Ele estendeu a mão para puxá-la para baixo, agarrando os ombros esguios. Rolou-os de forma que ele ficasse em cima dela, equilibrado nos cotovelos, tomando cuidado com o seu peso. Mas ela não parecia se importar. Ela ajustou-se debaixo dele, curvando o corpo para se adaptar ao dele. A suavidade de seus seios pressionados contra o peito dele, e o côncavo de seus quadris era um apoio para segurá-lo, e os dedos dos pés descalços dela corriam pelas panturrilhas dele.

Ele fez um som baixo, carente e obscuro em sua garganta, um som que ele mal reconheceu como vindo de si mesmo. Um som que fez as pupilas de Tessa dilatarem, sua respiração vindo rapidamente. “Jem,” disse ela, “por favor, Jem,” e ela virou a cabeça para o lado, repousando sua bochecha em seu cabelo solto.

Ele se inclinou sobre ela. Eles já tinham feito isso juntos antes. Disso ele lembrava. Que ela gostava de ser beijada em uma linha abaixo de sua garganta, e que se ele seguisse a forma de sua clavícula com a boca, ela iria gritar e cavar as mãos em suas costas. E se ele se aterrorizou com o que veio em seguida — não saber o que fazer, ou como agradá-la — isso foi apagado na pressa da resposta dela: seus gritos suaves enquanto ele passava as mãos nas pernas dela e a beijava no peito e estômago.

“Meu Jem,” ela sussurrou enquanto ele a beijava. “James Carstairs. Ke Jian Ming.”

Ninguém o havia chamado pelo seu nome de nascimento há mais de meio século. Isso era tão íntimo quanto um toque.

Ele não sabia ao certo como o resto de suas roupas foram descartadas, só que, de alguma forma, eles estavam deitados sobre os restos destruídos de seu vestido de seda e saias. Tessa não era suave e flexível sob ele como ele tinha imaginado há muito tempo atrás, ela era responsível e exigente, levantando o rosto para ser beijada mais e mais, passando as mãos sobre ele, cada escova de seus dedos acendendo faíscas em terminações nervosas que ele temia estarem mortas há muito tempo.

Era muito melhor do que ele tinha imaginado. Ele estava cercado por ela, seu cheiro de sabonete de água de rosas e sua pele e sua confiança implícita. Ela não apenas confiava que ele não a machucaria; era mais que isso. Ela confiou que a falta de experiência dele não importaria, que nada importaria a não ser que fossem eles dois e eles sempre havima procurado fazer o outro feliz. Quando ele vacilou e disse, “Tessa, eu não sei como —” ela sussurrou contra sua boca e colocou as mãos para onde deveriam ir.

Uma espécie de repreensão, mas a mais gentil que ele já recebeu, e a melhor. Ele não havia bem imaginado isso, que as suas reações seriam espelhadas, que o prazer dela aumentaria o dele. Que quando ele deslizaria as mãos por suas pernas, ela as envolveria em torno de sua cintura por vontade própria. Que cada pensamento fugiria de sua cabeça, exceto pela sensação dela embaixo dele e, em seguida, ao seu redor enquanto ela o guiava para onde ele precisaria estar.

Ele ouviu-se gritar como se fosse a distância, enquanto ele se enterrava nela. “Tessa.” Ele agarrou nos ombros dela como se a agarrasse para os fragmentos de seu controle. “Tessa, oh Deus, Tessa, minha Tessa.” A coerência tinha o deixado completamente. Ele balbuciou alguma coisa assim, não mais em Inglês, ele não sabia o quê, e ele a sentiu apertar os braços em volta dele.

Ele estava respirando em suspiros quando se moveu, lutando pelos últimos fragmentos de seu controle. Seus olhos estavam fechados;luz brilhava por trás de suas pálpebras. Tanta luz. Ele lutou desesperadamente para se agarrar, não querendo que isso acabasse, ainda não. Ele ouviu a voz de Tessa sussurrando seu nome; eles estavam tão perto, mais perto do que nunca havia acreditado ser possível. As mãos dela deslizaram seu corpo abaixo para se agarrarem à sua cintura. Havia uma fina linha de concentração entre suas sobrancelhas; suas bochechas estavam escarlate brilhante, e quando ela tentou dizer seu nome outra vez, um suspiro irregular o engoliu. Uma de suas mãos voou para sua boca e ela mordeu os dedos enquanto seu corpo se apertava ao em torno dele.

Fora como álcool para o fogo. O ultimo remanescente de seu controle evaporou. Ele enterrou seu rosto contra o pescoço dela conforme as luzes por de trás de suas pálpebras se quebravam nas cores de um caleidoscópio. Ele havia levado a escuridão da Cidade do Silêncio consigo, mesmo ao deixar a irmandade. E agora ela havia aberto sua alma e deixado a luz entrar, e foi brilhante.

Ele nunca tinha imaginado isso. Ele nunca sequer havia imaginado imaginar isso

Quando voltou a si, ele descobriu que ainda estava segurando-a com força, a cabeça inclinada sobre o ombro dela. Ela estava respirando suavemente e regularmente, com uma mão no cabelo dele, acariciando, murmurando palavras de carinho.

Ele se afastou dela com relutância, rolando para se organizarem para que estivessem cara a cara. A maior parte da luz do dia havia desaparecido; eles olhavam um para o outro em uma penumbra que suavizou todos os cantos. Seu coração batia forte enquanto ele estendia a mão para passar seu polegar sobre o lábio inferior dela.

“Você está bem”, disse, com a voz rouca. “Era isso-” Ele parou, percebendo, para seu horror que o brilho nos olhos dela eram lágrimas. Uma desceu por sua bochecha, sem controle.

“Tessa?” Ele pôde ouvir o pânico selvagem em sua própria voz. Ela lhe deu um sorriso rápido, tremendo, mas esta era Tessa. Ela nunca mostraria desapontamento. E se tivesse sido terrível para ela? Ele tinha pensado que fora incrível, perfeito, ele pensou que seu corpo quebraria em pedaços por sentir tanta felicidade ao mesmo tempo. E ele pensou que ela havia respondido, mas o que ele sabia? Ele amaldiçoou sua própria inexperiência, sua arrogância, seu orgulho. O que o fez pensar que podia-

Ela se sentou, inclinando-se sobre a mesa do café, suas mãos faziam algo que ele não podia ver. Seu corpo nu foi delineado pelo crepúsculo, insuportavelmente bonito. Ele olhou para ela com seu coração gaguejando. A qualquer momento agora ela iria se levantar e colocar suas roupas, diria a ele que o amava, amara-o sempre mas não desta forma. Que eles não eram uma paixão, e sim uma amizade.

Ele disse a si mesmo que poderia suportar isso, antes de ter ido à ponte se confessar. Ele próprio disse que poderia ter sua amizade e nada mais, que era melhor do que não tê-la por perto. Mas agora que ele sabia, agora que eles haviam dividido suspiros e seus corpos e suas almas, ele não poderia voltar atrás. Para ser somente seu amigo, nunca tocá-la novamente, iria rasgá-lo em mim pedaços. Seria mais agonizante do que o fogo celestial jamais fora.

Ela se voltou para ele, segurando algo em suas mãos.

“Jem?” disse ela. “Jem, você está a milhares de quilômetros de distância!” Ela tinha se enrolado em uma colcha cinza dobrada do sofá; ela se sentou ao lado dele; as lágrimas tinham desaparecido e ela estava aconchegada e sorrindo. “Honestamente, se o que nós acabamos de fazer não chamar a sua atenção, eu não sei o que faria.”

Ele olhou para ela. “Mas você estava chorando,” ele disse, finalmente.

Ela olhou para ele intrigada. “Porque eu estou feliz. Porque aquilo foi perfeito.”

Ele soltou o fôlego em uma onda de alívio. “Então isso foi — aquilo foi bom? Eu poderia melhoras, poderíamos praticar —”

Ele percebeu o que acabara de dizer, e fechou a boca.

Um sorriso malicioso se espalhou pelo rosto dela. “Oh, nós vamos praticar,” disse ela. “Assim que estiver pronto.”

“Eu não tenho outros compromissos para esta noite”, disse ele gravemente.

Ela corou. “Seu corpo pode precisar de tempo para — para se recuperar.”

“Não”, ele disse, e desta vez ele se permitiu um pequeno traço de presunção. “Não, eu não acho.”

Ela corou ainda mais. Ele adorava a fazer corar; sempre amou. “Bem, eu preciso de cinco minutos, pelo menos!” disse ela. “E eu preciso que você veja isso. Por favor?”

Ela estendeu um pedaço de papel para ele. Sua expressão era surpreendentemente sombria; isso mandou a presunção dele embora, e o seu desejo de provocá-la também. Não ousando falar, ele pegou o papel dela e desdobrou.

Ela limpou a garganta. “Eu posso ter brincado mais cedo,” disse ela, “quando eu disse que consegui esse lugar sob o nome de Bedelia Codfish.”

Ele olhou para a escritura do apartamento em Queen’s Gate. Ele foi feito em nome de Tessa, ou algo parecido. Não Tessa Gray, no entanto, nem mesmo Tessa Herondale. Ela foi feita em nome de Tessa Herondale Carstairs.

“Quando falei com Magnus em Idris, após a Guerra Mortal”, disse ela, “ele me disse que tinha sonhado que você estava curado. Você sabe como Magnus é. Algumas vezes os sonhos dele são reais. Então eu me permiti ter esperanças pela primeira vez em muito tempo. Eu sabia que isso era improvável, se não impossível. Eu sabia que isso poderia demorar muitos anos. Mas você me pediu para me casar com você uma vez, há muito tempo. E, de certa forma, essa é a nossa noite de núpcias. Uma consumação com muito tempo de atraso.” Ela sorriu para ele, mordendo o lábio, claramente nervosa.

Os dedos dela brincavam com o cobertor que ela envolveu em volta dela. “Talvez eu não deveria ter pego emprestado o seu nome, mas eu sempre senti no meu sangue que nós éramos uma família.”

“Tessa Herondale Carstairs,” ele sussurrou. “Você jamais deve se preocupar em pegar o meu nome emprestado quando você sabe que poderia pegá-lo de vez.”

Ele largou o pedaço de papel da mão dele e a alcançou. Ela se inclinou em seu colo e ele a segurou forte, contra a sensação de engasgamento em sua própria garganta.

Ela nunca tinha desistido dele. Ele lembrou de uma vez dizer a Will quando ele lhe havia dado fé, quando Will não tinha mais nenhuma. Ele sempre esperou o melhor para Will, mesmo quando Will não esperava o melhor para si mesmo. E Tessa fez isso por ele. Ele tinha há muito tempo perdido a esperança de uma cura, mas ela — ela sempre teve.

Mizpah, Tessa,” ele sussurrou. “Na verdade, com certeza Deus estava olhando por nós enquanto nós estávamos separados um do outro. E ele olhou por nós quando ambos fomos separados de Will e nos trouxe de volta um para o outro.”

***

Eles dormiram agarrados sobre os restos do vestido de Tessa, e mais tarde se mudaram para o sofá. Estava bem escuro, e eles beberam chá gelado e fizeram amor de novo, dessa vez mais gentilmente e devagar até Tessa se segurar nos ombros de Jem implorar para ele ir mais rápido. “Dolcissimo, não appasionato,” disse ele com um sorriso de pura diversão atormentada.

“Ah, é?” Ela se abaixou e fez algo com a mão que ele claramente não estava preparado. Todo o seu corpo ficou tenso. Ela riu enquanto as mãos dele se enterravam de repente na cintura dela, os dedos cavando. Seus cabelos escuros pendurados em seus olhos; sua pele brilhava com o suor. Mais cedo, ela havia fechado os seus próprios olhos: desta vez ela o viu, a mudança em sua expressão enquanto seu controle quebrava, a forma de sua boca enquanto ele suspirava seu nome.

“Tessa —”

E dessa vez ela esqueceu de morder a mão para abafar os sons que ela fazia. Oh, bem. Danem-se os vizinhos. Ela havia ficado em silêncio por quase um século.

“Talvez isso tenha sido mais presto do que eu esperava,” ele disse com uma risada, quando eles estavam deitados juntos depois, encravados entre as almofadas. “Mas então, você me enganou. Você é mais experiente do que eu.”

“Eu gosto disso.” Tessa beijou os dedos dele. “Eu vou ter uma grande dose de divertimento introduzindo-lhe a tudo. Mal posso esperar para você ouvir rock and roll, Jem Carstairs. E eu quero vê-lo usar o iPhone. E um computador. E andar de metrô. Você já esteve em um avião? Eu quero estar em um avião com você.”

Jem ainda estava rindo. O cabelo dele estava uma grande bagunça, e os seus olhos estavam escuros e brilhando à luz do lampião. Ele olhou como o garoto que havia sido, há tantos anos atrás, mas diferente também: esse era um Jem que Tessa só tinha começado a conhecer. Um jovem, saudável Jem, não um garoto morrendo ou um Irmão do Silêncio. Um Jem que poderia amá-la com toda a força que ela poderia amá-lo de volta.

“Vamos pegar um avião”, disse ele. “Talvez para Los Angeles.”

Ela sorriu. Ela sabia por que tinham que estar lá.

“Teremos tempo de fazer tudo,” disse ele, traçando um de seus dedos para a lateral do rosto dela. “Nós temos a eternidade.”

Não a eternidade, Tessa pensou. Eles tinham um longo, longo tempo. Uma vida inteira. A vida inteira dele. E ela iria perdê-lo algum dia, como ela perdeu Will, e o coração dela quebraria, como foi quebrado antes. E ela iria se recompor e seguir em frente, porque a memoria de ter tido Jem seria melhor do que nunca ter tido ele.

Ela era sábia o suficiente para saber disso agora.

“O que você disse antes,” ela perguntou. “Que Jace Herondale ama Clarissa Fairchild mais do que qualquer pessoa que você já conheceu, exceto alguém — você nunca terminou a sentença. Quem era?”

“Eu ia dizer você e eu e Will,” disse ele. “Mas — essa é uma coisa estranha de se dizer, não é?”

“Nem um pouco.” Ela se aninhou ao seu lado. “Exatamente. Sempre e sempre, exatamente.”

Jessaextra

O fim e o começo.

Quadrinho Will/Tessa

fontes: Cassandra Clare no Tumblr; Idris Brasil
Quadrinho Will/Tessa de Cassandra Jean e [Cassandra Clare]. Tessa volta de seu encontro anual com Jem com algumas notícias para Will. Ou: quando James Herondale recebe seu nome. Com participações de Charlotte e Cecily, Anna Lightwood e Charles Fairchild.

Referências

Esta página utiliza conteúdo de um artigo da The Shadowhunters Wiki.
A lista de autores pode ser vista no histórico da página.

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